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Subject: O Traidor não tem nome


Author:
Mariano Garrido
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Date Posted: 10/08/07 10:59:26

O Traidor não tem nome (ou Um português por trás de uma camisa)

A institucionalização da barbárie nunca seria possível, em lugar algum, sem a inestimável colaboração dos traidores. Não têm nome, na realidade nem sequer são gente: são apenas traidores.


Com passo marcial, o caudilho entra em Madrid, a cidade que ele presumira tomar em poucas semanas, e que levou três anos a romper as suas defesas.

No meio da debandada republicana e da entrada da tropa franquista, uns últimos grupos comunistas ainda resistem com as armas bem aperradas, entrincheirados em edifícios, lutando nas ruas em insustentável inferioridade numérica: são os que decidem continuar até ao fim. Sabem, talvez, que entre uma rendição a um vencedor impune, e uma morte certa num combate impossível, a segunda pode ser uma melhor opção.

O Papa Pio XII saúda publicamente o triunfo da Espanha Católica, a quem, finalmente, o caminho se abre entre meio milhão de mortos, e que se preparava em alcançar um número ainda maior de presos políticos. A Guerra Civil Espanhola tinha chegado ao fim.

***

Os testemunhos da época contam que em Abril de 39, as ruas de Sevilha transbordam de gente que, indo e vindo, tentam misturar-se na multidão para poder abandonar clandestinamente a cidade e depois o país. Entre os transitavam por esse terrível cena, deambulava Miguel, um ex soldado republicano. Procurava um amigo escritor que vivia na cidade, mas não conseguiu encontrá-lo: o seu contacto encontrava-se entre os que já tinham partido da zona. Este soldado perdido na multidão é o mesmo que, dois anos antes, perante de um auditório cheio de intelectuais antifascistas provenientes dos mais longínquos territórios, tinha sido aclamado e distinguido como poeta da guerra.

Esse soldado que agora caminha sem rumo tinha, apesar da escassa instrução, sido laureado, nacional e internacionalmente, pela sua combativa poesia, não isenta de algum pendor lírico. Um soldado-poeta; alguém que antes tinha sido um pastor-poeta, camponês-poeta, agora caminha procurando escapar aos olhos de um inimigo desapiedado que controlava a zona. Ali vai aquele soldado que, perigosamente, não pode ocultar a sua pertença ao povo que o gerou, o que demonstra com a sua voz, o seu olhar transparente, a sua pele curtida e requeimada, a sua pronúncia rústica, a sua inexistente bagagem. Com dificuldade, este soldado ultrapassa o cerco. Encontra-se agora em Huelva, dentro de Sevilla mas fora da cidade, por fim, e mais perto da fronteira com Portugal. Ali, Miguel Hernández, o poeta, o soldado, o militante comunista, escreve uma carta à sua amada projectando algumas condições para a fuga dela e do seu filho, para se reuniram uma vez passada a fronteira. Com letra angustiada, Miguel diz à sua esposa “ânimo e coragem para a viagem”.

***

Fins de Abril. Tudo parecia correr da forma concertada, ou desmoronar-se a qualquer momento. A saída está perto, salta à vista na geografia: Rosal de la Frontera chama-se a pequena aldeia espanhol. Ali bem perto, o sul de Portugal; e dali, uma eventual viagem até Lisboa, o possível asilo político, talvez na embaixada chilena.

Este passo do relato das testemunhas torna-se mais difuso, e a falta de coincidência dos biógrafos obriga-nos a optar por uma versão. Cotejando uma das primeiras biografias sérias de Hernández, a da escritora Concha Zardoya, com a correspondência existente da época, pode afirmar-se a veracidade de alguns dos acontecimentos seguintes e repor as dúvidas sobre os restantes. Ora bem: o poeta encontra-se prestes a cruzar clandestinamente a fronteira. Está com pouco dinheiro, quase nada. Sabe que, uma vez em Portugal precisa dele para alcançar o destino. Decide, então, vender a sua única muda de camisa e ficar apenas com a que tinha vestida, nada mais. Vai desfazer-se da sua camisa azul; a sua camisa azul, facilmente associável às milícias operárias; a sua camisa azul que pode agora significar um tribunal fuzilador.

Um português, cuja existência não é unanimemente aceite nesta história, entra em contacto com esse jovem um pouco trigueiro que está a vender a camisa. Tentam chegar a um acordo. Talvez o vendedor queira ganhar com a camisa o que ela não vale. Até é possível que tenham feito um escarcéu inútil, até chegarem a um preço aceite por ambos. Miguel vende a sua camisa, está mais perto de alcançar a saída. E sai.

Miguel encontra-se já em Portugal; conseguiu atravessar a linha fronteiriça sem que se apercebessem da sua identidade. Antes de se afastar definitivamente da zona limítrofe, é detido por uma patrulha de polícia portuguesa. O poeta sabia que devia precaver-se contra a polícia portuguesa; Salazar, o ditador local, podia ser demasiado parecido com Franco. Os polícias retêm-no, pedem-lhe os seus inexistentes documentos. Acontece que um cidadão, também português, tinha denunciado momentos antes às autoridades locais um miliciano que estava prestes a passar de Espanha para Portugal; e para melhor provar o seu testemunho e eliminar qualquer réstia de dúvida, o denunciante alegou, com ênfases, que o suspeito lhe acabara de vender uma camisa azul, seguramente a de um combatente republicano.

