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Subject: Narciso e as vias de acesso à social-democracia


Author:
José Manuel Jara
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Date Posted: 16/06/07 17:33:47

Narciso e as vias de acesso à social-democracia
José Manuel Jara
Avante!, 14/06/2007
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=20050&area=19

O Homem é sempre parcial e tem muita razão.
A própria imparcialidade é parcial, pertence ao partido dos imparciais.
Lichtenberg

1 - Passado e presente do narrador

Com grande eco e promoção dos media foi recentemente lançado o livro do militante do Partido Socialista Raimundo Narciso, cujo título é «Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via». Lida a obra, com a curiosidade natural de quem pretende elaborar uma crítica, fica logo a impressão de que melhor título seria o seguinte: «Eu, Narciso, e a dissidência da terceira via». É mais consentâneo com o verdadeiro conteúdo do escrito, sem desprimor para o autor que tem o cuidado de estampar no produto três fotografias suas em primeiro plano, com a antiquada pêra à Lenine, além de mais duas com o grupo da chamada «terceira via» (P. Moura, R. Narciso, M. Portas, F. Castro, J.L.Judas, A. de Sousa, A. Mendonça, B. Moura, E. Ribeiro). Para rematar algumas ironias de R. Narciso, somos tentados a considerar que o seu apelido é bem apropriado ao merecido carisma que lhe propiciam os meios de comunicação social, fruto da mutação política por si sofrida no fim da década de 80 do século XX. Mudança que é o tema da obra em análise.

Na sessão de lançamento ocorrida na Fnac-Chiado, em 17 de Maio, o seu amigo Mário Lino, companheiro das mesmas andanças e das mesmas vias, diz: «Sendo o Raimundo um protagonista importante ou mesmo um dos protagonistas centrais deste livro…» Está aqui um dos equívocos do texto. Sendo uma obra de memórias, pretende ser uma memória sobre o partido que já não é o seu e ao qual se opõe activamente. Que tipo de contributo será este «para o conhecimento da natureza e da história do PCP» (da entrevista ao Expresso, em 9 de Maio), senão o reconhecimento da sua própria dissidência pretérita, em que se inicia a nova rota, ainda ignota, em direcção ao Partido Socialista? E que valor tem esse testemunho resultante do desvio, ou mais apropriadamente da transvia contra o PCP?

O memorial dos que mudam de rumo partidário e político, numa linguagem técnica, os trânsfugas, é muito menos um relato objectivo e realista do que uma confissão, de um ajuste de contas com o recalcado e o ressentimento emocional. A mudança de identidade para quem viveu uma longa clandestinidade e uma prolongada função dirigente no Partido Comunista é um traumatismo psico-afectivo que leva a procedimentos de catarse na escrita, para ordenar o material biográfico segundo uma narrativa aceitável para o público destinatário e, em eco, para o próprio Narciso. A perspectiva política do autor só pode ser a da sua actual posição, depois da sua descaracterização como comunista, da sua perda dessa identidade, das suas novas convicções e da sua praxis actual. Melhor ainda, da sua actual perspectiva de classe social e da filiação político-partidária no PS. A ilusão de objectividade é um erro de perspectiva claramente narcísico: confundir a (sua) opinião com um saber credível e fundamentado. Curiosamente, o autor é de facto membro de um Gabinete de Estudos do PS… A sua obra poderia muito bem ser inscrita como um contributo desse gabinete, para enriquecimento curricular de Raimundo Narciso no PS.

2 - A crise das consciências e a realidade

Álvaro Cunhal, no período agudo de turbulência interna do PCP de 1987 e 1988, que culmina no XII Congresso de 1 de Dezembro de 1988, caracterizou a situação política interna do partido como sendo expressão da «crise da consciência comunista de alguns militantes», mais do que uma crise do Partido. O diagnóstico do estado de consciência político-ideológica dos elementos do chamado «Grupo dos Seis» e dos da designada «Terceira Via» está, meia dúzia de anos volvidos, perfeitamente confirmado. A atitude preventiva da direcção do PCP, a vigilância, o controlo e a luta contra a dissidência, permitiu evitar o pior. Se porventura qualquer dos dois grupos, aliás muito semelhantes na teoria e na prática, e convergentes nos propósitos, tivesse levado de vencida as suas teses de reestruturação, renovação e revitalização do PCP, teríamos a liquidação do Partido. Se os partidários da proclamada renovação dos finais dos anos 80 se foram meter com armas e bagagens no PS, que poderíamos esperar de tão encarniçados (como o rabanete!) militantes, então nominalmente ainda comunistas?
A jornalista Maria Flor Pedroso, ao entrevistar RN na Antena 1, afirma precisamente isso, que os militantes do Partido que se opuseram aos «críticos» (Terceira via e Seis, etc) tinham visto mais longe, tinham percebido que o seu destino seria o PS… Com raras excepções… Narciso, algo embaraçado, mas com a fleuma que lhe vem de ter sido um operacional da Acção Revolucionária Armada (ARA), limita-se a deixar confusamente que tal seria «uma visão a posteriori». Bem se vê que ser operador não dá créditos para estratega…

