VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

21/04/26 18:48:49Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 123456[7]8 ]
Subject: Capitalismo e Países "mal-desenvolvidos" - 2


Author:
Guilherme Statter
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 14/01/05 0:34:33

Eu sei que a época é de eleições, neste cantinho à beira-mat plantado... E como sempre, MUITO decisivas!...
Mas, como "isto" a mim até me serve de distração de coisas ainda mais chatas e compridas, de vez em quando lá virá mais um "caso" para ilustrar as vantagens, mas sobretudo os efeitos colaterais do funcionamento do capitalismo real. Aquele que temos e que funciona à escala do planeta. O tal (e malfadado) "sistema-mundo".
Aviso que este "caso" (o da Argentina) ainda é mais chato e comprido do que o da Zambia (se bem me lembro, não estive a contar as linhas...).
Em todo o caso, já sabem, é só desligar e saltar para outra. A mi me da igual, como creo que dicen en Buenos Aires... eh eh eh
Então cá vai.
O caso da Argentina
A Argentina é o único país do mundo que nos anos Trinta do século XX era considerado “desenvolvido” – altura em que o seu rendimento “per capita” se comparava favoravelmente com o do Canadá – e que é considerado “subdesenvolvido” desde os anos Cinquenta para cá.
http://encyclopedia.farlex.com/Argentina
Quem viu o filme “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse” lembrar-se-á que as principais personagens são membros de uma família de milionários argentinos... Um deles um “play-boy” gozando a vida em Paris nas vésperas da invasão Nazi.
Em fins da década de Trinta a Argentina gozava ainda de um elevado nível de vida. No virar do século XIX para o século XX era mesmo um dos países mais ricos do mundo, em termos de PIB per capita.
Como se poderá explicar este estranho fenómeno de um país com grande cultura e avanço ciêntífico e tecnológico (ainda que específico ou "enviesado") tenha "descaído" de uma posição cimeira no concerto das nações (sem que lá tenha havido nenhuma "ditadura comunista" !... diga-se de passagem, eh eh eh) ???
Os especialistas em Economia Política (ou Sociologia) do Desenvolvimento, avançam com a seguinte explicação:

Durante as últimas décadas do século XIX e nas primeiras décadas do século XX a Argentina era um dos destinos de sonho de milhões de pobres emigrantes europeus, em busca de melhor vida. Convém lembrar a grande crise de fins do século XIX na Europa da Segunda Revolução Industrial...
A Onda de Kondratieff começara a descer em meados da década de Sessenta e veio a "bater no fundo" em meados dos anos Noventa...
Um país novo "cheio de oportunidades" com um tal influxo de capital humano (e de investimentos financeiros em busca de aplicação...) não podia deixar de ter um grande e rápido desenvolvimento, ainda que não isento de sobressaltos.
Primeira conclusão: O capitalismo pode (e a intervalos regulares é o que tem acontecido) gerar períodos de grande expansão e crescimento, em particular através da criação de novos mercados ou do aprofundamento de mercados já existentes.

Grande parte dos investimentos em capital (financiamento de estruturas e máquinas) teve origem na então grande potência financeira mundial: a Grá-Bretanha. Ao longo dessas décadas a Argentina, seguindo os cânones da Economia Clássica (e ainda hoje regra de ouro da Teoria do Comércio Internacional), especializou-se naqueles produtos em que tinha uma clara "vantagem competitiva": Em especial a criação de gado bovino, a cultura de trigo e a criação de gado lanígero.
Era assim que pagava as importações (do Reino Unido!!!...) para onde exportava principalmente carne, trigo e lã. Para o "sistema-mundo" centrado em Londres, a Argentina era assim uma espécie de Canadá ou Austrália, só que falavam Espanhol.
Segunda conclusão: Tudo vai bem no melhor dos mundos quando há entre regiões ou países diferentes, complementaridade na produção e consumo de bens e de serviços.

A partir da crise de liderança britânica (no nosso "sistema-mundo"), crise essa expressa, por exemplo, com o abandono do padrão-ouro em 1931, ocorrida na sequência da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha passara de grande banqueiro do mundo (detinha cerca de 40% das reservas financeiras da economia mundial) para devedor líquido (em particular dos EUA...).
Terceira conclusão: Quando alguém se mete em guerras - coisa demorada e cara - alguém acaba sempre por ter que pagar as despesas...

Entretanto, com a "passagem do testemunho" (da liderança do "sistema-mundo") de Londres para Nova-Iorque, nos anos Trinta do século XX, a economia britânica sofreu alterações estruturais de fundo e começou a ter que "seleccionar" os seus fornecedores de "carne, trigo e lã". E doutras coisas, claro. Mas isso não interessa para o caso argentino...
E por outro lado, as suas exportações (deles, dos britânicos...) tiveram que começar a subordinar-se às exportações dos americanos.
E foi assim que a Argentina começou a ter que ir "bater à porta" dos ditos americanos para se abastecer de coisas que não produzia (máquinas... electrodomésticos... automóveis...).
O problema é que os americanos, como bons capitalistas que são (e acho muito bem) queriam ser pagos em moeda forte. A qual só se obtém com exportações.
Pois é... O problema é que os americanos também produzem MUITO trigo e MUITA carne. Que aliás também queriam exportar para a Europa... Chatos.
E de lã, não precisavam assim muita.
Terceira conclusão: Tudo vai mal no pior dos mundos quando entre regiões ou países NÂO há complementaridade na produção e consumo de bens e de serviços.

Desde aí para cá, para a Argentina (claro...) tem sido a descida na tabela classificativa dos países desenvolvidos... Já experimentaram muitas hipóteses de solução, desde o peronismo à ditadura do Videla y sus muchachos... Agora, com a estória do Mercosur parece que se estão a sair menos mal...
A ver vamos, como diria o cego.
Aqui há uns anos, em meia-duzia de semanas tiveram 5 Presidentes. Ninguém aguentava a "batata quente" (provocada – dizem – pela financeirização do "sistema-mundo" (raios o partam, ao "sistema-mundo", claro chiça....))
Mas claro que nada disto tem a ver com o funcionamento do capitalismo. Estas coisas aconteceem assim, ao sabor das circunstâncias. E quando dá na veneta a uns tantos activistas.

Entretanto – e para terminar – é interessante assinalar que o caso da Argentina é também um exemplo paradigmático de como a teoria acaba sempre por ter que se ajustar à prática.
Foi exactamente a partir da sua observação directa (e no posto de comando, como soe dizer-se...) do fenómeno argentino que o economista Raoul Prebisch (então governador do Banco da Argentina) veio a dar origem a uma escola de pensamento (em "Economia Política do Desenvolvimento") chamada "Teoria da Dependência".
Cordiais saudações,
Guilherme Statter

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.