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Guilherme Statter
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Date Posted: 12/01/05 21:10:30
O caso da Zambia
Aparecem aqui de vez em quando uns senhores muito bem educados (outros nem por isso...) mas às vezes a dar numa de petulantes "meninos-bem", que parecem acreditar piamente que o capitalismo só trouxe benefícios à Humanidade.
Claro que trouxe!!!
É tão evidente como a linha do horizonte...
Mas para mal dos nossos pecados (expressões que ficam de quando a gente ia à missa... 8-))a verdade é que o capitalismo tem também aquilo que agora os estrategas das novas e novíssimas guerras chamam de "danos colaterais".
Hoje proponho a reflexão sobre um dos países de África que já teve - durante uns 15 a 20 anos - um dos mais interessantes (e fulgurantes) processo de desenvolvimento económico e social: a Zambia. Tudo no respeito mais íntegro das regras de funcionamento do capitalismo, designadamente algumas "nacionalizações", sempre com indemnização negociada. Como fez aqui Salazar com a Carris ou os TLP. Lembram-se?...
Mas adiante. Se acharem "chato e comprido", é simples. Desligam e saltam para outra.
Benefícios e Efeitos Colaterais do Capitalismo – O caso da Zambia
Até 1964 a Zâmbia era conhecida como Rodésia do Norte. Resultara da expansão colonial britânica sob impulso da British South Africa Company, companhia magestática fundada por Cecil Rhodes (o magnata dos diamantes e do ouro que esteve na origem da famigerada questão do “Mapa Cor de Rosa”).
Pode assim tirar-se uma
Primeira conclusão: Se não fosse a expansão colonial do capitalismo, não teríamos Zambia. Outra coisa qualquer (talvez uma Angola mais alongada para o interior, quem sabe...) mas não Zambia. Nada de especialmente grave.
Desde os anos 1920’s, com a descoberta de minas de cobre, que a exploração deste minério se tornou determinante para a vida económica e social da então Rodésia do Norte.
Na altura da independência (em 1964) a Zambia tinha apenas 6 graduados universitários (bacharéis) zambianos (numa população de 5 milhões) e 80 quilómetros de estradas alcatroadas. Já os caminhos de ferro (essenciais para o transporte do cobre) eram alguns milhares de quilómetros. Toda a estrutura física construída (transportes, comunicações, escolas, hospitais...) estava quase que exclusivamente orientada ou ao serviço das companhias mineiras.
Segunda conclusão: o capitalismo – muito naturalmente – faz apenas aquilo que lhe interessa (dá lucro). É assim e não há que haver “queixas” ou “lamentos”.
A partir de 1965, o governo da Zambia (uma espécie de marxismo MUITO mitigado pelo humanismo cristão professado por Kenneth Kaunda) começou um movimento de desenvolvimento do novo País. A subida do preço de cobre no mercado de Londres (o principal e determinante à escala mundial), assim como o aumento da produção, permitiu à Zambia arrecadar fundos que foram aplicados em escolas, estradas, uma universidade, hospitais, zambianização da administração pública. Mesmo com todos esses investimentos, em 1969 o estado zambiano tinha um excedente de capital (superavit) em resultado do preço favorável do Cobre (90% das exportações, o resto eram outros minérios (cobalto...)) e dos lucros das companhias mineiras.
Uma terceira conclusão: Não há nada melhor para o desenvolvimento de um país do que os seus dirigentes aproveitarem os bons preços (daquilo que podem produzir) nos mercados mundiais do capitalismo. Em particular quando estes sobem e/ou são estáveis e, sobretudo, compensadores
O mundo corria “na maior” (havia uma guerra no Vietname…) para os produtores de cobre. Em 1969 a Zambia era o terceiro maior produtor mundial de cobre com mais de 12% da produção mundial (depois dos EUA e da ex-URRSS) e à frente do Chile (esse mesmo, o do Allende e mais tarde do Pinochet (e da ITT... “isto” está tudo ligado – é o tal “sistema-mundo”).
A kwacha era uma moeda forte e a Zambia um dos mais ricos países de África... O pessoal, (zambianos e “expatriados”), vivia “na maior”... respirava-se prosperidade. Mesmo com os custos de transporte do minério (já refinado) e das importações através de Angola, Rodésia do Sul e Moçambique.
Depois, A acabou a guerra no Vietname (em Abril de 1975), B começou-se a falar de uma nova invenção, que iria substituir os cabos telefónicos (as fibras ópticas), C cresceram as vozes a falar de reciclagem dos metais já existentes nos milhões de electrodomésticos e outros motores por esse mundo fora e, azar dos azares (...), em Setembro de 1975 o preço do cobre caíu assim, de repente, de um dia para o outro, para pouco mais de metade.
Entretanto houvera já em 1973 o primeiro choque petrolífero (e o custo das importações de combustíveis “disparou”, como eles gostam de dizer).
Tudo coisas sobre as quais o estado zambiano não tinha obviamente qualquer espécie de controle. E no entanto tinha feito tudo segundo os cânones da economia clássica... Investimento em estruturas essenciais para uma economia nacional poder funcionar, educação de base e ensino universitário...
Era provavelmente um caso excepcional de baixíssima corrupção ao nível mais elevado do Estado.
E no entanto, apesar de tudo isso, a partir de meados dos anos Setenta, foi a degradação progressiva a culminar nos inevitáveis “Programas de Ajustamento Estrutural” impostos pelas instituições do “Washington Consensus”.
Uma quarta (e para já última) conclusão: Quando o Mar bate na Rocha, quem se lixa é o mexilhão.
E, claro está, o funcionamento do capitalismo à escala global do nosso planeta não tem nada a ver com isto...
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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