VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

11/12/19 23:07:48Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 1234567[8]9 ]
Subject: Presidenciais 2007: a gruta do cego?


Author:
Georges Labica
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 3/02/07 11:16:15

Presidenciais 2007: a gruta do cego?

Georges Labica
O perigo da eventual eleição do ultra-direita e racista Sarkozy, não pode fazer esquecer que Segolène Royal, a elegante candidata do PS, terá sido escolhida mais por critérios de marketing que pela sua preparação para o exercício do cargo de Presidente da República de França. Oriunda da direita do PS francês, Segolène não faz os revolucionários franceses esquecerem que foi “a luta de classes que fez a originalidade da história” do seu país.

Georges Labica* - 03.02.07

A actual conjuntura

A actual conjuntura caracteriza-se por um deslizar para a direita das principais forças políticas. Daí, nunca os eleitores tiveram tantas opções de escolha à direita: Le Pen, De Villiers, Sarkozi, Bairou, Royal.

O discurso securitário, hoje ideologia dominante, legitima todos os dispositivos do liberalismo, derradeira fase do capitalismo mundializado, ao declará-los inultrapassáveis.

O sistema

Quando não é pura e simplesmente ignorado, o sistema pode ser objecto de alusões (VI República?), mas nunca de declarações programáticas precisas.

É necessário lembrar que o sistema não é democrático: por um lado, sectores inteiros de opinião, verdadeiras forças sociais, são excluídas de toda e qualquer representação, através do jogo da recolha de assinaturas para propor um candidato (situação agravada ainda pela decisão de interdito do PS), e do mecanismo eleitoral; por outro lado, pelo papel figurativo/consultivo do Parlamento e pela sua submissão a um governo, retirado à avaliação eleitoral; pelo plebiscito de um indivíduo investido de poderes monárquicos.

O sistema produz dois efeitos: a existência de organizações partidárias dedicadas ao jogo eleitoral, a fim de preservar ou aumentar as posições adquiridas – políticas, morais e financeiras; o número de abstencionistas, que não para de crescer, a ponto de constituir a maioria do eleitorado, e que, apesar disso, é tratado à parte da compatibilidade dos sufrágios. Esta situação tem duas consequências comuns a todas as democracias de "modelo" ocidental: o bipartidarismo, que em França se vem afirmando de eleição em eleição e que há fortes possibilidades de se consagrar no próximo escrutínio; os eleitos, incluindo o presidente, são minoritários, logo, de acordo com o bom princípio "republicano", inaptos para o exercício de funções de executivo. Vemos já, nos dois casos, o fosso confirmado, colossal, entre as "elites" e o povo.

Este empecilho (será preciso repeti-lo?) assegura a domínio dos poderosos monopolistas, através dos media que eles próprios controlam. A sua associação (de malfeitores) já distribui os papéis para a próxima consulta popular.

Os postulantes/concorrentes

Sabe-se, pois vêm de longe, através de que manipulações a dupla Sarkozi/Royal foi empurrada para a primeira linha da frente. E, daqui em diante, parece que não resta outra solução que a de pôr luto pela alternativa que se lhes poderia opor. Só para lembrar: ela consistia em definir um programa antiliberal apoiado pela união de todas as forças sociais que se tinham empenhado nas lutas contra a constituição europeia, nomeadamente, o CPE, pelos motins dos subúrbios que não descansaram nem encontraram porta-voz. Podemos especular sobre as razões do falhanço, sem esquecermos, é claro, de apontar os culpados. Eu diria, de forma mais directa, que face ao desafio de constituir a força unitária (trans-partidária e apartidária), necessária à réplica que o recusava, o sistema, mais uma vez, afastou-a. Estavam em jogo, coragem, invenção, e talvez aventura. E o que é que se viu? As incoerências da AG sem uma verdadeira base política, as reflexões de café e, no que toca ao actor principal, a maioria PS que tinha escolhido o não, a gritaria de Fabius a Emmanueli, fundindo-se na nebulosidade de um congresso sem picoss doutrinais. Traidores? Antes arrependidos, atestando que a lógica de classe não foi para eles senão uma recreação sem consequências. E o homem de convicções (de ideias ou de princípios), Chevènement, vinha à procura de um prato de lentilhas e de conforto para a sua boa consciência. Nada mais restava à filha desta confusão, a Senhora Royal, para lá de federar os fantasmas.

E assim recomeçaram as velhas cantilenas do voto "útil" e do voto de "bloqueio", em que se desgastaram gerações inteiras de militantes de esquerda, até, em 2002, à hipocrisia dos 80% em Chirac.

