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Subject: Quando o doutor globaliza


Author:
Correia da Fonseca
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Date Posted: 3/04/07 18:52:26

Quando o doutor globaliza

A vintena de economistas do sistema rodam nos cargos em função da alternância do PS e PSD no governo. Todos eles, no entanto, apresentam um traço comum: mais do que técnicos da ciência económica são propagandistas da política neoliberal e exigem, em nome de uma falsa evidência, medidas cada vez mais gravosas para as classes trabalhadoras.

Correia da Fonseca* - 03.04.07

Como é sabido, o «Expresso da Meia-Noite» é um programa de debate que, no SIC-Notícias, serve na sexta-feira à noite como publicidade não assumida do número do semanário «Expresso» que sairá na manhã seguinte e que tem um desdobramento, isto é uma repetição ao princípio da tarde do sábado, decerto porque no aproveitar é que está o ganho: neste caso tem o SIC-Notícias a antena ocupada durante cerca de duas horas sem mais cus¬tos de produção. Por mim, prefiro utilizar o tal desdobramento do «Expresso», o «da Meia-Noite», na remota esperança de que possa estar mais desperto e lúcido numa tarde de sábado que num serão de sexta-feira. E foi assim que no passado sábado tive oportunidade de ouvir, entre outros, o senhor professor Miguel Beleza a pronunciar-se sobre o défice de 3,9, suas antecedências e consequências. Outros abordaram o mesmo tema que, como agora muito se diz, era o que «estava em cima da mesa», mas as palavras de Miguel Beleza, ou pelo menos algumas delas, foram as que mais me impressionaram, digamos assim. Pela negativa, esclareça-se.

Refiro-me sobretudo aos momentos em que o ex-ministro das Finanças, no âmbito da desvalorização do êxito alcançado pelo governo na óptica que antes de tudo privilegia a obediência às regras de Bruxelas (e que outros desvalorizaram também invocando razões diferentes e que me pareceram bem mais procedentes), falou do consumo das famílias e das empresas que, segundo ele, terá crescido muito (deve dizer-se «dispara¬do», metáfora de ressonância bélica que passou a ser usada por quem se exprima em economês) há uns anos atrás. Disse mes¬mo o senhor professor que se tratou de uma «orgia», palavra que não sei bem porquê sempre me parece conotável com os velhos tempos da Roma Imperial. Ora, acontece que estas referências ao «consumo das famílias», sempre ou quase sempre feitas em tom acusatório e mais ou menos relacionável com o tal clima orgíaco, tem o efeito de me cair pessimamente no estômago. Porque há famílias e famílias, sendo mais que provável que a família de Miguel Beleza, por exemplo, seja substancialmente diferente da minha própria família e mais ainda da família ao senhor Delfim, que vende jornais defronte da casa onde moro. Assim, isto de globalizar todas as famílias portuguesas numa designação comum parece-me não apenas pouco rigoroso, o que talvez consubstanciasse apenas um pecado venial, mas também meio caminho andado para uma falácia, isto é, para uma aldrabice, com perdão deste semi-plebeísmo. E quanto a orgias, sejam elas de que espécie forem, perdoará o senhor professor que me demarque da implícita acusação de ter participado em qualquer delas, e comigo estará seguramente a maioria dos portugueses. Saberá Miguel Beleza das suas, e é claro que es¬tou agora a referir-me exclusivamente à área financeira dos cidadãos que podem dar-se ao luxo e ao prazer de gastos orgíacos, mas a verdade e a justiça elementares mandam que se coíba de globalizações.

É certo, sem dúvida, que «as famílias», muitas famílias, gastam mais do que seria desejável em face dos rendimentos auferidos. O próprio Miguel Beleza se referiu a gastos de dois tipos: os referentes à compra de habitação, com a consequen¬te necessidade de pagamentos mensais muito elevados, e à com¬pra de automóveis. Ao que parece e a julgar pelas palavras do senhor professor e também ex-governador do Banco de Portugal, estas duas despesas serão as mais relevantes e relacionáveis não só com o sempre muito falado «despesismo» dos portugueses mas também com o alto nível de endividamento dos cidadãos. Convém muito, porém, abrir um pouco estas duas acusações e ver o que está lá dentro. Quanto à compra de habitação, parece óbvio: a necessidade que jovens casais sentem de não partilharem o específico estilo de vida dos sem-abrigo e a ambição de não fica¬rem alojados no corredor das acanhadas casas paternas. No que se refere a automóveis, é preciso fazer também aqui uma distin¬ção: há automóveis e automóveis; há-os de luxo e superluxo e os que são literal e funcionalmente utilitários; há os carros dos gestores de empresas e os carros em que os seus empregados levam ao infantário o filhote mais pequeno, à escola o filho mais velho (os que se atreveram a ter dois filhos, audácia medonha, caríssima e talvez atentatória da saúde orçamental do Estado), a mulher ao emprego servido por maus e insuficientes transportes públicos, o próprio, enfim, ao seu lugar de tra¬balho. Já por aqui se vê que também em matéria de despesismos orgíacos com automóveis é preciso estabelecer diferenças. Já por aqui talvez se suspeite que a utilização global de uma única menção a carros, como a casas, só pode agradar e servir aos que gostam de nevoeiros em que tudo se confunde. Não será, espero o caso do dr. Miguel Beleza. Mas também em intenção a ele pode ser invocado o tão citado precedente da mulher de César: não basta que o não seja, é preciso que não o pareça.


* Correia da Fonseca, crítico de TV é colaborador de odiario.info

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