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Date Posted: 08:43:22 04/05/04 Mon
Author: Juliane Matarelli
Subject: Tarefa 2

Meu contato com línguas estrangeiras começou desde muito cedo. Como autêntica brasileira, descendo de italianos, portugueses, alemães e índio. A família de meu pai é formada a partir do casamento de uma alemã com um italiano, (união rara entre europeus, mas de certa forma comum para a realidade brasileira!) Com a Europa em crise, pessoas provenientes de vários países decidiam tentar a sorte na América. Qualquer aventura levava vantagens em relação à confusão então vigente no velho continente. Assim, escutava em minha família diferentres vozes, comportamentos diversos. É claro que junções tão díspares não ocorreriam sem maiores conflitos e o fato é que vários pequenos motins também ocorriam dentro da família, todos provenientes dos inevitáveis choques culturais.
Toda essa situação, desde cedo, despertou em mim um forte desejo de compreender as diferenças e fazer delas aliadas e não pretextos de pequenas ou grandes guerras. O fato de meus antepassados haverem chegado aqui, no Brasil, fugindo de guerras européias,desde cedo contribuiu para criar em mim uma necessidade de compreender porque as pessoas ‘guerreavam’. Assim, comecei a pedir a meus avós que me ensinassem algo de suas línguas de origem. Do lado de minha mãe, também os portugueses me causavam curiosidade. Assim, pouco a pouco, fui construindo meu pequeno dicionário ‘multi-língue’ e essa curiosidade encontrou continuidade em vários outros momentos de minha vida. Quando tinha 9 anos, apareceu uma garota em minha sala com o mesmo nome que o meu, algo que,de certa forma era incomum, já que “juliane” perdia sempre para a ocorrência “juliana”, muito mais freqüente. Essa minha chará, trazia muitas novidades: era alemã, de Düsseldorf, e além de me mostrar que àquela altura eu já era míope (me emprestando seus óculos durante uma das aulas! – ah! olha aí o ‘velho mundo’ e sua ‘esperteza’ milenar!) trocava comigo aulas de português por aulas de alemão. Assim, seguí sempre atenta às inúmeras variantes lingüísticas, fossem elas provenientes de outros dialetos, quando viajava pelo Brasil, ou mesmo outras línguas, já que sempre havia gringos por perto.
Havia, ainda, em minha cidade, uma senhora a que todos chamavam “Madame Schimit”; era uma senhora muito interessante, passava quase todas as tardes na praça da cidade. Fiquei sua amiga e descobri que ela era alemã. Vendo que eu me interessava por sua história, se propôs a me ensinar um pouco mais de alemão. Assim, quase todas as tardes eu ia ter aulas de alemão com “Madame Schimit” na praça do coreto, em Sabará, onde eu morava. Assim, meus dois primeiros professores oficiais de língua estrangeira foram “Juliane Bolhmann” e “Madame Schimit”, ambas ‘professoras’ de alemão. Os de minha família jamais quiseram ‘me dar aulas’ formalmente, apenas me ensinavam algo de italiano ou do português de Portugal. Quanto ao lado indígena de minha mãe, eu quase não tinha contato com ninguém, o que até hoje é um grande ‘buraco’ prá mim, já que jamais aprendi nada daquilo que seria minha língua de origem geográfica.
Assim, continuei minhas pesquisas lingüísticas por onde quer que eu passasse, tudo sem muito conflito, na verdade, bem divertido. Era comum aparecerem em Sabará grupos de ciganos que ficavam acampados numa região da cidade por nós apelidada ‘praia’, já que ficava à beira do rio Sabará. Havia muita preocupação dos nossos pais com os ciganos, que tinham fama de ‘roubar crianças’. Eu achava aquela vida emocionante demais prá eu não conhecer... assim, numa de minhas brigas com minha mãe, resolvi ir ter com os ciganos: quem sabe eles não me deixariam ficar com eles, ali, por alguns dias até que minha mãe melhorasse seu humor? Encontrei ali uma mulher que cuidava de umas crianças e lavava muitas panelas. Comecei a conversar com ela e contei-lhe minha história, dizendo que eu estava fugindo de casa. Eu devia ter, então, uns 8 anos e prá falar a verdade era uma menina meio esquisita...(essa narrativa vai assim mesmo, ‘indo e vindo’ no tempo e no espaço) lembro-me que a cigana foi gentil comigo e ria muito da minha história me convencendo de que eu deveria voltar prá casa (bons tempos de bons ciganos...), mas que eu poderia voltar sempre que quisesse prá conversar com ela ou brincar com as outras crianças. Perguntei a ela que língua era aquela, na qual ela converasva e ela me disse ser espanhol... achava tudo muito bom, diferente, outras vozes, outras histórias. Quando voltei prá casa e contei a história prá minha avó e minha irmã mais velha, as duas ficaram muito apavoradas (segundo elas com o risco que eu corria ficando amiga dos ciganos!) e deram um jeito de me proibir de ir até o acampamento deles, claro que com chantagens e outros métodos infalíveis para crianças. Ainda assim consegui dar uma escapulida prá converar com a cigana.