Hipóteses

Devemos votar em Royal? Várias atitudes são possíveis: apertar o nariz; a resignação, o realismo, a confiança, a esperança. Com que argumentos?

Invoca-se, com a ajuda de alguns filósofos que se auto-apelidaram de reforços para dar credibilidade à questão, ainda que não sejam mais competentes na matéria que qualquer outro cidadão, a existência de "contradições" no seio do PS, passíveis de rebentar com a sua unidade de fachada, e sobre as quais poderiam "pesar" formações associadas cada vez mais orientadas para a esquerda. No entanto, não é necessário lembrar o que se passou, ainda não há muito tempo, com a singular "esquerda plural", nem de rememoriar as experiências históricas, para levantar uma série de dúvidas sobre as actuais capacidades do PS. Este partido está a caminho da perda o seu S, e de passar a representar apenas as camadas médias superiores e os quadros (os novos aderentes, são mais de 116% do que em 92, pelo que é pouco provável que eles pertençam aos "bairros"), enquanto um número considerável de proletários vota FN. É evidente que o comboio de Royal, mesmo que não acabe numa espécie de bilhete Sarkozy/Royal, como sugere o analista italiano, Cesare Martinetti, de La Stampa, estará mais de acordo com Bayrou do que com Buffet. Para alguns, é precisamente esta guinada à direita que abrirá caminho para uma esquerda radical, capaz de vencer onde os comités do não fracassaram. Ainda mais audaciosamente, e apoiando-nos na analogia Royal/Sarkozy, podemos esperar que a força atractiva cesse, e que novas cartas sejam distribuídas… no centro-direita. Enquanto se espera e se põem de lado compromissos sociais inerentes à verborreia eleitoralista, faltam as garantias quanto a duas questões claramente diferentes: a Europa e o conflito do Médio Oriente. Se, a propósito da Palestina, afirmam que Royal foi mal aconselhada, há razão para sérias preocupações com as aptidões da Madame "Eu quero" para o desempenho da função de primeiro magistrado de França. Se o desejo e o prazer de barrar o caminho a um Sarkozy não é de modo algum ilegítimo, e se é preciso escolher o menor de dois males, podemos preferir não adoecer.

O recurso a José Bové? É tarde demais, a porta está fechada e a dispersão de candidaturas apenas reforçará a chantagem do voto "útil". Além do mais, a personagem, para quem as revoluções não passam de velharias do século passado (entenda-se, o XIX), não se declara hostil a uma associação com o PS.

Que fazer?

Aí está o cerne da questão, a lição da actual conjuntura, que obriga a romper com as ilusões tradicionais, rejeita o princípio de uma aliança ou de um compromisso com o PS. Vontade, votando em branco, de manter as mãos limpas ou, abster-se, deixando correr? É evidente que não, mas antes de nos atrelarmos à situação concreta de hoje, que se apele, não nos cansemos de o dizer, que se apele a um sobressalto revolucionário. O que significa denunciar o eleitoralismo que se cola à pele, quer o tenhamos ou não, ou dito de outra maneira, a redução do cidadão às intermitências dos escrutínios. Chegará o dia em que os votos em branco e os nulos, somados à abstenção e aos não-inscritos, deixarão de ser considerados como merda, e passarão a ser reconhecidos como uma expressão política, apesar de tudo não mais ecléctica, do que foram os votos anti-Europa. Não se trata igualmente de se substituir ao movimento de massa, que evidentemente, sob os efeitos conjugados da degradação das condições de trabalho e de existência, do condicionamento mediático e dos servilismos sindicais, ainda não está maduro para se comprometer, de forma organizada, no processo de mudança radical, cujas formas serão necessariamente inéditas. Será um sonho vão, a recusa em acreditar que este país foi domesticado ao ponto de ter abandonado a luta de classes, que fez a originalidade da sua história?

A tarefa, desde já, para cada um de nós, consiste em contribuir, seja qual a for a modéstia dos nossos meios e, tratando-se de intelectuais, unicamente das suas palavras tornadas inaudíveis, para a tomada de consciência e para o apoio, contra todos os consensos dominantes, a todas as cóleras e a todas as contestações que atingem a nossa sociedade.

* Georges Labica é amigo e colaborador de odiario.info, professor na Universidade de Paris, autor do «Dicionário crítico do Marxismo» e de duas dezenas de livros sobre temas filosóficos e políticos, é um dos mais eminentes pensadores franceses contemporâneos.

Tradução de Jorge Pires Guedes

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.