| Subject: Re: Capitalismo e Países "mal-desenvolvidos" - 1 |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 18/01/05 16:22:42
In reply to:
Guilherme Statter
's message, "Capitalismo e Países "mal-desenvolvidos" - 1" on 12/01/05 21:10:30
Caro Guilherme Statter : Já os clássicos do marxismo e mesmo o próprio Marx assinalava que o capitalismo representava,na história do homem ,um significativo salto qualitativo , uma etapa progressista da história ,embora vejam também ,desde o início ,as suas terriveis contradições que se iriam acentuar à medida que a dinâmica capitalista se desenvolveu.
A Zâmbia representou um desses raros "oásis" de um território colonizado pelos ingleses e que acedendo à independência se viu enquadrado na luta económica intra-capitalista, implacável e sem cerimónias , um objecto apetecível da rapacidade do insaciável capitalismo.
Não é por ser particularmente "mau" ,mas é inerente à sua essência filibusteira e expansionista...O capitalismo alimenta-se dos mercados e das suas matérias primas,das suas forças de trabalho ,dos seus produtos primários.
Agora temos a globalização como resposta à crise. Confrontado, por um lado, com a diminuição da margem de lucro e , por outro, com a desintegração de um mecanismo monetário baseado na hegemonia absoluta inquestionável dos USA ,o capital avança na frente da reestruturação e a expansão globalizante, sempre e sempre em prol do lucro.
>O caso da Zambia
>Aparecem aqui de vez em quando uns senhores muito bem
>educados (outros nem por isso...) mas às vezes a dar
>numa de petulantes "meninos-bem", que parecem
>acreditar piamente que o capitalismo só trouxe
>benefícios à Humanidade.
>Claro que trouxe!!!
>É tão evidente como a linha do horizonte...
>Mas para mal dos nossos pecados (
>size="2">expressões que ficam de quando a gente ia à
>missa... 8-))a verdade é que o
>capitalismo tem também aquilo que agora os estrategas
>das novas e novíssimas guerras chamam de "danos
>colaterais".
>Hoje proponho a reflexão sobre um dos países de África
>que já teve - durante uns 15 a 20 anos - um dos mais
>interessantes (e fulgurantes) processo de
>desenvolvimento económico e social: a Zambia. Tudo no
>respeito mais íntegro das regras de funcionamento do
>capitalismo, designadamente algumas "nacionalizações",
>sempre com indemnização negociada. Como fez aqui
>Salazar com a Carris ou os TLP. Lembram-se?...
>Mas adiante. Se acharem "chato e comprido", é simples.
>Desligam e saltam para outra.
>
>Benefícios e Efeitos Colaterais do Capitalismo – O
>caso da Zambia
>
>Até 1964 a Zâmbia era conhecida como Rodésia do Norte.
>Resultara da expansão colonial britânica sob impulso
>da British South Africa Company, companhia magestática
>fundada por Cecil Rhodes (o magnata dos diamantes e do
>ouro que esteve na origem da famigerada questão do
>“Mapa Cor de Rosa”).
>Pode assim tirar-se uma
>Primeira conclusão: Se não fosse a expansão
>colonial do capitalismo, não teríamos Zambia. Outra
>coisa qualquer (talvez uma Angola mais alongada para o
>interior, quem sabe...) mas não Zambia. Nada de
>especialmente grave.
>Desde os anos 1920’s, com a descoberta de minas de
>cobre, que a exploração deste minério se tornou
>determinante para a vida económica e social da então
>Rodésia do Norte.
>Na altura da independência (em 1964) a Zambia tinha
>apenas 6 graduados universitários (bacharéis)
>zambianos (numa população de 5 milhões) e 80
>quilómetros de estradas alcatroadas. Já os caminhos de
>ferro (essenciais para o transporte do cobre) eram
>alguns milhares de quilómetros. Toda a estrutura
>física construída (transportes, comunicações, escolas,
>hospitais...) estava quase que exclusivamente
>orientada ou ao serviço das companhias mineiras.
>Segunda conclusão: o capitalismo – muito
>naturalmente – faz apenas aquilo que lhe interessa (dá
>lucro). É assim e não há que haver “queixas” ou
>“lamentos”.
>A partir de 1965, o governo da Zambia (uma espécie de
>marxismo MUITO mitigado pelo humanismo cristão
>professado por Kenneth Kaunda) começou um movimento de
>desenvolvimento do novo País. A subida do preço de
>cobre no mercado de Londres (o principal e
>determinante à escala mundial), assim como o aumento
>da produção, permitiu à Zambia arrecadar fundos que
>foram aplicados em escolas, estradas, uma
>universidade, hospitais, zambianização da
>administração pública. Mesmo com todos esses
>investimentos, em 1969 o estado zambiano tinha um
>excedente de capital (superavit) em resultado do preço
>favorável do Cobre (90% das exportações, o resto eram
>outros minérios (cobalto...)) e dos lucros das
>companhias mineiras.
>Uma terceira conclusão: Não há nada melhor para
>o desenvolvimento de um país do que os seus dirigentes
>aproveitarem os bons preços (daquilo que podem
>produzir) nos mercados mundiais do capitalismo. Em
>particular quando estes sobem e/ou são estáveis e,
>sobretudo, compensadores
>O mundo corria “na maior” (havia uma guerra no
>Vietname…) para os produtores de cobre. Em 1969 a
>Zambia era o terceiro maior produtor mundial de cobre
>com mais de 12% da produção mundial (depois dos EUA e
>da ex-URRSS) e à frente do Chile (esse mesmo, o do
>Allende e mais tarde do Pinochet (e da ITT... “isto”
>está tudo ligado – é o tal “sistema-mundo”).
>A kwacha era uma moeda forte e a Zambia um dos mais
>ricos países de África... O pessoal, (zambianos e
>“expatriados”), vivia “na maior”... respirava-se
>prosperidade. Mesmo com os custos de transporte do
>minério (já refinado) e das importações através de
>Angola, Rodésia do Sul e Moçambique.
>Depois, A acabou a guerra no Vietname (em Abril
>de 1975), B começou-se a falar de uma nova
>invenção, que iria substituir os cabos telefónicos (as
>fibras ópticas), C cresceram as vozes a falar
>de reciclagem dos metais já existentes nos milhões de
>electrodomésticos e outros motores por esse mundo fora
>e, azar dos azares (...), em Setembro de 1975 o preço
>do cobre caíu assim, de repente, de um dia para o
>outro, para pouco mais de metade.
>Entretanto houvera já em 1973 o primeiro choque
>petrolífero (e o custo das importações de
>combustíveis “disparou”, como eles gostam de dizer).
>Tudo coisas sobre as quais o estado zambiano não tinha
>obviamente qualquer espécie de controle. E no entanto
>tinha feito tudo segundo os cânones da economia
>clássica... Investimento em estruturas essenciais para
>uma economia nacional poder funcionar, educação de
>base e ensino universitário...
>Era provavelmente um caso excepcional de baixíssima
>corrupção ao nível mais elevado do Estado.
>E no entanto, apesar de tudo isso, a partir de meados
>dos anos Setenta, foi a degradação progressiva a
>culminar nos inevitáveis “Programas de Ajustamento
>Estrutural” impostos pelas instituições do
>“Washington Consensus”.
>Uma quarta (e para já última) conclusão:
>Quando o Mar bate na Rocha, quem se lixa é o mexilhão.
>E, claro está, o funcionamento do capitalismo à escala
>global do nosso planeta não tem nada a ver com isto...
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter
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