***

É mais conhecida e documentada esta última parte da história: transferido o detido de Portugal para Espanha, novamente em Rosal de La Frontera, onde a benemérita Guarda Civil Espanhola, ao identificá-lo, o recebe com murros e torturas: ao fim de uma quantas horas conseguem que um homem que tinha entrado são e forte, se encontre estendido no chão cuspindo e urinando sangue. Depois, mais do mesmo. Transferido de cadeia em cadeia; fome, doenças, proibição de ver a mulher e o filho. Um julgamento desapiedado com penas espantosas e ridículos procedimentos legais: Miguel Hernández é acusado de ter antecedentes esquerdistas, de se fazer passar pelo poeta da revolução e ter participado em acções armadas. Condenado á morte, a sentença é suspensa durante meses e, depois de uma torturante espera sobrevém a comutação por uma larga pena de prisão. As peripécias continuam: a tuberculose inoculada pelo cárcere, pelo frio, pela fome. A doença, sem remédios nem alimento. Entretanto, as suas cartas, os seus poemas do presídio.

Miguel Hernández morre a 28 de Março de 1942, aos trinta e um anos.

Exactamente três anos antes, também tocara a perder: o fascismo ganhava a guerra. Neste caso, o regime do general Franco terminava com os dias de outro poeta. Com a mão um pouco mais sigilosa que as da esquadra falangista que executaram Frederico Garcia Lorca, também desta vez o poder se desfazia de um inimigo da Espanha proprietária, de um inimigo dessa Espanha que se proclamava grande, unida e livre, de acordo com o que diziam os vencedores.

Aqui termina o relato; e aqui se impõem as perguntas. Perguntas sobre o relatado e também sobre os fenómenos acessórios à sequência do que se conta mas, talvez, perguntas vitais. É necessário fazer algumas perguntas sobre o destino desse combatente que se encontra um pouco isolado no momento da derrota; perguntas sobre o seu futuro que procura uma saída para si e para os seus. É licito imaginar que esse poeta-soldado que se alistou voluntariamente no Quinto Regimento e foi Comissário Político, mas antes cavador de trincheiras, trazia gravado um destino trágico, elevado: triunfo ou morte.

Mas pode também perguntar-se se esse herói trágico que foi Miguel Hernández era ao mesmo tempo, e isso não é menos certo, um lutador que amava a vida; e vivê-la. Por exemplo, reunir-se com a família, e continuar o combate sob um qualquer céu que lhe calhasse em sorte. Pode pensar-se se esse destino, que tão simétrico parece ao do poeta martirizado pelo fascismo, com uma prematura morte provocada no cárcere não é apenas uma possibilidade nesta história. Pode pensar-se também no fortuito, representado nas cem ou mil encruzilhadas que Miguel atravessou durante toda a guerra. E, neste ponto, é inevitável interrogarmo-nos pelo episódio do português que o denunciou. E perguntar o que teria sucedido se esse episódio não tivesse ocorrido; ou perguntar o que foi que aconteceu com esse sujeito anónimo, que a história e a correspondência do próprio Miguel absorvem apenas como “um português”, assim, sem epítetos sequer. O que ocorreu com esse personagem irrelevante, quase inexistente, que actua rapidamente determinando, em parte, o percurso de uma história tão alheia e que tanto o excede. Não deixa de ser assombroso, mas pode pensar-se no que levou esse ser minúsculo, referido por nada mais do que a qualidade acessória e genérica, ser português, a incidir no atirar para as masmorras um outro congénere da sua mesma classe social. É um facto: por um momento, as luzes desta história apontaram para o traidor. Para esse traidor que, no entanto, se esvai repentinamente na bruma, sendo quase uma representação do traidor universal, anónimo, sem nome apenas protagonista desta história ou de qualquer outra. Nesse dia talvez o português tenha jantado, numa mesa rústica contente consigo mesmo, satisfeito com o papel tido em tudo isto, e pela compra, tão barata, de uma já puída camisa azul. Provavelmente bebeu vinho, um pouco mais do que habitualmente, dormiu profundamente. No entanto, também não custa imaginá-lo um pouco surpreendido ao inteirar-se (se é que tal sucedeu) da magnitude da sua estúpida delação, que redundou na desnecessária morte de outro ser humano que a todos nós privou de um dos poetas mais reconhecidos do século. Ou talvez nada disto tenha acontecido ou lembrado a esse português.

O que é certo, é que a voz nesta história foi, e continuará a ser, a do poeta; tenha estado dentro ou fora do presídio, tenha podido evadir-se ou não do cerco: a verdade é e foi a sua grandeza; isso nunca esteve em causa por estas circunstância finais. E também será importante a sua voz, e não outra, para a história. E ao fim e ao cabo, ainda que a presença do português, o traidor, não deixe de perturbar-nos, o traidor… não; esse não conta. Na história, o traidor não tem nome.

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