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Date Posted: 14:57:48 05/01/07 Tue
Author: Célio Benvindo de Souza (Boa noite!)
Subject: João Gilberto

UMA ANÁLISE CRÍTICA DO CEGO E A DANÇARINA DE JOÃO GILBERTO NOLL: O FAZER LITERÁRIO.


A técnica de estruturação do conto assemelha-se a técnica fotográfica: o fotógrafo concentra sua atenção num ponto e não na totalidade dos pontos que pretende abranger no visor; Focaliza um detalhe, o principal, no seu entender, e capta-lhe os arredores, de modo não só a fixar o que vê, mas também o que não vê. Não raro, um flagrante surpreende pelos pormenores revelados, e que escapam aos propósitos do fotógrafo; quantas vezes, minúcias indiscretas ou indesejadas se imiscuem na fotografia, prejudicando-a em definitivo, ou, ao revés, dando-lhe um sabor especial? Quem já não experimentou tal surpresa ante velhas fotografias? (MOISÉS, 2006: 52).


Uma pergunta inicial que poderia nortear uma análise crítica do livro de conto: o cego e a dançarina de João Gilberto Noll seria investigar, por exemplo, como o autor constrói a sua narrativa? Sem dúvida, a cosmovisão do autor nos obrigaria a aprofundar as nossas leituras sobre o tema. Todavia, vale lembrar que Noll não se trata de um autor comum pela sua capacidade crítica e de percepção da realidade que o rodeias, no entanto, a sua literatura navega nos campos e lagos do dia- a- dia experimentado pelo homem hodierno. É o mesmo terreno escolhido pelo homem da contemporaneidade que Noll descansa a sua literatura, construindo assim, um cenário baseado no não-dito às claras, seja por medo de repressão ou mesmo por opção pessoal, mas que, no entanto, é vivido por todo mundo no escuro real da própria vida.

João Gilberto é violento ao trazer à luz as experiências compartilhadas nas trevas. Sua literatura é puro farol, tocha acesa que ilumina e aquece as paredes da miséria humana, convidando os homens à reflexão da própria vida, muitas vezes mantida escondida dos próprios olhos.

A linguagem escolhida é Violenta. Direta. Desconcertante: eu dizia bota bastante mostarda, esquenta bem esse pão, mete molho.
O teu pai manda brasa hein?
Fodido...
... contei tintim por tintim...


Segundo Moisés, (2006: 54):

O conto não oferece espaço para alçapões subterrâneos, ou passagens hermenêuticas. Salvo na sátira e o humor, ao conto desagrada tudo que possa parecer solene ou abstruso. O conto prefere a linguagem direta, “concreta”, objetiva. (...) Enfim, a ação antes de intenção.

Nesse sentido João Gilberto é espetacular, visto que, a sua literatura funciona como Fleches que ora foram captados da realidade e transformados em ação, em espetáculo, em profundos “fragmentos” de uma história que jamais saberíamos se o autor não nos contasse. Sua maestria vai muito além do comum geralmente experimentado por outros escritores de nosso tempo. Sua linguagem transcende os parâmetros de uma sociedade acostumada em plagiar a realidade e acontecimentos do dia-a-dia. Com isso ele se instala justamente onde mora o homem moderno: nas profundezas sombrias da solidão. Sem referencias o homem atual parece dançar num palco aonde a liberdade se tornou sinônimo de frieza, ciúmes, invejas, ódio, solidão. Nesse campo minado muitas vezes o homem se encontra perdido e sem a quem pedir socorro, já que o seu espaço fora tomado por uma auto-suficiência que somente o individualismo parece responder. Sem uma referencia o que assistimos são somente pessoas que parecem vagar pelo mundo sem um destino claro.

Noll escolhe este cenário para construir a sua crítica. O cenário da frieza nos relacionamentos interpessoais onde a omissão tece o canteiro das desilusões já que, nesse filme “o meu inferno” como Diria Sartre “são os outros”. Ora, Noll vê o homem contemporâneo desabrigado de qualquer compromisso com o outro. O “eu” desaprendeu como se deve relacionar com o “tu”. Não havendo uma segunda pessoa com quem se preocupar, toda a atenção se volta para o próprio sujeito que se vê desenraizado culturalmente. Surge então a necessidade de se aprender a “ler e escrever” que o autor menciona no primeiro conto. E quando souber isso, então, saberá “tudo”. Nesse conto primeiro, que tem como titulo alguma coisa urgentemente Noll parece chamar atenção do leitor para a necessidade de fazer alguma coisa urgentemente. Entretanto, a narrativa que apresenta um pai bastante frio, mesmo se tratando de um homem que a sua maior característica era a da “rotatividade”, diante das “modernas” e “avançadas” lições que o filho aprendera na vida, se mostra desinteressado e despreocupado com os estranhos comportamentos. O pai não vê a necessidade do filho porque também ele é alguém carente desta mesma atenção.