Ciente da importância do término das várias vias da dissidência, aconselho quem estiver interessado em ler o livro que comece pelos «anexos», mais precisamente pelos «Percursos Políticos» (p. 195). Desses grupos, num breve sumário, iremos encontrar três secretários de Estado (José Magalhães, Mário Vieira de Carvalho e Isabel Pires de Lima) e um ministro (Mário Lino), do Governo de Sócrates, vários deputados do PS, gestores de grandes empresas (Pina Moura, depois de vários ministérios), empresários, um presidente de Câmara do PS (José Ernesto). Vital Moreira, relator principal dos documentos dos «Seis», tornou-se um defensor oficioso do Governo do PS, depois de ser um deputado algo «independente». Ironicamente, a «grande vítima» da excomunhão, a mártir da purga, eminência parda do «Grupo dos Seis», membro suplente da Comissão Política do PCP antes da despromoção «estalinista», fez, sem nenhuma vergonha, o seu transbordo para a direita, evidenciando a justeza de todo o procedimento de expulsão, sendo de estranhar ter conseguido subir tão alto. Mas na obra de Raimundo Narciso o caso ainda ocupa 12 páginas, quase 10 % do texto, com o subtítulo «O julgamento de Zita Seabra». No dizer de Narciso, a despromoção de Zita, foi um «assassinato político», numa «madrugada de facas longas», passe o exagero que ele próprio reconhece: eis o estilo com que se cose o texto do autor, patético e histérico, para justificar a tentativa de castração política da direcção do PCP através da dissidência armada.

No jornal O Sol, o autor é entrevistado em 13 de Maio, sendo o seu livro considerado «uma viagem guiada ao interior do Comité Central do PCP entre Julho de 1987 e Dezembro de 1988». Que belo cicerone me arranjaste, bolas… No contexto em que decorre a Perestroika, inicialmente a prometer mais democracia e socialismo na URSS, depois a restaurar o capitalismo selvagem e a instalar uma oligarquia financeira pelo roubo da propriedade pública, RN considera que as razões para a «ruptura», embora influenciadas pela conjuntura internacional, são mais de carácter interno:

«Todos nós (terceira via) estávamos próximos ou fazíamos parte dos órgãos de decisão do PCP e constatávamos uma evolução cada vez mais desadequada com a realidade, que não acompanhava as grandes mudanças da sociedade portuguesa.»

O termo «a realidade» é utilizado no livro por diversas vezes sem clara explicitação do sentido: «enfrentar a realidade», «confrontá-lo (ao PCP) com a realidade», «na fuga à realidade», pelo PCP; «deixou de haver no PCP um horizonte compatível com a actual realidade (…)». Curiosamente, na entrevista à Antena 1 acima referida, o autor afirma que «querendo continuar na política» tinham escolhido o PS por ser «uma escolha mais realista». Aquele realismo pragmático que os clássicos do marxismo chamam oportunismo, o espírito adaptativo de renúncia a ideais, a qualquer verdadeira luta pela transformação social, a aceitação da realidade tal como é.

3 - A dissidência que resiste e desiste

O ministro muito amigo Mário Lino promove Narciso a escritor, tecendo loas infindáveis à forte personalidade, firmeza de princípios, simplicidade, e ainda mais dez adjectivos que nos dispensamos de citar para poupar espaço à crítica. Tudo indica que RN foi também um grande resistente à direcção do PCP, como abaixo se demonstra: «Aos que resistiam ao canto de sereia da direcção unia-os apenas a determinação de lutar contra a via suicida de autismo político... A decisão de que não nos íamos deixar atemorizar…» Esta inversão de posições é interessante. Afinal quem canta a melodia nova, que, pelos trilhos seguidos pelos promotores, levaria, isso sim, ao suicídio do PCP?... A coragem enfática, com todo o destemor, é auto-elogio muito típico. Estas «vias» estavam a jogar ao ataque com uma ampla cobertura de meios exteriores…

