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observador curioso
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Date Posted: 13/01/05 18:12:23
In reply to:
Miguel Urbano Rodrigues
's message, "O deputado mudo e o jovem Gomes da Silva!" on 12/01/05 9:59:38
Anedótico, de facto. mas igualmente confrangedor vir aqui este Senhor revelar esses episódios quando um certo sentido de ética e de solidariedade entre colegas o deveria ter impedido de o fazer.
>Guardo densa memória daquela visita à União Soviética.
>Admito que, se houvesse participado de uma delegação
>similar, Kafka teria escrito um conto fantástico
>inspirado pelos seus pequenos e estranhos incidentes.
>Foi no ano 91. Retribuíamos a vinda a Portugal de uma
>delegação do Soviete Supremo. A URSS tinha entrado em
>agonia. Os parlamentares soviéticos tais coisas
>disseram durante um jantar em Lisboa que o deputado
>Guilherme Silva, do PSD, fascinado, condensou o seu
>apreço num comentário: «Verifico com satisfação que os
>senhores deputados da URRS estão mais próximos
>ideologicamente do PSD que das ideias dos deputados
>Odette Santos e Miguel Urbano, presentes nesta mesa.»
>Éramos seis na delegação da AR que meses depois
>visitou o país de Lenine: os deputados Sottomayor
>Cardia e Manuel Alegre do PS, eu pelo PCP, e três
>representantes do PSD: Pedro Roseta, o jovem Rui Gomes
>da Silva e um cidadão cujo nome não recordo, eleito
>pelo Algarve. Dele se sabia somente que estava ligado
>à Construção Civil. Tinha, como parlamentar, a vocação
>da mudez. Nunca lhe ouvi a voz no plenário de São
>Bento.
>Pedro Roseta, que chefiava a delegação, temia os seus
>dois correligionários. Inteligente e culto, receava os
>efeitos da verborreia de um e da eventual ruptura do
>silencio do outro.
>A primeira situação kafkiana ocorreu em Leninegrado
>durante um almoço oferecido à delegação pelo
>presidente da Câmara da cidade.
>Interrompendo uma fala da tradutora que enaltecia a
>sabedoria militar do defunto czar Nicolau II, o
>deputado mudo formulou uma pergunta algo embaraçosa:
>«quanto custa em média em Leninegrado - indagou - o
>metro quadrado de terreno? Sou construtor e gostaria
>de saber».
>O alcaide, gorbatcheviano militante, hesitou,
>inquieto. Não quis explicar que, sendo a URSS um país
>socialista, os solos eram bem público, não estando à
>venda. Numa resposta enovelada afirmou que o problema
>da construção estava em debate e que os terrenos ainda
>não podiam ser adquiridos.
>Inconformado e surpreendido, o parlamentar construtor
>insistiu:
>«Sim, mas, por favor, faça um cálculo. Em média qual o
>valor do metro quadrado?»
>O presidente da Câmara, não querendo desagradar ao
>empresário, atirou para o ar, em rublos, um número
>inventado no momento.
>O deputado silencioso puxou da calculadora, fez a
>conversão, e comentou:
>«Incrível. É baratíssimo. Por esse preço, se me
>autorizassem, comprava um bairro inteiro de
>Leninegrado para construir prédios».
>A atmosfera do almoço mudou a partir desse desabafo. A
>intérprete traduziu com entusiasmo. O deputado
>construtor logo passou a receber demonstrações de
>apreço excepcionais. Dirigiam-se-lhe como a um
>Rockefeller lusitano. O resto da delegação foi
>ignorado.
>Dias depois, em Samarcanda, no Uzbequistão, durante a
>visita a uma fábrica de tapetes, o deputado mudo
>voltou a falar. Quis saber qual o custo do metro
>quadrado das peças expostas. Informado de que dependia
>da qualidade, anotou os preços e comentou sorridente:
>«É tudo praticamente de graça. Pena que não possa
>levar um carregamento no avião da Aeroflot».
>O director da fábrica deu algumas ordens secas e
>minutos depois surgiram funcionários carregados, e
>montes de tapetes orientais, magníficos, foram
>desdobrados na sala, envolvendo o deputado. O homem
>quase se assustou. Fez-me pensar em personagens das
>Mil e Uma Noites.
>Do então jovem Rui Gomes da Silva - de cuja existência
>eu tomara conhecimento quando caiu do ar, em nevoento
>episódio, com um avião vindo da Jamba de Savimbi em
>companhia do filho de Mário Soares - a lembrança mais
>forte, inapagável, que conservo é a de uma conversa no
>Hotel Moskva, onde estávamos hospedados.
>Uma manhã abordou-me para fazer uma confissão e pedir
>um conselho.
>Vinha de cenho franzido.
>«Trata-se de uma questão delicada - esclareceu. Trouxe
>uma mala cheia de coisas de que pretendo desfazer-me e
>não sei como...»
>Sugeri que fosse um pouco mais preciso.
>«Não quero jogar tudo no cesto dos papéis e não sei
>como destruir aquilo».
>«Oh homem, mas de que se trata, afinal? - perguntei.
>Gomes da Silva pousou em mim um olhar vazio e a
>confissão chegou, tímida, em voz baixa:
>«Estamos a comer estupendamente. Eles oferecem-nos
>banquetes pantagruélicos. Foi uma surpresa para mim.
>Na mala eu trouxe uma montanha de pacotes de bolachas
>portuguesas. Foi conselho de amigos do meu partido.
>Disseram-me que ia passar fome na Rússia...»
>Hoje é ministro.
>
>Miguel Urbano Rodrigues in Avante!
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