Já com uns 12, 13 anos sempre que aparecia algum gringo prá morar na cidade, dava um jeito de me aproximar deles: conheci bolivianos, peruanos e outros tantos tocadores de quenas.... rapidamente me aproximava deles pelo som que produziam, fosse pela música (àquela época eu já tocava violão, piano, flauta e cantava) fosse pela língua, enfim pela vida diferente que levavam. Tudo me parecia muito mágico. Queria saber de onde vinham tantas línguas, tantas diferenças. Minha formação familiar católica, apesar dos problemas que me criou ao longo da vida e que não cabe aqui relatar, me fez conhecer o mito da torre de Babel: tanta fantasia me seduzia ainda mais. Segui dando muito trabalho prá minha mãe e minha avó, que “morriam de preocupação” com meu futuro: diziam que eu viraria uma andarilha. Eu só não entendia o porquê da preocupação (hoje, com uma filha adolescente, eu entendo!)
Fui estudar música formalmente. Na Fundação de Educação Artística, aqui em Belo Horizonte, encontrei pessoas maravilhosas que compreendiam meus anseios... a diretora conseguiu prá mim uma bolsa de estudos no antigo “Goethe” que funcionava nas dependências do Colégio Arnaldo. Eu trabalhava na biblioteca do Goethe pra pagar minhas aulas. Tinha dezesste anos. Já havia estudado inglês, também. No Goethe tive o privilégio de ser colega de sala de um senhor muito simpático que via em mim uma adolescente cheia de sonhos, meio perdida em meio a tantas possibilidades... No primeiro dia de aula o professor queria saber o motivo dos estudos de cada aluno e eu, com a pouca modéstia típica de adolescentes, respondi que queria estudar alemão para ler os filósofos ‘no original’. Isso rendeu algumas risadas do professor o que me deixou um pouco decepcionada. Só aquele senhor, de uns 70 anos parecia me entender. Assim, ficamos amigos. Depois das aulas ele me convidava prá passear com ele pelo quarteirão e então conversávamos sobre poesia, sobre arte... eu sempre levava um livro comigo e conversava com ele sobre minhas dúvidas; ele era muito paciente comigo e eu sabia que ele deveria ser alguém importante, já que nos corredores da escola as pessoas sempre o chamavam por “doutor Abgar”. Ele apenas conversava comigo e às vezes tomávamos um café juntos. Praticávamos também o alemão. Certa vez, eu estava lendo um livro de Carlos Drummond, chamado “As impurezas do branco”; havia certas coisas confusas prá mim e resolvi levar o livro prá conversar com o Dr. Abgar. Perguntei-lhe se ele conhecia o Drummond (referia-me à sua obra) e ele, com um sorrisinho moleque, me disse que sim, que gostava muito da poesia do Drummond. Foi uma tarde muito agradável e eu fiquei feliz, muito feliz com as explicações do Dr. Abgar. Certo dia, ao chegar no Goethe, a secretária me entregou um bilhete do Dr. Abgar se despedindo: por motivos de trabalho ele precisou mudar-se pro Rio de Janeiro. Ele já havia dito que se mudaria pro Rio, mas a rapidez dos acontecimentos me assustou um pouco. Fiquei meio triste com a ausência dele, e as aulas começaram a ficar um pouco chatas sem o meu amigo. Problemas internos do Goethe também contribuiram para o fim de minha permuta com a escola e assim perdi a bolsa que tinha ali. Tive que deixar os estudos de alemão: não me incomodei muito, já que as aulas sem meu amigo Abgar já estavam meio chatas. Anos depois, lendo outro livro do Drummond, agora um de crônicas, “Fala, amendoeira”, encontrei a descrição de um amigo do poeta, que me pareceu muito familiar: esse amigo, coincindentemente, se parecia ao meu amigo do Goethe, o tal Doutor Abgar. O sobrenome também era o mesmo: Renault. Fui ao Goethe, perguntar se o meu amigo Dr. Abgar Renault era o mesmo amigo do poeta. A secretária riu da minha ingenuidade e respondeu: “claro! ele nunca te disse?”. Comecei a procurar informações sobre meu amigo e descobri fatos importantíssimos de sua história. Fatos por mim ignorados aos 17 anos, mas reconhecidos e admirados por muitos brasileiros. Dentre outras tantas atividades importantes, como ministro da Educação e Cultura, deputado estadual por Minas Gerais, chefe da secretaria do interior e justiça de Minas Gerais, professor de várias ecolas e universidades, tradutor de poesia inglesa, membro da academia brasileira de letras,
aquele senhor tão especial optou por não dizer-me nada sobre sua vida pública, nem mesmo mencionaou sua relação tão próxima com o meu poeta predileto àquela época: Carlos Drummond de Andrade; aquele senhor, que agora morava no Rio de Janeiro e deixava-me um singelo bilhete de despedida, havia me ensinado, simplesmente, que o mundo é mesmo “vasto mundo”! E que somos pontos perdidos que às vezes nos encontramos pra fazer brilhar nossa história. Aprendi com o silêncio de Abgar Renault sobre seu também ‘vasto currículum’ que pessoas graaaandes são antes de mais nada, simples. E que o conhecimento só tem verdadeiro valor se serve prá aproximar as pessoas naquilo que elas possuem de melhor. Um currículo, uma história de vida que funcione para separar as pessoas, para mostrar poder de uns sobre os outros, não tem, na verdade, valor algum.
Bem, distanciei-me bastante de minha história sobre meu contato com línguas...mas já que no meio da narrativa me acorreram tantos casos, creio que seja bom deixá-los assim, expostos para vocês. Serve prá contar um pouco sobre o que é para mim conhecer outro idioma, outras culturas.

Já adulta, viajei um pouco, continuei estudando línguas de maneiras variadas. Morei na Espanha, Portugal....
Enfim, cá estou. Continuo buscando verdadeiros contatos com pessoas verdadeiras. É isso que me interessa.

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