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Subject: Flausino Torres e a Renovação do Comunismo em Portugal


Author:
www.comunistas.info
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Date Posted: 31/12/06 0:25:28

Flausino Torres e a Renovação do Comunismo em Portugal

por Paulo Fidalgo, 30/12/06



Tem enorme interesse a biografia de Flausino Torres da autoria de Paulo Bento Torres, editada pela “Afrontamento”. Flausino Torres foi um comunista empenhado na luta clandestina contra o fascismo. O interesse está desde logo na oportunidade de recapitular a lendária heroicidade dos que se envolveram generosamente na tarefa da reconquista da liberdade e no exigente empreendimento de abrir caminhos para o socialismo. O interesse está ainda no desvendar dos dilemas e contradições da acção revolucionária, que o campo comunista defrontou e que em muitos aspectos não superou, mesmo nos dias de hoje. A história de Flausino Torres, da sua heróica militância, mas sobretudo do processo da sua divergência com a direcção do PCP e, em concreto, com o seu secretário-geral, Álvaro Cunhal, é uma peça fulcral da história do comunismo português.



É porém numa atmosfera substancialmente afectiva e moral que a divergência se constrói. Traços que continuam hoje a marcar, em larga medida, as discussões no campo comunista. E que obscurecem todavia a busca de efectiva construção de um movimento comunista renovado, porque se trata de tarefa de pesquisa e racionalidade bem laboriosa, muito para além de uma preliminar crítica moral e de processos.



A incisiva escrita de Flausino Torres opõe-se às personalidades arrogantes, às posições estreitas de capela, que comunistas e não comunistas exibiram em muitos momentos do trabalho político, em Argel, na Frente Patriótica, e em tantas outras ocasiões. Flausino Torres desiludiu-se porque foi descobrindo que o PCP, como instituição e nos seus próprios quadros dirigentes, exibia muitos dos problemas e constrangimentos que dizia querer erradicar da sociedade portuguesa. Como era incipiente a formação marxista dos dirigentes, como era limitada a visão e a representação da totalidade dos conflitos que deveriam sem empunhados pelo partido dos trabalhadores na sua missão de gerar uma vasta aliança social e política com classes intermédias contra o fascismo.



Flausino Torres não deixa de sublinhar que a busca da unidade nacional anti-fascista, teria de resultar de uma consciência de classe para além dos estreitos limites da própria classe operária. Na medida em que a sua missão última teria, e terá de ser, a da superação mesma da divisão em classes. O papel histórico da classe operária, é o de se anular num horizonte histórico como tal e ser capaz de sintetizar, portanto, o conjunto dos interesses de cuja resolução depende a emancipação dos outros grupos e classes sociais envolvidos na construção da unidade. No estrito plano das alianças políticas, era e é crucial, portanto, opor-se o PCP a todos os reflexos de grupo, de capela, e desenvolver o partido comunista como efectivo pólo aglutinador dos descontentes e oprimidos, para além da representação estreita dos seus próprios interesses. São dolorosos os episódios que Flausino Torres nos descreve acerca das rivalidades no seio da Frente Patriótica. Como o foi o processo da cisão com os grupos maoístas. O PCP actuou em muitos momentos, como parte mesquinha e grupal nestes conflitos, para desgosto de Flausino Torres.



A acção de Flausino Torres em Argel em prol da edificação da Frente não resultou visivelmente. A sua saída, constituiu um sinal do seu insucesso pessoal, arrastando mais tarde o fim da própria experiência da Frente. Porque se agravaram as tendências que Flausino Torres tinha tão bem identificado nos seus relatórios para a direcção.



Iniciou então um período mais difícil do seu exílio em termos de questionamento ideológico e político, primeiro na Roménia e depois na Checoslováquia. As suas visitas a cooperativas agrícolas socialistas – Flausino Torres era um experimentado agricultor em Tondela – revelaram-se momentos de intensa crítica, às insuficiências organizativas, à irracionalidade económica facilmente detectável, ao desinteresse produtivo dos próprios trabalhadores, incapazes ou desmotivados de montarem unidades avançadas e competitivas. É porém visível que o modelo estava – estávamos em 1967 – errado, na sua própria estrutura económica, de modo de produção, e que seria muito difícil alcançar-se assim o socialismo como patamar de organização social mais avançado do que o capitalismo. Fica por desvendar qual a prospecção para uma alternativa que Flausino Torres manifestamente não nos fornece. Mesmo no cerne das suas cogitações sobre a economia agrícola socialista, Flausino Torres parece pensar o problema segundo uma matriz moral, que enforma todos os escritos que este precioso livro nos dá a conhecer. O mau funcionamento da economia “socialista”, tal como os problemas da acção do PCP, em Argel, são mais o fruto dos defeitos das pessoas do que do sistema em si, é o que parece poder retirar-se das incisivas palavras do camarada Flausino Torres.



