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Date Posted: 19:29:40 07/02/03 Wed
Author: Adriana Simões
Subject: 9ª semana - Verdades e Mentiras...

Professora Vera e colegas,

Minha dissertação de mestrado procurou analisar a representação social da AIDS construída a partir das notícias veiculadas nos jornais diários. A idéia era simples: a AIDS não existia. Surgiu no fim da década de 70. Se não existia não se falava dela. Junto com os primeiros casos, os discursos médico, religioso e da mídia sobre a doença - dentre outros - passam a construir esta nova realidade. Apresentei este trabalho em um congresso em Brasília, que buscava a relação da imprensa com as ONGs, governo e classe médica, no tema AIDS. Naquela época a revista Veja havia publicado uma matéria de capa - que recebeu um prêmio do Ministério da Saúde - com o seguinte título: Dormindo com o inimigo. A matéria abordava, pela primeira vez, o crescente número de casos de mulheres casadas - fieis aos seus maridos - contraindo o vírus da AIDS. Pergunto a vocês: quem era o inimigo do título? Pois bem.. Para o Ministério da Saúde, o marido contaminado, infiel, que transmitia a AIDS à esposa. Para os doentes da AIDS presentes ao encontro, o doente da AIDS, motivo da indignação de todos eles com a revista.

Lembrei-me desta história ao ler as mensagens sobre marajás, aposentados, cortadores de cana e professores (o exemplo de Lula não foi com relação ao Judiciário? Teria sido professora ou juíza?). Percebo nos comentários dos colegas a verdade de cada um, mas pergunto: será esta a verdade do presidente Lula, a minha verdade, ou a verdade de todos os brasileiros? Vesti-me de preto naquele 7 de setembro, mas nem mesmo Collor referia-se a todos os funcionários públicos ao defini-los como marajás. Não votei em FHC, mas também ele não se referia a todos os aposentados como vagabundos. Sim, sou eleitora de Lula, e sei que ele não está responsabilizando todos os funcionários públicos pelo rombo da previdência.

Tudo isso me faz pensar com preocupação sobre o poder que estamos atribuindo às metáforas. Seria a metáfora "maquiavélica"? Azussa diz: "começo a ter medo das metáforas e do seu poder de manipulação do pensamento". Maria Raquel escreve: "... se passamos a acreditar nessas verdades, incutidas em nós ao longo dos anos, dia após dia, principalmente através das pequenas conseqüências desse tipo de discurso abusado e irresponsável do poder, que experimentamos a nível de gestalts mesmo, indiretamente, sem muita reflexão..." Começo a pensar: melhor seria deixar as metáforas lá, onde Aristóteles as colocara e de onde Pedro não quer tirá-las (brincadeirinha, Pedro!).

Michel Löwy, em seu livro Ideologias e Ciências Sociais: elementos para uma análise marxista, escreveu: "a verdade absoluta jamais será conhecida, todo o processo de conhecimento é um processo de acercamento, de aproximação à verdade". Como já tive oportunidade de registrar, sou professora da disciplina Produção Social do Conhecimento. Parto de dois pressupostos epistemológicos: (a) o conhecimento é gerado na prática, (b) a realidade está constantemente em movimento. Não poderia pensar de outra forma: todo conhecimento é verdadeiro, porque é adequado a uma prática da qual decorreu. Recortar as falas de Collor, FHC e Lula (cito todos para retirar do meu discurso o discurso político) seria separar suas metáforas das práticas que a geraram. E a prática de cada um envolvia categorias...

Apenas para ficar na polêmica mais recente... Categoria: funcionários públicos. Sandra escreveu: "categorizamos de acordo com a situação". Sim, Sandra... Você tem razão... Minha categoria de funcionário público, quando o assunto é rombo da previdência, inclui aqueles que em um país que não tem dinheiro para pagar todos os seus aposentados recebem R$20.000,00 de aposentadoria e proíbem o governo de veicular esclarecimentos sobre o assunto na mídia. Seria esta a categoria do presidente Lula?

A questão que coloco então é: ao escolhermos nossas metáforas o fazemos através de categorias e são nelas, nas categorias, que temos que buscar a veracidade das metáforas. É a partir delas - e só a partir delas - que podemos "atestar" a veracidade das metáforas... Isso é diferente de afirmar que todas as metáforas são verdadeiras... Elas podem não ser verdadeiras (se analisadas a partir de categorias diferentes)... Não.. Não estou tentando enganá-los... Acabei de citar Löwy que afirma que não existe a verdade absoluta... Mas estou me perguntando: são as metáforas ou as categorias através as quais as construímos que são relativas? Explico... Se desconhecemos a categoria "funcionários públicos" do presidente, não podemos discordar de sua metáfora. Mas a partir de sua categoria podemos compreender sua metáfora. Ainda está complicado... Não é a metáfora que tenho que "analisar", mas a categoria...

Problema é química! Quem vê assim os problemas - eles não vão desaparecer para sempre - pode ser um pessimista na visão daquele para quem problema é quebra-cabeça - tem solução. Como categorizar problema? Esta é a questão que vai determinar a metáfora através da qual vou viver. Não posso afirmar que a metáfora "problema é química" não é verdadeira, porque os problemas têm solução. Ela não foi criada a partir desta categoria de problema... Então, tentando concluir, a veracidade das metáforas está na sua relação com as categorias que as criaram... É isso! Ou isso é delírio da febre que não passa?

Um abraço para todos,

Adriana


Sei que passei do limite sugerido pela professora Vera... Desculpem-me!

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