Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 00:56:06 05/05/04 Wed
In reply to:
paulo fidalgo
's message, "É preciso rediscutir o papel do esquerdismo no processo revolucionário" on 13:04:57 05/01/04 Sat
O Esquerdismo
Alguns intervenientes neste fórum têm vindo a pôr questões sobre o esquerdismo no contexto da Revolução portuguesa ou mesmo a relembrar a sua convivência com esquerdistas. Depois, como costume, existe um ruído de fundo, que, sobre a aparência da troca de ideias, visa unicamente atacar alguns dos intervenientes. Como é evidente não é a estes que dirijo este meu texto.
Genericamente podemos dizer que o esquerdismo em Portugal no começo dos anos 60 era desconhecido. O PCP era o partido mais à esquerda, toda a outra oposição se situava à sua direita.
Com o cisma sino-soviético dá-se a ruptura, não me lembro agora o ano, em que o Francisco Martins Rodrigues, um dos evadidos de Peniche, juntamente com o Álvaro Cunhal, e que foi posteriormente apagado da "fotografia", entra a em conflito com a linha oficial do Partido, acusada de revisionista, e assume posições pró-chinesas, fundando um pequeníssimo grupo revolucionário com mais dois ex-camaradas do PCP. Ainda hoje, apesar de muitas das suas concepções se terem modificado, o Francisco Martins continua a editar a "Política Operária" e a manter uma coerência, que, ao pé daqueles que foram citados, é de louvar.
A origem do esquerdismo em Portugal é pois o cisma sino-soviético. Mas a grande força do esquerdismo advém do Maio de 68. Quem viveu o Movimento Associativo Estudantil nesses anos compreende bem o que digo. O Maio de 68 irrompeu pelas Faculdades, mas igualmente no movimento cooperativo e associativo livre com uma força indiscutível. É evidente que este facto coincide no tempo com a substituição do Salazar pelo Marcelo e as tímidas reformas empreendidas por este, como seja , por exemplo, a legalização de algumas Associações de Estudantes.
Podemos dizer que o PCP por essa época desconhecia o que era o esquerdismo, que não tinha grande reflexo no mundo operário. Não sabia como lidar com ele e com o qual, na maioria dos casos, era impossível qualquer diálogo. Os ódios eram mútuos.
Pode-se dizer igualmente que, apesar dos disparates que diziam e das campanhas que moviam, os movimentos esquerdistas tiveram alguma influência no clima geral de ódio à guerra colonial e contribuíram para a criação do clima de fim de regimen e de avanço da Revolução que, de algum modo, permitiu o 25 de Abril. Ou seja, a esquerda com a acção do PCP, do MDP, de algum socialismo enquistado no jornal "República" e do esquerdismo conquistou a hegemonia político-cultural. Não era já possível à direita fascista ter qualquer controlo sobre os órgãos de reprodução cultural. Consulte-se o catálogo dessa época de algumas editoras e veja-se o que foi possível publicar em tão curto espaço de tempo .
Feita a revolução, e alguns dos nomes citados só aparecem nesta altura, como o Durão Barroso, o esquerdismo funciona como um verdadeiro impecilho da revolução ou assumindo mesmo o papel abertamente provocador e reaccionário como foi o caso da AOC e do MRRP. Retiraria a FEC, pois as suas características, à época, seriam diferentes. Podemos dizer, e isto pode ficar para outra altura, que a contribuição do esquerdismo foi quase nula e só serviu para desgastar energias. Recordo o triste episódio que foi evitar que os esquerdistas aprovassem nos locais de trabalho moções em que propunham a condenação à morte dos implicados no 11 de Março.
Por último, diria que não podemos meter no mesmo saco o conjunto de nomes que foram citados, porque muitos deles tiveram percursos diferentes. Há hoje alguns que se assumem claramente como homens de esquerda, quer nós gostemos ou não deles. Estou-me a lembrar do Fernando Rosas.
Por aqui me fico, pois a noite já vai longa.
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