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Jornal de Notícias
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Date Posted: 07:32:59 06/21/04 Mon
Segue dentro de momentos
por edgar correiaengenheiro
Retenhamos o essencial das eleições europeias de há uma semana. Abstiveram-se 5 milhões 356 mil portugueses, mais 221 mil do que há cinco anos. Um nível tão elevado de abstenção não pode servir de argumento para desvalorizar o resultado eleitoral. Mas revela um défice democrático que é urgente ultrapassar.
Em comparação com as eleições para o PE de 1999, há duas forças que registaram uma descida - a coligação da Direita, PSD/PP, que perde 232 mil votos, ou seja, 17% do seu eleitorado, e a CDU que perde 49 mil votos, equivalentes a 13,6% dos seus eleitores. E há outros dois partidos concorrentes que sobem - o PS 19 mil votos, um crescimento de 1,3% em relação ao seu elevado "score" de há cinco anos, e o Bloco de Esquerda um aumento de 105 mil votos, ou seja, 169,3% dos seus eleitores.
É inequívoca a leitura política: um elevado número de portugueses que anteriormente tinham votado no PSD e no PP deslocaram o seu voto para a Esquerda ou abstiveram-se, como forma de reprovação do Governo. Os resultados, não colocando directamente em causa a legitimidade institucional do executivo, mostram que é claramente minoritário o apoio político de que o Governo dispõe e comatoso o seu estado.
A afirmação de Durão Barroso, no rescaldo da maior derrota eleitoral da Direita, de "que entendo perfeitamente a mensagem que os portugueses nos quiseram dar", logo seguida da promessa solene de que irá "manter a mesma linha de rumo", ou seja, que iremos ter mais do mesmo, evidencia como é limitada a sua margem de manobra. E como, nestas condições, a badalada remodelação governamental - com ministros apenas à espera do apito final do Euro 2004 para arrumarem papéis - não passará de um nado-morto estival.
Quanto à Esquerda, ela apresenta-se em maré alta, obtendo no seu conjunto o apoio expresso de 58,5% dos votantes. Alterou-se porém a relação que anteriormente existia entre as várias forças, com o reforço relativo do PS e do BE e o enfraquecimento da CDU. O que tem a ver com o facto da CDU, apesar do contexto de derrota da Direita e de crescimento expressivo à Esquerda, ter averbado uma significativa perda de votos (quase 50 mil) e de peso eleitoral, com particular incidência nos principais centros urbanos, em importantes zonas operárias e entre os jovens. Carlos Carvalhas ainda tentou fazer "bluff", apresentando esta descida da CDU - que representa o pior resultado de sempre em eleições europeias - como um resultado "bastante positivo e muito encorajador", mas o nariz de pinóquio atraiçoou-o
A derrota da Direita e a votação alcançada globalmente pela Esquerda constituem resultados muito positivos, que contribuem para o amadurecimento de condições para a ulterior substituição democrática do mau Governo que o país tem estado a suportar.
Mas é negativo que as divisões e a incapacidade de convergência à Esquerda, que já haviam constituído um dos principais factores responsáveis pela chegada da Direita ao poder em 2002, tenham voltado a manifestar-se nestas eleições. E que os partidos da Esquerda, para além das suas diferenças, não tenham encontrado uma postura de sentido comum ou convergente e se tenham apresentado politicamente desunidos em relação a orientações políticas fundamentais que estavam em debate.
A falta de convergência à Esquerda, ou a ilusão de que qualquer partido possa constituir-se sozinho em alternativa, é bloqueadora da perspectiva de construção de uma efectiva alternativa de Esquerda para a realização de uma política de Esquerda. Ora esta situação, se não for alterada, acabará por defraudar as expectativas de mudança dos portugueses.
Edgar Correia escreve no JN semanalmente ás segundas-feiras
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