O «grupo dos seis», composto de «brilhantes» tribunos e «estrelas» parlamentares, tinha um louvável palmarés político, elaborando textos de primeira água, logo publicados na imprensa, incluindo o do comandante de submarino Bento Nemo, aliás Vital Moreira na clandestinidade dourada. Grupo bicéfalo, pois Veiga de Oliveira foi o outro grande chefe dos restantes quatro militantes. A triste ideia de ir dar a bênção eleitoral a Cavaco liquidou retroactivamente todo o prestígio que ainda lhe restava antes de expirar. Este grupo especializou-se na manufactura de artigos políticos de análise estatutária, política e ideológica. A besta negra, o centralismo democrático, era o obstáculo à sua «via verde»…

O Grupo da «terceira via» tem outra especialização… Está dentro do aparelho, localiza-se na sede da Soeiro Pereira Gomes. Raimundo, por exemplo, está no 5.º andar, mesmo por baixo de Álvaro Cunhal. A sua especialidade, de «terceira via», a via que os jornalistas baptizaram assim por acharem equivocadamente que se situava entre a direcção «ortodoxa» e os «Seis», quase marginais, é operacional e organizativa. Tem na sua composição quadros experientes, membros do Comité Central, etc. Constitui-se, na sequência da Perestroika, num auto-intitulado «Gabinete de Crise»: «Fizeram-se reuniões mesmo na sede do PCP» (p. 77). Ou reúnem-se informalmente na sala de convívio da Soeiro, ou num restaurante por perto. O «Gabinete de Crise» será chamado «grupo secreto» por alguns membros da direcção do Partido. Já existia o Grupo dos Seis e «nós ainda não éramos um grupo organizado» (p. 43). Às tantas, pelo ano 1988, «o Grupo da Terceira Via, estabelece o seu quartel-general na casa de Pina Moura, ao Restelo, e começa a desenvolver uma actividade organizada mais alargada».

Depois de tanta conspiração à luz do dia, à revelia das normas do PCP, não seria de esperar que o colectivo partidário exercesse acções de controlo e verificação? Ou seria preferível deixar-se cair, incauto, nas minas e armadilhas? RN acha muito normal a sua acção «conspirativa» (aspas de R. Narciso), mas fica muito indignado com procedimentos que visam desarmar e prevenir esses comportamentos, incluindo a vigilância militante. A sua denúncia pública no livro da «dissidência» contra elementos da direcção do PCP, como se agissem como uma polícia, faz parte da táctica da auto-vitimação e é uma pura delação de baixo estofo para estigmatizar os comunistas.

Nesta fase, que antecede o XII Congresso, estes grupos organizados e muito activos por dentro e por fora do Partido, apostam nos regulamentos, nas regras e nos estatutos. Pretendem formatar o PCP de modo a poderem conquistar o poder, isto é passarem a ser a direcção do Partido. Mas a nova forma encerra um novíssimo conteúdo. Seria uma «coisa» (La cosa) à maneira italiana, a descaracterização do Partido Comunista, no modelo domesticado, moderado e cordato, para ser objecto de boas vindas, com beberete, pela sociedade civil e pela burguesia. A contra-prova está a nu. Se no início, todos os membros destes grupos se chamavam a si próprios «comunistas» (na terceira via, até marxistas-leninistas…), a verdade revelada não iria tardar mais do que meia dúzia de anos. A semente da discórdia floresceu numa bela rosa social-democrata, e a «terceira via», conglomerada com os «Seis» (e tutti quanti) no Instituto Nacional de Estudos Sociais (INES), depois transformada em gabinete da Plataforma de Esquerda, converteu-se numa via terceira à moda de Guterres ou à Sócrates, pelo figurino neoliberal do Tio Blair. Assim vai o mundo!

4 - Para onde ides?

A riqueza da obra de Raimundo Narciso revela-se muito mais nos anexos que achou por bem incluir no livro, aumentando-lhe substancialmente o volume, de 142 páginas para 200. O 1.º documento da «Terceira Via», enviada ao Comité Central em Junho de 1988, merece uma breve análise, incidindo no estilo, que, como se verá, é muito revelador sobre as mentalidades dos dissidentes. Reza assim: «Não se trata de pôr em causa a natureza de classe do partido» (…); «Não se trata de pôr em causa a ideologia marxista-leninista do partido»; «Não se trata de promover a social-democratização do PCP»; «Os camaradas que assinam este documento não constituem qualquer grupo ou fracção» (…).

