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Subject: ministro da Agricultura soviético


Author:
Benediktov
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Date Posted: 14/08/09 17:18:16

O testemunho do mais eminente ministro da Agricultura soviético

Benediktov: A URSS na época de Stalin e depois dele - (5)

Na parte de hoje da entrevista de Ivan Benediktov, ex-ministro da Agricultura da URSS, ele aborda um dos cavalos de batalha da propaganda anti-comunista – e um dos episódios mais desconhecidos e deturpados da História: a polêmica, entre os biólogos soviéticos, polarizada pelas figuras de Trofim Lysenko e Nikolai Vavilov. Não entraremos aqui, por falta de espaço, nos fundamentos da polêmica, que envolvia o caráter científico das idéias originais de Darwin, defendidas por Lysenko, e da genética, com a qual Vavilov se alinhou. Mas Benediktov, cujo Ministério estava no centro dessa polêmica, fala com conhecimento de causa – ele conheceu de perto os dois principais antagonistas e o leitor terá aqui algo raro: o relato de um dos participantes dessa acirrada luta, que, além disso, estava próximo de Stalin. Este relato é mais valorizado ainda pelo fato de seu entrevistador em 1980, V. Litov, estar num campo oposto ao de Benediktov. O texto que publicamos foi condensado a partir da íntegra da entrevista de Benediktov, publicada no site “Para a História do Socialismo”

LITOV - Você foi Comissário do Povo para a Agricultura da URSS exatamente numa época em que, na biologia soviética, se agudizou o conflito entre os partidários da tradicional doutrina de Mitchúrin e a genética, entre Lysenko e Vavilov. Sabe-se que Stalin e o seu comissariado apoiaram Lysenko e a escola soviética de genética foi autenticamente destroçada e muitos dos seus sobreviventes, incluindo Vavilov, reprimidos. A biologia nacional, que nesse tempo era das mais avançadas, começou a ficar seriamente atrasada em relação aos padrões mundiais. Você concordará que, depois de tudo isso, dificilmente se acreditará na competência da direção stalinista da ciência. Já não falo dos métodos inadmissíveis de represálias contra os que divergiam da linha dominante. Kruschev, apesar de todos os seus defeitos, relacionava-se com os cientistas pelo menos de forma civilizada…

BENEDIKTOV - Kruschev tem muito mais culpa no atraso da genética do que Stalin. Nikita Sergueievitch [Kruschev] ficou literalmente enfeitiçado com as espantosas promessas de Lysenko, nas quais, ao contrário de Stalin, acreditava incondicionalmente, o que fez com que os investigadores da genética não recebessem o apoio necessário, ainda por cima numa época em que já começavam a vislumbrar-se êxitos palpáveis. Não tenho dúvidas de que se Stalin, dotado de uma intuição extraordinária para o valor prático da aplicação de novas orientações, tivesse durado mais cinco ou seis anos, os investigadores da genética teriam recebido tudo o que pediam e muito mais. Podem apontar outras insuficiências, mas concentrar forças e recursos nos setores decisivos, descobrir e promover talentosos cientistas-organizadores, era uma coisa que fazia como ninguém. É um fato que foi Stalin um dos primeiros líderes políticos do mundo a tomar consciência do enorme significado prático da investigação nuclear e da exploração espacial. Quebrando a paralisia e a rotina dos cientistas da época, o Comitê Central do partido (CC), sob a direção de Stalin, atribuiu uma importância de Estado a orientações que a muitos, mesmo no mundo científico, pareciam fantasistas. Como resultado, apesar do seu atraso econômico de décadas em relação ao Ocidente, o nosso país conquistou as posições mais avançadas nos setores-chave do progresso científico-técnico.

A maioria das escolas inovadoras, que colocaram a ciência soviética nas últimas fronteiras mundiais, foram criadas e ganharam força no amaldiçoado, por jornalistas e literatos, período stalinista. O seu florescimento aconteceu no final dos anos 50 e inícios da década de 60. A partir daí, gradualmente, tudo começou a andar para trás. Distintas escolas nacionais começaram a definhar, os interesses de grupo e o monolitismo de clãs de notáveis tornaram-se dominantes na ciência, a qualidade dos cientistas, em particular na área das ciências humanas, baixou nitidamente.



