| Subject: Uma mulher no centro da oposição |
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Público
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Date Posted: 27/12/04 13:42:50
Uma Mulher no Centro da Oposição
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2004
A história e as estórias de Maria Isabel Hahnemann Saavedra de Aboim Inglez I
"A senhora doutora está a conversar com a senhora directora'
Isabel Aboim Inglez foi um símbolo da luta contra o fascismo. Inspirada em Kant e herdeira da Revolução Francesa e do Iluminismo, esteve em todos os movimentos de oposição a Salazar e embora não fosse comunista colaborou do PCP e era respeitada pelo partido. Defensora do humanismo, do pacifismo e da liberdade, é um marco na história política portuguesa do século XX. Até pela firmeza e a convicção que sempre demonstrou perante as atrozes perseguições de que foi vítima. Uma história que o PÚBLICO começou a relembrar ontem e termina hoje. Por São José Almeida
" A minha mãe foi presa, por falar no tribunal. Eu fui lá, à noite, levar-lhe o pijama, mas receberam-me muito bem e disseram-me: 'Ah, a senhora doutora está muito bem, está a conversar com a senhora directora'", relata Isabel Hahnemann Saavedra de Aboim Inglez, sobre a terceira e última prisão de sua mãe, Maria Isabel Hahnemann Saavedra de Aboim Inglez, que, em 1958, foi detida nas Mónicas, por ordem do juiz que presidia ao tribunal plenário a que Maria Isabel compareceu como testemunha abonatória. "A minha mãe disse até que tinha aprendido alguma coisa com as outras reclusas, fez ali um estudo sociológico", remata, sorrindo, Isabel.
Maria Isabel Aboim Inglez fora presa, a primeira vez, pela PIDE, em 13 de Dezembro de 1946, sendo libertada no dia seguinte, 14, sob fiança de cem contos, o valor idêntico para todos os membros da comissão central do Movimento de Unidade Democrática (MUD), que é obtido pela oposição através de recolha pública. Já a sua segunda detenção em Caxias ocorreu a 31 de Janeiro de 1948, por causa da distribuição de 1500 exemplares de propaganda do MUD, e durou até 28 de Fevereiro. Mas o episódio relacionado com as suas prisões que ficou nos anais da oposição ao fascismo e é exemplar da personalidade, coragem e firmeza, de Maria Isabel Aboim Inglez, nascida a 7 de Janeiro de 1902 e falecida a 7 de Março de 1963, é a sua detenção nas Mónicas.
Inúmeras vezes testemunha de defesa nos tribunais plenários, Maria Isabel, que afirmava que falava, pensava e escrevia, porque assim o queria, acabou, ela mesma, punida com três dias de prisão numa cadeia de delito comum, por suposta ofensa ao tribunal. Só porque, nesse dia, resolveu desafiar o juiz, como relatam os autos da segunda audiência do julgamento, de Isaura Assunção Silva, de quem foi testemunha, citados por Vanda Gorjão: "Começou por dizer que todos os indivíduos que não prestam declarações na Polícia são dignos de admiração porque são 'amantes da liberdade' e que louva também o 'Partido Comunista Português' por assim proceder (...). Protestou por se encontrarem agentes na sala e até junto da sala das testemunhas e que outras vezes que tem deposto naquele tribunal tem ficado sem lugar, porque estão tomados pelos agentes. Acabou por discutir com o juiz presidente que a mandou para a prisão, por três dias, por faltar ao respeito ao tribunal."
Assumindo sempre autonomia de pensamento e fazendo uma consistente e elaborada defesa da democracia e da liberdade nos seus discursos, muitos dos quais - se não quase todos - são peças de teoria política, Maria Isabel Aboim Inglez adere ao MUD em 1945, com 43 anos, porque é procurada com esse fim por antigos alunos de Letras. A sua entrega e capacidade de activismo político dão-lhe tal destaque, que um ano depois integra a comissão central do MUD, presidida por Mário Azevedo Gomes, vice-presidida por Bento de Jesus Caraça e integrada por Fernando Mayer Garção, Gustavo Soromenho e Manuel Mendes. Permanecerá nesse órgão até à sua extinção em 1948. Logo aí é uma teórica, uma doutrinária e está entre os redactores do documento "As Mulheres e o Movimento de Oposição". Segundo o filho Carlos relatou a Vanda Gorjão, várias reuniões da comissão central são feitas em casa de Maria Isabel. E é ela que está na origem do MUD juvenil pela ligação que fazia aos delegados jovens, afirma Mário Soares a Vanda Gorjão.
