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Subject: ilegalizado


Author:
Alfonso Sastre
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Date Posted: 18/05/09 15:43:05

Alfonso Sastre, ilegalizado

Alfonso Sastre As eleições para o Parlamento Europeu em Espanha já estão marcadas pela pelo atropelo à legalidade e pela comprovação que o aparelho do Estado é um instrumento ao serviço da ditadura parlamentar de fachada democrática. A Iniciativa Internacionalista (ver www.odiario.info/articulo.php?p=1149&more=1&c=1, publicado em 14 de Maio de 2009) foi ilegal e ilegitimamente impedida de concorrer às eleições europeias. E com esta medida, “O que já está claro é que o obscurantismo, a manipulação, o desprezo pelas regras do jogo e a injustiça são infinitamente mais contagiosos que a peste – e muito mais, evidentemente, que a consciência democrática e a liberdade”.

Santiago Alba Rico* - 18.05.09

É uma história conhecida: em 1630, em Milão, um suspeito denunciado por um honrado cidadão é detido e torturado e, depois de inicialmente negar a acusação acaba por denunciar o seu delito. Sob tortura, denuncia também o seu barbeiro, cúmplice da atrocidade, e este por sua vez denuncia outros homens, pondo a descoberto toda uma cadeia de monstruosos malfeitores que começa, ou termina, num cavalheiro de nome Padilla, chefe da campanha de terror. Uma vez condenados e executados, sobre as ruínas da casa do barbeiro levantou-se uma admoestadora coluna que recordava a infame acção dos réus e advertia eternamente os malvados sobre as consequências de tal tropelia. De facto, o que é que tinham feito? Consideraram-nos untori, isto é, sinistros “untadores” que tinha propagado a peste pela cidade depositando nas paredes e nos objectos a substância contaminante que transmitia a doença. Só em 1778, devido ao brilhante impulso do iluminismo, a coluna foi derrubada, considerando a nova época – a de Montesquieu, Verri e Beccaria – que a infâmia não residia nos condenados mas sim nos magistrados que os julgaram e nos amedrontados e ignorantes cidadãos que ajudaram a converter a loucura, a superstição e o absolutismo num procedimento natural.

Esta história real do Antigo Regime, recolhida em 1840 pelo italiano Alessandro Manzoni, é desgraçadamente muito actual. Segundo a Procuradoria-Geral do Estado – isto é, segundo o governo do reino de Espanha – Alfonso Sastre, o dramaturgo vivo mais importante do mundo, é um untador e só o seu nome (enquanto ele trabalha na suas obras de teatro fechado em sua casa) é capaz de contaminar tudo o que contacte com ele, de Hondarribia à Terra do Fogo. Contaminado pelas suas «ligações pessoais» do passado, a sua presença como cabeça de lista na candidatura de Iniciativa Internacionalista é a tal ponto contagiadora que deve ser imediatamente privado dos seus direitos cívicos, tal como os seus companheiros de lista e os seus potenciais votantes. Neste regresso a galope até pré-modernidade, a lógica – desgraçadamente – já é conhecida: não é que candidatar-se a umas eleições europeias seja um delito; não que não se lhe permita candidatar-se por ter cometido um delito: é a sua própria existência que é delituosa. «Intenções», «analogias», «concomitâncias», toda a subtil obra do Direito, pacientemente erigida ao longo de séculos, sucumbe, entre aplausos, a esta atmosfera primitiva e inquisitorial, de obscuros miasmas transmitidos como a gripe suína, com ou sem vontade, numa onda expansiva ininterrupta. As noções de doença e pecado – ambos mortais – substituem a de delito, de prova, de presunção de inocência, de responsabilidade individual. Até que ponto «a defesa da democracia – com Savater e Rosa Diez à cabeça – já deslizou para o mundo medieval, obscurantista, pré-histórico e da magia negra e da prova como boa do facto de, Alfonso Sastre não poder sequer mudar de opinião: é só o resultado das suas «conexões pessoais» e o começo de conexões potencialmente tão amplas que a partir do seu nome, no delírio antijurídico das analogias e das concomitâncias, poder-se-ia impugnar qualquer lista.

A conjectura de que o Batasuna iria pedir o voto na Iniciativa Internacionalista e a presença nas suas listas de um ex-candidato da Acção Nacionalista Basca (ANV), uma força então legal mas ilegalizada à posteriori, activou a enésima impugnação de uma força eleitoral que, com quase toda a certeza não poderá concorrer no próximo dia 8 de Junho às eleições europeias. Em 1630 faziam-se assim as coisas; em 2009 no reino de Espanha também se fazem assim. Em 1630, os processos abertos contra os untori faziam parte da lógica do Antigo Regime; em 2009, querem fazer passar por normalidade democrática e por Direito os processos abertos contra os untori. Pessoas inteligentes, sisudas, pessoas honoráveis, respeitadas e influentes, pessoas fora de toda a suspeita, pessoas ricas, pessoas poderosas – como as de Milão da peste – terão algum dia de prestar contas perante os cidadãos por esta dupla malfeitoria: a de restabelecer o antigo regime e a de, além disso, tê-lo feito evocando o Direito e a Democracia.

Postas assim as coisas, sugiro – e faço-o seriamente – que o Batasuna, fonte de todos os miasmas, poderosíssima vara de contágio de contagiara a infâmia, convoque uma conferência de imprensa e peça publicamente o voto no PP e/ou no PSOE. Ficarão manchados os nossos dois principais partidos? Pedir-se-á a sua ilegalização. Naturalmente que não, mas assim ficará claro até que ponto esta lógica medieval, desencadeada fora do direito, é medieval – e quão contrária é do direito – que nem sequer é lógica: é um puro exercício de soberania religiosa ou, o que é o mesmo, de arbitrariedade paranóica de um Santo Ofício na sua luta contra o Mal.

O que já está claro é que o obscurantismo, a manipulação, o desprezo pelas regras do jogo e a injustiça são infinitamente mais contagiosos que a peste – e muito mais, evidentemente, que a consciência democrática e a liberdade.



* Escritor e ensaísta espanhol

Este texto foi publicado em www.gara.net/paperezkoa/20090515/137238/es/Alfonso-Sastre-ilegalizado

Tradução de José Paulo Gascão

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