A contemporaneidade é filha de um momento histórico que tinha como meta esquecer o passado construindo um presente baseado num cientificismo – (Augusto Conte- século XIX) na qual a filosofia deveria juntamente com a Ciência responder aos anseios do homem moderno. Kant no prólogo de sua obra a Crítica da Razão Pura se apresenta feliz por se considerar no direito de achar que conseguiu eliminar os problemas da razão e conseqüentemente resolver os problemas do mundo (Kant, 2005: 16). Entretanto, estes super-homens há muito tempo já vinham apontando na sociedade certo anseio de destruição dos valores, das estruturas que até então regiam o mundo. O século XVIII, período da revolução industrial, época de Russeau, passando pelo século XIX em que se inicia o realismo na Europa-França com Flauber (Madame bovary), Machado de Assis- Brasil, Marx e Engel na economia, sociologia, Newton na Ciência mecanicista, Freud com a psicanálise e etc, tornou-se um período de profundas reflexões em todos os campos da vida humana. Esses grandes pensadores foram os primeiros que armaram guerra contra tudo e todos, o que nos leva a conclui que estes primeiro momento fora de conflitos e tentativas de se construir uma síntese da realidade. Já o século seguinte uma calmaria se fez em torno da Filosofia, Ciência, Literatura, etc. No campo do saber esse século apenas levou a sério a questão de construir desconstruindo o construído em outros tempos. Já no meado do século, nomes como o de Clarisse Lispector, Nélson Rodrigues... e no século XXI chega João Gilberto Noll que também segui a temática da desconstrução, todavia, trazendo a tona os absurdos abusos de uma cultura que tenta viver mergulhada na hipocrisia social.

Vivemos numa sociedade capitalista e por isso toda energia humana é cumulada e canalizada para um único fim: o capital. Toda atenção se volta para atender as exirgencias do mercado capitalista, “selvagem” como diria os nossos filósofos, deixando para um segundo plano as questões morais, os valores, etc. Nesse jogo o “certo” e o “cerrado” torna-se problema de cada um e deixa de ser uma preocupação da comunidade coletiva.

Religião e bons costumes perdem terreno para a cultura do acúmulo de bens.

Todas essas questões apontadas nos levam a pensar que a contemporaneidade é um momento histórico que incomoda justamente por não encontrarmos neste período em quem nos apoiar. Se as pessoas são vistas como objetos, logo, todo objeto é descartável. E as relações passam a ser utilitaristas.

Mas o que isso tudo tem haver com o cego e a dançarina? Se pensarmos pelo ponto de vista apontado pelo autor no mesmo conto que dá nome ao livro perceberemos como o nosso escritor ver a contemporaneidade:

(...). Há um sensacionalismo nordetino nessa terra assim ferida, mas a mulher e o adolescente ignoram qualquer Nordeste. E no entanto são atingidos. Tão atingidos que a mulher pensa que dança mas está apenas aturdida por vermes e o adolescente pensa que olha uma mulher que deseja mas de fato olha a mancha rosa suada que dança na sua quase cegueira. (NOLL,1980: 135)

Mas adiante escreve:
“... vejo os vermes no interior da mulher que dança e vejo o cego no olhar do adolescente”.

Nesse sentido, a contemporaneidade parece ser descrita pelo autor como um momento doentio da história. Algo incomoda os homens ainda que estes não a percebam. A ausência de sentido parece natural, ao ponto de ninguém se importar com isso. Entretanto, muitos pensam que vê uma montanha de possibilidades e felicidade a sua frente enquanto o que vêem é somente o próprio vazio existencial. O niilismo filosófico parece muito mais real do que se possa imaginar. Assim a contemporaneidade não passa de um momento histórico contaminado por vermes nos quais mesmos os mais inocentes são atingidos inconscientementes.

Noll tem razão quando aponta a contemporaneidade vazia de valores, de moral e, sobretudo, vazia de humanidade. De compromisso com o outro.

Nas narrativas de o Cego e a Dançarina as pessoas sempre aparecem como deficientes, psicológicos, morais, etc. Um exemplo claro de deficiência de valores é descrita no conto Ela: Aonde, Ela, a jovem do conto pensa consigo mesma num monólogo pessoal sobre o jovem que está a sua frente: - “A idade dele não importa como não importa a idade de ninguém”.

Nos contos Mirilyn no inferno, Ela, conversações de amor, A virgem dos espinhos, etc, são comuns à guerra contra a moral burguesa que nesse caso específico as expressões chulas, a linguagem direta como fodia, mete, comer, leva a refletir como o homem tem modificado a sua forma de se comportar perante a necessidade de expressar.
Assim, em o Cego e a Dançarina, João Gilberto age como um Fotógrafo da realidade social. Ele é o tipo de escritor que trás para o universo da literatura a realidade fotografada “tintim por tintim”, desmascarando assim, aqueles que não querem vê.

Sua linguagem é direta, crua, popular às vezes. O cenário escolhido é sempre uma cena que desmonta o leitor seja pela novidade do acontecimento ou pela gravidade da cena em si.

Concluímos então, afirmando que Noll não se intimida em descrever a realidade como ela é na vida real. Assim, sua literatura provoca o leitor a uma reflexão quanto às próprias cegueiras, que o proíbe de verem a dançarina que dança ao ar livre.




BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

VANNUCCHI, Aldo. Filosofias e Ciências Humanas 2ed. São Paulo: Loyola,1983.
MOISÉS, Massaud. A Criação Literária. Prosa I. 20ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
NOLL, João Gilberto. O Cego e a Dançarina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

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