Aqui verifica-se aquele postulado marxista sobre o atraso da consciência em relação à realidade. Esta ideologia renovadora, à luz do que agora se sabe, evidencia na interpretação mais benévola um clamoroso auto-engano, uma miopia política próxima da ambliopia. Numa interpretação mais aprofundada, evidencia uma profunda má fé. Os «não» das frases acima citadas são pura retórica. Descodificando as frases, pela evidência dos factos, que transparecem no livro de R.N., onde está «não» deve ler-se «sim». Sim, «social-democratização», sim, fracção, sim, pôr em causa a natureza de classe, sim, abolir o marxismo-leninismo de facto! Ficamos estupefactos, Raimundo deve ter esquecido o primeiro documento da sua terceira via…Amnésia muito típica das perdas de identidade!

Depois desta excursão pelo passado remoto da via transviada, desçamos ao concreto das relações humanas, objecto do livro de Narciso. Diz o aforismo, que ninguém é filósofo para o seu valet de chambre. A proximidade topográfica de RN com Álvaro Cunhal teve um efeito muito semelhante, especialmente quando os seus espaços político-ideológicos se afastaram irremediavelmente. À admiração e respeito, talvez mesmo veneração, sucedeu o despeito, a ironia, a esquiva e a observação de lado, mordaz. O complexo de inferioridade recalcado, a revolta de geração contra o pai, a fazer das suas. Entendemos bem que RN escolha como alvo a pessoa de Álvaro Cunhal, que promove a título da obra, com fotografia na capa. No seu estilo contraditório, característico do oportunismo, afirma RN que Álvaro Cunhal ocupa no livro um lugar central, mas que o escrito não é um panegírico do secretário-geral do PCP. Poderia lá ser!... A hipocrisia do autor ultrapassa aqui todos os limites. A verdade é a que Raimundo enuncia a seguir: «este livro é o testemunho de quem viveu o apogeu e o declínio da obra de Álvaro Cunhal». A verdade seria ainda outra, a de que RN tentou contribuir para o declínio da obra de Álvaro Cunhal, trabalhando na via da dissidência para a liquidação do PCP. Mas infrutiferamente. Percebe-se que Raimundo Narciso tenha ficado incomodado, quando na mesa do XII Congresso, Álvaro Cunhal o aplaude suavemente, «daquelas palmas de circunstância» «num adejar de mãos», «distraídas e democráticas palmas», no fim da sua intervenção na tribuna, concertada para o congresso, na qual calou muito bem o que lhe ia na alma. Álvaro Cunhal aplaudiu apenas o que ouviu, não o resto, que já sabia…

A irreverência desrespeitosa do autor palpa-se em certas frases onde escapa o verniz do cinismo realista que é seu timbre. A heróica fuga de Peniche, por exemplo, é referida como «a holywoodesca fuga do forte de Peniche» (p.21). Ou, quando diz que «o PCP com Jerónimo de Sousa, com um comunismo de sociedade recreativa já não é nada do que era» (p. 29), evidenciando a sobranceria do elitista que olha de alto a plebe. Ou quando, com bobice, após uma conversa com Álvaro Cunhal, diz que «não havia nada de que ele menos gostasse do que piparotes nos objectos sagrados». Leia-se, os princípios e convicções de comunista.

A inanidade ideológica destes «críticos» sintetiza-se de modo muito simples. Passaram da crítica hiperbólica dentro do PCP e romperam com os seus ideias de antanho. Depois da metamorfose, passaram a ser meninos muito bem comportados, a tratar da vidinha, a prosperar segundo os seus talentos e as facilidades de ocasião. Os amigos dão-se as mãos, não já para agrupamentos e fracções, mas para sociedades por quotas e acções. Sempre é um resquício de solidariedade. Quanto à política, está a paredes-meias com a economia política e as finanças pessoais. A ideologia antes sobrevalorizada, agora é muda. O único «pensamento» é mercantil...

Só não se entende porque voltam de novo a autopsiar o seu próprio cadáver político.

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Subject Author Date
O texto é duro, mas... verdadeiro (NT)Verdadeiro25/06/07 23:33:37


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