Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 15/02/05 15:32:26
Este texto era destinado a outro local, mas dado que ainda não foi publicado e porque o site do Fernando Redondo está aberto a qualquer um, aqui vai, reconhecendo que o debate referido já há muito que decorreu.
O DEBATE SEM AS ESQUERDAS
Vi o debate entre Sócratas e Santana.
A primeira coisa que gostaria de lamentar foi a ausência de debates a dois, com os outros lideres dos partidos com representação parlamentar. Se todos aceitassem, ter-se-iam que fazer 10 debates, o que é muito. Dada a antecedência com que começou esta campanha eleitoral, poderia não o ser e permitiria um melhor confronto de ideias. Tenho dúvidas era que ficássemos melhor esclarecidos, mas isso é outra questão. Santana quando percebeu no que estava metido e quando não conseguiu trazer o Sócrates para o debate fugiu ao tipo de confrontos que a SIC Notícias estava a organizar. Tivemos, portanto, a terminação, com os debates entre os pequenos.
Outro aspecto foi o formato utilizado. Pareceu-me péssimo, não permitindo aos candidatos o debate entre eles, parecendo, como já alguém disse, um exame em que os candidatos tinham que responder às perguntas chapa dos entrevistadores. Os temas abordados foram poucos, tendo-se fugido a um conjunto de questões fundamentais para o nosso futuro e para o conhecimento das opiniões políticas de cada um dos participantes, se de facto tivessem algumas ideias para expor. Assim, a União Europeia e a Guerra do Iraque, que ainda foi abordada pela rama, mas igualmente as questões da saúde, da educação e da justiça não foram tratadas.
A seguir vem a pergunta sacramental, quem é que ganhou? Todos nós gostamos de alinhar neste tipo de inquéritos, tão característico da sociedade capitalista, indicando quase sempre o candidato da nossa preferência ou com quem temos maior proximidade política. Por isso, não responderei a essa pergunta, mas gostaria de fazer algumas apreciações ao tipo de empatia que cada um deles desenvolve com os eleitores. Mais do que as ideias, muitas vezes debitadas à pressa ou pouco compatíveis com os parcos minutos disponíveis, o que conta neste tipo de debates é a relação do candidato com o eleitor, a sua preparação, a fluência do seu discurso, a resposta pronta ou a postura física. E isso é importante, pelo menos, para os que ainda possam estar indecisos.
Na verdade Sócrates esteve hirto, dando sempre um ar de irritado com o mundo. O seu discurso, sendo coerente e facilmente perceptível, transmitia a ideia de ser debitado por um robô, que repetia mecanicamente uma intervenção previamente alinhavada.
Pelo contrário, Santana Lopes, de cabecinha ao lado, seduzia, parecia que falava de improviso e com o coração nas mãos. Mesmo quando debitava os números, que poucos perceberam ou ligaram, fazia-o parecendo espontâneo, dando a ideia, que logo os seus apaniguados realçaram (Luís Delgado), de que estava bem preparado, coisa que alguém no seu perfeito juízo não acredita.
Tirem destas palavras as conclusões que quiserem.
Quanto à substância do discurso. Nada de novo. Sócratas, de um modo geral, falou para o seu possível eleitorado: jovens, velhos, reformados, funcionários públicos ou desempregados. Santana Lopes fez o mesmo, mas com menor eficácia. Qualquer deles não fez daquelas propostas aterradoras, que o patronato e os economistas neo-liberais gostam de apresentar. Alguns comentadores, muito preocupados, com os votos da esquerda, acharam que o discurso de Sócrates teve essa preocupação, ao referir que a pobreza não lhe era indiferente. Se para algumas almas bem-pensantes é esta a prova das preocupações de Sócratas com o eleitorado à sua esquerda, penso que estão bem enganados. Hoje as preocupações com a pobreza, sendo legítimas, tanto fazem parte do discurso do CDS, como da Igreja, e não satisfazem os eleitores que votam à esquerda do PS de Sócrates. Hoje o discurso sobre a defesa do estado social, da saúde, da educação, ou da segurança social públicas, mas igualmente a luta contra a flexibilização e a competitividade baseada nos baixos salários, na facilidade de despedimentos ou nos contratos a prazo, ou seja, a luta contra a ofensiva do patronato e o avanço ideológico do neoliberalismo, é neste momento uma bandeira muito mais perceptível pela esquerda e pelos seus votantes, do que a defesa piedosa dos mais "desfavorecidos". Neste sentido Sócratas nunca falou para a sua esquerda, o seu discurso foi mais virado para certos estratos sociais e genericamente para aquele "centrão", que julga todos pelas suas supostas competências e atitudes de liderança.
Logo a seguir, num debate organizado pela SIC Notícias, onde se foi buscar os comentadores do dito "arco democrático"(do CDS ao PS), com o Luís Delgado a pontificar, foram feitas duas afirmações claramente de direita que revelam neste momento as suas preocupações políticas. Uma, de Luís Delgado ao caracterizar o Bloco de Esquerda como um partido extremista, radical, formado por troskistas. Esta intervenção contou, valha a verdade, com a oposição de um comentador desalinhado, que achava que 30 anos depois do 25 de Abril ainda havia pessoas que consideravam que certos partidos, onde se incluíam o BE e o PCP, tinham peste e com quem não era possível fazer alianças. Foi interessante, e este é a segunda afirmação, que o representante do Diário Económico, logo acrescentasse que se houvesse alianças com o Bloco não se poderia alterar a Constituição de modo a dar maior competitividade à economia portuguesa. Percebeu-se logo onde queria chegar. Era necessário alterar a Constituição de modo a que esta facilitasse os despedimentos. É isto que esta gente deseja, mas ainda não conseguiu.
É na defesa da Constituição e do Estado Social e na participação plena de todos os actores políticos, lutando contra a sua marginalização e as maiorias absolutas conseguidas na secretaria, que passa hoje uma clara demarcação entre aqueles que defendem o progresso e a transformação da sociedade e os que, com mais ou menos piedade assistencial, pretendem a manutenção da situação existente.
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