LITOV - Mas você não vai negar que, na polêmica Lysenko-Vavilov, a vitória ficou do lado da ignorância e da desonestidade, da intolerância com pontos de vista diferentes e que a simpatia de Stalin por Lysenko criou condições para que se afirmasse na biologia esse monolitismo de um grupo de pessoas que hoje se tornou, eventualmente, no maior obstáculo ao desenvolvimento da ciência…

BENEDIKTOV – Por que é que não vou negar?!... Nego e negarei com firmeza. Mas primeiro permita-me que resmungue um pouco, eu que sou um velho. A forma tendenciosa e unilateral como coloca as perguntas não o enobrece. A sensação que tenho, ao vê-lo repetir invenções medíocres que os chamados “círculos intelectuais” gostam de veicular, é que você já defende determinadas posições. Para que é que quer então as minhas opiniões? Um jornalista deve ser objetivo e isento se desejar verdadeiramente compreender algo, e não repetir incompreensíveis frases em voga.



LITOV - Aceito a crítica e tentarei ser mais objetivo, embora, como compreenderá, não seja fácil desistir de imediato daquilo que considerava ser incontestável... Não obstante, como avalia as afirmações, amplamente divulgadas, que acusam Lysenko de charlatanismo e apresentam Vavilov como um mártir?

BENEDIKTOV - Como o mais típico dos exemplos de sectarismo. Empenhadas em manter o seu monopólio (como é sabido, nos últimos 20 anos os geneticistas têm dominado alguns dos mais importantes setores da biologia), certas pessoas fazem circular informações notoriamente falsas e caluniadoras dos seus “concorrentes”.

Conheci bem Trofim Denisovitch Lysenko, os seus pontos fortes e fracos. Posso afirmar com segurança que foi um grande e talentoso cientista que fez muito pelo desenvolvimento da biologia soviética, o que nunca foi posto em causa pelo próprio Vavilov, o qual, aliás, o levou para a grande ciência, valorizando extraordinariamente os primeiros passos do jovem agrônomo. E é um fato que com base nos trabalhos de Lysenko foram criadas importantes culturas agrícolas como o trigo tremês [variedade de trigo que nasce e amadurece em três meses] “Liutentses-1173” e “Odeskaia-13”, a cevada “Odeski-14” e o algodoeiro “Odeski-1”, foram elaborados numerosos novos processos agrotécnicos, designadamente, a vernalização [indução do amadurecimento] e o corte do pé de algodão. Um discípulo leal de Lysenko, que o respeitou profundamente até o fim dos seus dias, foi Pavel Panteleimonovitch Lukianenko, talvez o mais talentoso e fértil selecionador, responsável pelo desenvolvimento de 15 novas espécies regionais de trigo de inverno, nomeadamente algumas mundialmente conhecidas como a “Bezostaia-1”, “Avrora” e “Kavkaz”. O que quer que digam os críticos de Lysenko, nos campos cerealíferos do País predominam culturas introduzidas por ele e pelos seus seguidores e discípulos. Era bom se tivéssemos mais “charlatães” como ele! Há muito que teríamos, provavelmente, resolvido o problema do rendimento das colheitas e retirado da ordem do dia o do abastecimento do país com cereais.

Por outro lado, é verdade que muitas das premissas de Lysenko não tiveram confirmação experimental e outras revelaram-se erradas. Mas indique-me um só cientista que seja que nunca tenha se enganado, nem tenha colocado hipóteses falsas? E por isso declaramo-lo “charlatão”?

Sobre a luta entre as orientações de Vavilov e de Lysenko, abundam as especulações que deturpam o quadro autêntico do que se passou. Em primeiro lugar, essa luta decorreu com vitórias alternadas: houve vários momentos em que Lysenko esteve em minoria. Por exemplo, as decisões do Plenário do CC de Fevereiro de 1947 apontavam uma série de orientações erradas do seu trabalho. Lembro-me bem da crítica contundente feita a Lysenko pelo responsável pelo Departamento para a Ciência do Comitê Central do partido, Yuri Jdanov, embora seja verdade que este, ao longo da discussão, alterou o seu ponto de vista.