Uma senhora entre homens
O prestígio e a proeminência de Maria Isabel é tal que, no final de 1946, início de 1947, foi ela que serviu de elo de ligação num encontro que Mário Soares teve com Álvaro Cunhal, em que este o demoveu de ir para a Suíça, conta o ex-Presidente a Maria João Avillez no livro "Soares. Ditadura e Revolução" (Ed. PÚBLICO). O encontro foi na serra da Boa Viagem, ao pé de Buarcos. Soares foi acompanhado de Maria Isabel Aboim Inglez e relata que Cunhal insistia em tratá-la por tu, por camarada e por Rosa, nome que lhe tinha sido dado no âmbito do MUD e da oposição, mas que ela rejeitava reconhecer. Por sua vez, ela respondia sempre que não era esse o seu nome e tratava-o por senhor doutor Álvaro Cunhal, conta Soares, que foi seu grande amigo e é seu compadre, já que Maria Isabel Aboim Inglez é madrinha de Isabel Soares. Uma amizade dos tempos do MUD que se prolongou nos anos e cuja intimidade foi grande, de acordo com o relato de Luísa Irene Dias Amado: "Quem conseguiu o casamento, no Aljube, da Maria de Jesus com o Mário foi a doutora Isabel Aboim Inglez e o Manuel Mendes que foram dizer ao Mário: 'A Maria de Jesus está grávida e vocês têm de casar aqui e é para já.' E casaram. A doutora Isabel Aboim Inglez naquela casa foi muito marcante."
Mário Soares salienta ainda a Maria João Avillez que, quando, em 1951, ele saiu do PCP, Maria Isabel continuou sua amiga e sustenta: "[Era uma] entusiasta pela causa, embora sempre tivesse resistido a filiar-se no Partido Comunista. Ficara viúva muito cedo, com cinco filhos, uma mulher de grande encanto, mas muito austera, determinada, de uma grande inflexibilidade de carácter."
Já como figura incontornável da oposição ao fascismo, Maria Isabel tem outro momento alto na candidatura de Norton de Matos, em Janeiro e Fevereiro de 1949, um papel fulcral, tendo a ditadura em retaliação mandado fechar o seu colégio Fernão e Magalhães, em Lisboa. Maria Isabel integra a comissão central do MUD, ao lado de 14 homens. Discursa em vários comícios em Lisboa, Almada, Portalegre, Évora, Faro, Santarém, Porto e Coimbra, até que a PIDE a proibiu de intervir. A sua conferência sobre "Conceitos de Igualdade, Liberdade e Democracia" foi impressa pelos serviços de candidatura.
Este movimento desagua no Movimento Nacional Democrático, a que esteve também ligada - assim como estará presente com destaque de primeiro plano em todos os momentos eleitorais. Em 1957, está na comissão central da candidatura de Arlindo Vicente e, depois, com Humberto Delgado. Em 1961, vê-se limitada nos seus direitos políticos. As comissões de recenseamento não aceitam a sua candidatura nas listas da oposição a um mandato de deputada na Assembleia Nacional. Em reacção ao cercear dos seus direitos, Maria Isabel publica a 31 de Outubro de 1961, no "República", um texto que é um genuíno programa político de governação democrática, intitulado "A ética e a política".
"Use o que quiser"
Paralelamente à sua actividade em movimentos eleitorais e de defesa da democratização da sociedade portuguesa e do fim do regime fascista, Maria Isabel foi uma importante militante da causa pacifista no pós-guerra. A sua defesa do pacifismo, o combate à NATO, a crítica da guerra fria são pilares estruturantes do seu pensamento e intervenção política, numa época em que estes movimentos eram vistos como pró-soviéticos. Daí que não tenha sido difícil ao regime fechar a Associação Feminina Portuguesa para a Paz (1936-1952), de cuja assembleia geral Maria Isabel foi presidente em 1946-47, precisamente alegando pró-comunismo, depois de uma sessão comemorativa do 8 de Março, em 1952, em que Maria Isabel Aboim Inglez e Margarida Tengarrinha intervieram a convite da Maria Helena Correia Guedes. Tengarrinha ainda se lembra de como se perdeu no improviso, naquela que foi a sua primeira intervenção pública. E como teve noção que o fazia perante alguém que tinha capacidades oratórias invulgares. Jurou então não mais falar em público sem estruturar ideias no papel.
Além de activista pela paz, Maria Isabel foi defensora dos direitos das mulheres, frisa Margarida Tengarinha, se bem que nunca os tenha individualizado da luta pela democracia. E exemplifica com uma história, que lhe foi contada pela sua protagonista. "A Bebé Feu, que fez agora 91 anos, recorda-se que o marido, que era espanhol [dono da fábrica de conservas onde está a ser montado o museu das conservas em Portimão], quando iam para a praia, queria que ela usasse fatos de banho até ao joelho. E ela, que era moça do Algarve, costumava usar roupa mais fácil de nadar. Ela andava toda chateada e a senhora dona Maria Isabel estava no toldo com a Bebé Feu e dizia: 'Não faça o que o seu marido manda, use o que quiser'. Esta senhora ainda se lembra dos conselhos que a senhora dona Isabel lhe dava sobre a forma de não obedecer completamente ao marido e reagir às suas ordens demasiadamente obsoletas. Ela também fazia este trabalho."
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