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Subject: Os limites do activismo


Author:
Rui Ramos (Público, 12.09.2007)
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Date Posted: 12/09/07 7:35:46

Os limites do activismo




Vivem num mundo simples, a preto e branco, imunes a todas as nuances


ualquer causa precisa deles: os activistas são os que nunca têm mais que fazer, os que nunca duvidam, os que nunca admitem que a questão pode ter outro lado, os que estão prontos para tudo. Vivem num mundo simples, a preto e branco, imunes a todas as nuances. Mantêm-se, em todos os sentidos da palavra, inocentes: puros e inconscientes. Existem para a acção. Mas há um momento, em todas as grandes causas, em que o activismo se torna redundante ou contraproducente. Talvez no caso dos "ecoguerreiros" - os activistas mais desesperados do movimento ambientalista - esse momento já tenha chegado ou esteja a aproximar-se. É o que sugerem dois episódios de "acção directa" no mês passado: o holocausto do milho em Silves, em Portugal, e o acampamento de protesto em Heathrow, em Inglaterra. A reprovação e distanciamento de fontes inesperadas, num caso, ou a hesitação dos próprios manifestantes, noutro, desenharam as fronteiras do activismo.
O maior problema dos activistas, como notou o Guardian, é que estão a tentar arrombar uma porta aberta. O ambientalismo prevalece hoje nos círculos governamentais e bem pensantes do Ocidente. Os Governos assumem metas contra a poluição. Al Gore é oficialmente acolhido como um profeta à direita e à esquerda. Qualquer chuva a mais ou a menos enche a imprensa popular de histórias de apocalipse ambiental. A causa "verde" anda hoje amparada por poderosos interesses comerciais - como a indústria das energias alternativas - e pelos lobbies proteccionistas ocidentais, prontos para usar o ambientalismo contra a concorrência dos países em desenvolvimento. Em Inglaterra, o Partido Conservador fez-se "verde". Espera-se até que George Bush, na conferência de Washington a 27 de Setembro, apareça com uma cor aproximada.
A causa "verde" ganhou o debate público. Isto quer dizer que pode, crescentemente, contar com a lei e a força da lei. Ora, para uma causa nesta situação, não convém dar cobertura à "acção directa", isto é, declarar a lei irrelevante. A activistas como os de Silves nunca ocorre que a "desobediência civil" é uma avenida com dois sentidos. E se os fumadores ou os lavradores de transgénicos adoptam a mesma atitude? Quem está a ganhar não tem interesse em mudar as regras do jogo.
Os activistas podem argumentar que os legalistas do movimento se renderam ao "sistema", ou que é preciso abandonar pragmatismos e cautelas e ir mais longe. Mas não é fácil ir mais longe. A causa precisa de pensar para além das antigas rábulas. O activismo ambientalista explorou com sucesso a desconfiança contra os Governos e o ressentimento contra a plutocracia. Só que, em Silves, os activistas defrontaram não uma grande companhia multinacional, mas um agricultor com família; e em Heathrow, não o jet set, mas os professores e as cabeleireiras à espera de voos baratos para as praias do Sul da Europa. A retórica "proletária" voltou-se contra os militantes verdes: ei-los caricaturados como meninos ricos, saudosos da época em que só os seus avós voavam. Puxada pelos activistas, a causa começa a enfrentar agora não a indiferença ou o egoísmo de uma oligarquia, mas um tipo de vida partilhado pela maioria, e a que todos aspiram. Aquilo que propõe já pode ser visto do lado da privação: não é mais (árvores, ar puro), mas menos ou mais caro (alimentos, roupa, viagens). Em Heathrow, faltou aos activistas coragem para enfrentar as massas. E também, provavelmente, bons argumentos.

A causa precisa agora de mais do que espíritos simples, vivendo de dois ou três slogans e do gosto da acção pela acção. Numa sociedade que renunciou aos limites tradicionais, como justificar novos limites? Será possível converter as massas ao neopaganismo verde, inspirado pela Gaia de James Lovelock? Em Heathrow, os activistas declararam-se apenas "armados com a ciência". Mas a ciência é, para qualquer causa política (como o ambientalismo, no fundo, é), uma má companheira de estrada. A ciência moderna, vivendo de controvérsia, é uma casa pouco hospitaleira para ortodoxias duradouras. Durante o Verão, a imprensa inglesa divertiu-se a resumir demonstrações científicas de que a maior parte dos rituais e gestos ambientalistas das classes médias (reciclar ou comprar produtos orgânicos produzidos localmente) tinham um efeito tão duvidoso como tomar água benta.
Perante tudo isto, o folclore de acampamentos e destruições que o ambientalismo tem justificado é, do ponto de vista da causa, simultaneamente de mais e de menos. O reino dos céus pode ser dos pobres de espírito. Este mundo, porém, nem sempre é deles. Historiador

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Subject Author Date
Boa análiseAlvaro19/09/07 22:22:27


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