Por muito que dramatizem a perseguição aos geneticistas, o fato que permanece é que muitos cientistas desta orientação (duramente criticados na famosa sessão da Academia das Ciências de Agronomia Lenin, em 1948, onde os partidários de Lysenko predominaram) continuaram o seu trabalho, embora em piores condições. Daqueles cujos nomes me recordo (Nemtchinov, Dubinin, Rapoport, Jebrak), todos continuaram na ciência, apesar da condenação bastante violenta de Lysenko e dos seus partidários e, o que é relevante, apesar de terem rejeitado o ato de “arrependimento”. Quanto às repressões, estas exerceram-se não devido a visões diferentes, mas por ações concretas de sabotagem. Chamo ainda a sua atenção para uma outra circunstância. Após o destronamento de Lysenko e dos seus seguidores, todos os setores chave das ciências biológicas foram ocupados pelos seus adversários científicos, que aproveitaram a oportunidade. Basta isso para provar que “a eliminação geral dos geneticistas” não passa de uma invenção maldosa, exagerada, infelizmente, por jornalistas e literatos incompetentes.



LITOV - No entanto, aparentemente, Stalin era benevolente com Lysenko e antipatizava com Vavilov...

BENEDIKTOV - Nesse ponto posso concordar com você. Mas com uma ressalva: Stalin normalmente não se deixava guiar pelas simpatias ou antipatias pessoais, mas baseava-se nos interesses em causa. Penso que foi isso que aconteceu também neste caso.

Não me recordo com exatidão, creio que foi em 1940, quando dois biólogos, Liubichev e Efroimson, endereçaram uma carta ao Comitê Central. Num tom bastante violento, acusavam Lysenko de falsear fatos, de rudeza e intrigas, entre outros pecados mortais. A carta apelava a uma severa deliberação do órgão contra o “charlatão”, responsável por enormes prejuízos na ciência biológica.

Coube-me participar na verificação daquelas afirmações. Lysenko, como seria de esperar, justificou-se, apresentando vários argumentos, uns convincentes, outros não, mas não exigiu quaisquer “represálias” em relação aos queixosos. Era o seu estilo, nunca quis transformar a ciência numa luta em que os concorrentes derrotados fossem obrigatoriamente afastados. Acreditava apaixonadamente, com fanatismo, que tinha razão, alimentando por vezes a esperança ingênua de que os seus adversários, perante a irrefutabilidade dos fatos, cedo ou tarde chegariam à mesma conclusão e “deporiam as armas”, por vontade própria, sem interferência das instâncias dirigentes. “Veja só”, observou a propósito Stalin, que detestava as pequenas desavenças e contendas características dos meios científico e artístico. “Quase que querem metê-lo atrás das grades, enquanto ele continua a pensar antes de tudo no trabalho e não desce ao plano pessoal. É uma boa qualidade, de grande valor para um cientista”.

Não digo que Trofim Denisovitch tivesse sempre um comportamento exemplar. Por vezes era dominado pela sua teimosia, facciosismo e propensão para frases políticas retumbantes. Mas não há certamente pessoas sem defeitos. O importante é que as suas qualidades prevaleçam.

Na polêmica científica nos anos 30, Lysenko e os seus seguidores revelaram maior combatividade, solidez, perseverança e firmeza de princípios. Vavilov, como reconheciam os seus correligionários, passava de uma para outra posição, tentando manter boas relações com “uns e outros”, o que a mim, por exemplo, causava irritação e desconfiança, levando-me a supor que não estava convencido do que dizia ou que temia consequências.

Suponho que não era por acaso que os jovens cientistas se sentiam atraídos por Trofim Denisovitch [Lysenko]. Pode por vezes faltar-lhes experiência, mas sabem muito bem distinguir o autêntico do que é falso. Estive algumas vezes em encontros de Lysenko com estudantes, pós-graduados e jovens cientistas e posso garantir-lhe que ele sabia “aquecer” um auditório, conquistá-lo, incutir na juventude o desejo apaixonado pela busca criadora, pelo alcance de resultados extraordinários. Pelo contrário, os cientistas da nata pré-revolucionária (lembro-me bem da minha passagem nos anos 20 pela Academia de Agronomia) não despertavam especial simpatia em nós, juventude operária, que tínhamos a aspiração de explorar a grande ciência. Muitos deles aderiram à revolução com um grande atraso e fizeram-no com um “pau atrás das costas”, como se costuma dizer, demonstrando manifesta hostilidade para com os “filhos de cozinheira” que ousavam iniciar a caminhada até o Olimpo da ciência. Para os que vinham dos meios operários e camponeses, Lysenko, dedicado aos ideais da revolução até à medula dos ossos, constituía o exemplo evidente do muito que um homem simples pode alcançar, possuído pela sede da verdade, pela vontade ardente de transformar a ciência numa poderosa alavanca para melhorar a vida das pessoas. É claro que tudo isso se refletia na relação de Stalin com Lysenko, já que ansiava envolver ativamente na ciência a juventude operária e camponesa.



