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| Subject: O Défice e o Aparelho | |
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Author: J.L. Saldanha Sanches |
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Date Posted: 29/04/06 18:54:31 A DIRECÇÃO de serviços dos óleos alimentares do distrito de X estava há uns cinco ou dez anos quase sem nada que fazer. Um ou dois lagares de azeite que dantes se entretinha a vigiar tinham fechado. O azeite agora era produzido numa moderna unidade industrial, noutro distrito, que exportava parte da produção. Os funcionários com menos imaginação apareciam lá pela manhã para contar umas histórias, alguns tinham arranjado emprego e só lá iam assinar o ponto e outros estavam em casa a ver novelas; com uma baixa psiquiátrica que certificava, para todos os efeitos legais, que sofriam de uma depressão prolongada. Prolongada e normal: depois de anos e anos a arrastarem-se por uma repartição sem nada com que se ocupassem, a não ser dizer mal do chefe, a depressão era inteiramente justificada. Mesmo para aqueles funcionários que têm o vício de trabalhar e conseguem sempre inventar trabalho (há gente assim na função pública), a situação naquele local era desesperada. Na comarca de Y a situação era mais ou menos a mesma. O tribunal datava da primeira reforma de Mouzinho da Silveira e pouco a pouco os utentes tinham acabado. Se não fosse a amabilidade de um qualquer desordeiro que por vezes esfaqueava um conterrâneo havia meses quase sem julgamentos. Os funcionários tratavam das suas pequenas propriedades (na altura das vindimas não estava lá ninguém), o juiz passava por lá às terças e quintas regressando depois a Lisboa onde vivia. O delegado do Ministério Público ia olhando para os processos uma manhã ou outra (tinha que ser de manhã porque depois de almoço costumava ter um passo incerto e adormecer na secretária). Entretanto no ministério dos óleos alimentares e produtos correlativos tinha surgido um projecto para fechar a tal repartição: talvez fosse possível conseguir que os funcionários que já tinham outros empregos se despedissem se tivessem de se deslocar vinte ou trinta quilómetros para assinar o ponto. Não era muito certo: o jurista do ministério, a quem foi pedida opinião sobre esta possibilidade, entregou (três meses depois) um parecer de uma página onde exprimia as suas dúvidas e sugeria que fosse ouvida sobre o assunto a Procuradoria-Geral da República. Ainda assim, mesmo que fossem para casa a receber o ordenado por inteiro, sempre se poupava na renda mensal de 10 mil euros (o senhorio era cunhado do presidente da distrital do partido que estava no governo aquando do arrendamento), nos telefones (uma vez que alguns dos funcionários tratavam lá dos seus complicados negócios) e noutras despesas correntes. No entanto, havia alguns pequenos problemas. O presidente da câmara pertencia ao partido do Governo e logo por azar era da facção do primeiro-ministro. Tinha sido o organizador do primeiro jantar de apoio em que tinha garantido aos potenciais apoiantes (alguns diziam que o apoiado era um tolo e que mais valia apostar num outro) que com aquele homem a desertificação do interior ia acabar e que ia finalmente começar a regionalização com mais alguns empregos para os mais fiéis. Logo, naquele distrito, era impossível fechar fosse o que fosse. O ministro que tivesse paciência mas teria de começar por outro lado. Com o tribunal foi pior: como o presidente da câmara era do partido da oposição, já era autarca há muito tempo e andava sempre em viagem com os mais variados pretextos (vila geminada, deslocações do rancho folclórico, viagens de estudos) só iria reparar depois do tribunal já ter fechado. Para mais, o concelho tinha poucos votos e a coisa parecia bem encaminhada. Havia, claro, as maiores dúvidas que magistrados e funcionários, habituados àquela santa paz e à qualidade de vida que dão os rendimentos certos numa vila do interior, aceitassem ir para onde houvesse trabalho. Mas sempre se evitavam as obras de reconstrução do tribunal. O velho edifício ameaçava ruir a qualquer momento (e logo por azar podia estar lá alguém) e as obras iam ser caríssimas. Foi precisamente por aí que tudo se estragou: as obras iam ser caríssimas porque já estavam destinadas a um empreiteiro de obras públicas que por acaso era da terra e já tinha contribuído para os fundos de campanha do partido no poder e, ainda mais, para a prosperidade pessoal de alguns dos seus principais dirigentes. Quando soube que iam fechar o tribunal da terra dele e que já não havia obras foi falar pessoalmente com o ministro (isto agora com as escutas nos telefones está pior do que antes do 25 de Abril) e recordou-lhe algumas coisas de que ele se lembrava muito bem. Aquele tribunal não podia ser fechado e as obras tinham que se fazer. Tudo visto e resumido, talvez com estas pequenas histórias (de pura ficção), se possa perceber porque é que as despesas não baixam e o número de funcionários sobe. Naquela ligação estrutural, entre desperdício, corrupção e aparelhos partidários que são a face. Tornando mais fácil o anúncio de grandes medidas do que os pequenos passos que podiam diminuir a despesa pública. ssanches@netcabo.pt [ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ] |