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Subject: Intelectuais, democracia e socialismo


Author:
Eduardo Lourenço, Público, 18/02/05
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Date Posted: 18/02/05 10:31:24

Intelectuais, democracia e socialismo

Eduardo Lourenço, Público, 18/02/05


(...) Ao fim destes 30 anos de democracia, e em vésperas de umas eleições que, qualquer que seja o vencedor, marcarão o fim do já longo pós 25 de Abril, sob a aparência de um consenso democrático incolor, a antiga luta pela democracia, tal como o jovem partido socialista a fez triunfar nas eleições de 1975, não perdeu de todo a sua razão de ser. São sempre duas versões de Esquerda que continuam a digladiar-se na cena portuguesa, mas agora não tanto no plano político propriamente dito como no cultural.

Ou antes, o "político" aparece, como tudo o mais, nesta nossa era de despolitização universal, sob a máscara cultural. E aí surpresa, pelo menos para quem nunca seguiu com atenção os movimentos de fundo da sociedade portuguesa - e mormente na sua versão de "esquerda" - o déficit "cultural" é menos o do PCP que o do PS, partido-chave da nossa democracia reconquistada. Convertido em actor número um da nossa sociedade pós 25 de Abril, o Partido Socialista, legitimado pela sua defesa da liberdade, incuravelmente optimista - e ainda bem - na sua crença quase mágica nos valores democráticos, descurou, em excesso, a luta cultural, o combate de todos os instantes para dar à liberdade reencontrada o seu alento e irradiação. Por dever de governação, o Partido Socialista investiu-se na mera função política, mas desconectou-se quase por completo da sua inscrição cultural, quer dizer, do seu espírito concreto quando não é puro sonho. Não sei se uma virtual vitória do Partido Socialista será ocasião para remediar a sua carência histórica neste domínio. Oxalá que sim. Isso é vital para a sua afirmação especificamente política. Sem essa dimensão será um partido como os outros.

O paradoxo é só aparente: o mais premente e eficaz apelo aos chamados "intelectuais", durante esta campanha, não veio de um PS que nos tempos heróicos de Mário Soares se gabava, talvez em excesso, de ter com ele as melhores cabeças do País. Algumas teria naturalmente. Como outros partidos. Mas o mais intelectual dos nossos Partidos Políticos por mais que custe a alguns acreditá-lo ainda é aquele Partido que há quase três quartos de século, a título por assim dizer colectivo, uniu e unificou por dentro através de gerações diferente, os mais organizados e activos actores da vida intelectual portuguesa em todos os domínios. Era talvez normal que isso sucedesse quando através da acção política intelectual do partido comunista passava o essencial da contestação ideológica do antigo regime. Mas o extraordinário é que, de outra maneira, esse monopólio, mau grado as múltiplas dissidências ou as novas modas culturais cada vez mais alheias à antiga visão marxista-leninista é ainda hoje apanágio do Partido Comunista Português.

Não surpreende, pois, que no meio da árida campanha eleitoral que termina, o seu actual e activíssimo Secretário-Geral tenha feito apelo aos "intelectuais". Intelectuais de hoje, que os tem e brilhantes como Mário de Carvalho ou Manuel Gusmão e não, como era costume e, apenas, aos clássicos da cultura marxista em Portugal desde António José Saraiva, Óscar Lopes, Bento Jesus Caraça, Fernando Lopes Graça até aos inumeráveis actores da cultura portuguesa em todos os campos, da ficção ao teatro e ao cinema.

A relativa fraqueza eleitoral do partido comunista, a tão glosada auto-guetização a que a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética o terão reduzido, não desestruturou, como aconteceu noutros países, a mitologia canónica do partido comunista e muito menos abalou a sua aura cultural que tem no seu antigo Secretário-geral um ícone vivo. Não é apenas para José Saramago que o brasão de autor comunista é um "must", mas para muitos outros menos célebres que, como ele, ou talvez até mais do que ele, se tornaram por sua vez o brasão cultural do PC, o seu ponto de honra.
(...)

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Re:Portuenses receberam caravana comunista em apoteoseSusana Otão, JN, 18/02/0518/02/05 11:10:23


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