O ponto culminante do processo de divergência está nas páginas sobre a «batalha de Praga», correspondentes ao período da chamada «Primavera de Praga». Flausino Torres tinha então conseguido um lugar de leitor de português na Universidade Karlova, e pôde conviver com estudantes e intelectuais comunistas durante o extraordinário movimento popular de 1968. São de grande choque e indignação as reacções de Flausino Torres e da comunidade de comunistas portugueses exilados na Checoslováquia, perante a subida de tensão entre o governo da URSS e da Checoslováquia. E é de total surpresa e revolta a reacção dos camaradas quando em 20 de Agosto assistem à entrada das tropas do Pacto de Varsóvia para porem cobro ao que diziam ser a “contra-revolução” em marcha. Os dados fornecidos mostram amplamente que o processo da Checoslováquia se iniciou no interior do partido comunista, que o socialismo não estava em causa, e que o movimento procurava empreender uma rectificação substancial de processos. E fica óbvio que Flausino Torres encarava a «Primavera de Praga» como oportunidade soberana de relançar o socialismo como ideal de luta dos povos. O contrário do que a direcção do PCUS e também do PCP consideravam. Para os partidos da coligação soviética, não havia qualquer possibilidade de construir variantes económicas e políticas do modelo vigente, porque essa era a única possibilidade admitida. Fora da qual se descortinava apenas o abismo, a contra-revolução e o capitalismo. A tese da contra-revolução em marcha na Checoslováquia foi a razão porque muitos comunistas em Portugal, sem informação suficiente, encarassem os dolorosos acontecimentos como uma acção defensiva necessária para que se tivesse tempo de encetar medidas substantivas de rectificação, que de resto foi sempre iludida e adiada até ao colapso da URSS.



Os escritos de Flausino Torres vem dar-nos contudo uma visão profundamente alternativa do processo e desmentir a tese oficial que fundamentou a aceitação pela maioria dos comunistas portugueses da visão oficial do PCP. O processo da «primavera de Praga» não foi um movimento orientado para restaurar o capitalismo, nos seus apoios, génese e processos, foi ao contrário, um titubeante mas generoso movimento para empreender uma efectiva renovação. Esse dado profundamente ocultado nos baús dos partidos comunistas mostra hoje, quase 40 anos depois, que a invasão não foi tanto um acto de defesa do socialismo, na sua necessária variabilidade e possibilidades de evolução, mas foi antes um acto defensivo sim, mas dos valores, modelo e programa das forças que se sentiram postas em causa pelo movimento de Praga. E, de acordo com os relatos, só podemos interpretar desse modo a funesta e violenta altercação entre os comunistas portugueses em Praga e Álvaro Cunhal, numa reunião após a invasão. O que se foi defender com as tropas soviéticas não foi o socialismo, mas a visão e o modelo que tinha sido edificado a partir de 1928 na URSS, com o abandono da NEP (nova política económica de Lenine), com Estaline, apesar das retóricas de rectificação que episodicamente as direcções ensaiavam. Os dados desse dossier só agora ficam entreabertos pelos escritos de Flausino Torres. Embora nos dê os factos e a sua generosa e empenhada tomada de partido, ao longo dos acontecimentos, não nos dá Flausino Torres suficientes pistas e argumentos para compreender os determinantes do processo. Só nos permite começar a erguer as perguntas pertinentes de cuja resposta depende o efectivo trabalho de renovação comunista.



Em boa medida os «soviéticos» eram incapazes de conceber o «socialismo» fora dos seus cânones. Não tinham capacidade ideológica, económica e política para lidar com as pulsões geradoras de diversidade no seu seio. Para eles, ou era assim, tal como se concebia na secretaria do PCUS, ou era o caos e a contra-revolução. Em boa verdade para os que se colocavam intuitivamente do lado da uma mais do que necessária reconversão e evolução, também não se dispunha dos instrumentos de análise e de prospecção capazes de darem consistência à ânsia de renovação. Em boa medida uns não sabiam marchar de outra maneira e os outros ainda não tinham aprendido a marchar de maneira diferente.



Construir um comunismo renovado, substanciar um comunismo efectiva e estruturalmente desestalinizado, que agarre toda a contribuição da ciência económica marxista actual, em diálogo com outras correntes de pensamento, mas que também se escore na reapreciação crítica da história do movimento comunista, das suas glórias e tragédias, é uma tarefa muito exigente, em termos de orientação económica e política. Que está muito para além das reacções afectivas e morais de recusa de um dado caminho que se vão exprimindo com mais ou menos estrondo ao longo dos anos. Sem as tomadas de posição como as de Flausino Torres, um homem sempre fiel ao ideal comunista, não podemos começar a construir uma identidade renovada. Mas é pegando nesses exemplos, heróicos, que os comunistas de hoje devem ir mais ao fundo e empreender num efectivo movimento de renovação.

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