LITOV - Mas disse que Stalin tinha sobre Lysenko uma opinião mais crítica do que Kruschev...

BENEDIKTOV - É verdade. Ele via com mais clareza os defeitos do cientista. Na minha presença, várias vezes admoestou Trofim Denisovitch [Lysenko], embora de forma delicada, pela sua tendência de andar sempre com uma “base marxista no bolso do casaco”, ou seja, de levar a ideologia e a terminologia marxistas para esferas onde não existe uma relação direta. No mesmo sentido, Stalin fez considerações críticas ao relatório que Lysenko apresentou na referida sessão da Academia das Ciências de Agronomia Lenin, em 1948.

Interessante foi também a reação de Stalin ao não cumprimento da promessa de Lysenko de elevar o rendimento das colheitas em quatro ou cinco vezes. “Camarada Lysenko, pelo visto, o objetivo que colocou é pouco realista”, disse-lhe certo dia. “Mas mesmo que só consiga elevar o rendimento das colheitas uma vez e meia ou duas, isso já será um grande sucesso. De nada vale tirar o prazer aos cientistas de colocarem objetivos irrealistas do ponto de vista prático. O que hoje parece irrealista, amanhã pode tornar-se um fato evidente. Já temos muitos cientistas ‘corujas’ que preferem levar uma vida calma, sem objetivos irrealistas. Se penalizássemos Lysenko, apareceriam ainda mais ‘corujas’ dessas”.

A nós, dirigentes da economia, Stalin habituou-nos a relacionarmo-nos com extrema atenção com os projetos e propostas dos “outsiders” e incentivarmos a atividade criadora das massas no campo da técnica, e conseguiu alguns resultados. Pelo menos, nesses anos lutava-se efetivamente e com resultados contra o conservadorismo, a rotina, o “egoísmo de grupo” dos departamentos e instituições científicas. Havia muito menos disso do que há hoje, quando descobertas importantíssimas e de grande valor ficam nas prateleiras durante décadas, enquanto os seus autores são submetidos a refinadas perseguições e humilhações por parte de departamentos e institutos científicos que se guiam por interesses próprios. Naqueles anos isso era inconcebível. Os burocratas depressa seriam apanhados em “atos de sabotagem” (e na sua essência é disso que se trata) com todas as consequências e incômodos correspondentes.



LITOV - No entanto, em relação à genética, Stalin cometeu uma clara arbitrariedade, e a cibernética também foi desprezada...

BENEDIKTOV - Por todo o lado não se ouve falar de outra coisa: genética e cibernética, cibernética e genética. A acreditar nesses literatos e jornalistas, não teria existido ciência no período stalinista, mas apenas perseguições e erros absurdos...

É verdade que se cometeram erros e falhas, o que é normal em qualquer atividade. Porém, o fato é que nos anos 30 tais erros eram incomparavelmente menores do que os de hoje e o próprio ambiente na ciência era mais saudável, criativo e, se quiser, havia mais moralidade. Em todo o caso, na época, os verdadeiros cientistas tinham papel determinante, enquanto hoje a situação criada pelos medíocres e nulos é tal que os verdadeiros cientistas asfixiam. Falo em particular da ciência agronômica, mas as coisas são semelhantes um pouco por todo o lado.

Dezenas ou mesmo centenas de institutos desnecessários, que trabalham para si próprios, milhões de ociosos que passam os dias sem fazer nada, clãs monopolistas de “notoriedades”, que repartem a ciência em esferas de influência e juntam esforços apenas para se verem livres de “forasteiros” talentosos – eis o quadro atual, verdadeiro, da nossa ciência, a qual, pressupõe-se, está “liberta” do “diktat e violência” stalinistas!

O que, aliás, até se compreende: nada custa dar mais um pontapé nos líderes mortos, mas tentem fazer o mesmo com o diretor de um qualquer instituto ou simplesmente com um professor catedrático...

Continua na próxima edição.

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