| Subject: Re: A Esquerda e A Despesa Social |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 30/12/04 11:27:00
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "O que é ser de esquerda hoje ?" on 29/12/04 16:41:02
Não Fernando Redondo- A esquerda não fez do Estado social uma bandeira.
O que acontece, parece-me , é que a esquerda lato sensu , sendo Esquerda tem que óbviamente instrumentalizar os mecanismo do socialismo e não como diz o Miguel Urbano, ir servir-se dos instrumentos do capitalismo..., para ir rumo ao Socialismo.
>O principal problema que enfrentamos é o de haver
>demasiadas pessoas, bem intencionadas, que pensam que
>a resposta a esta pergunta é evidente.
>
>O que é ser de esquerda hoje ?
>Apesar de vivermos num país onde a produção teórica é
>quase nula, onde se endeusa qualquer “bicho careta”
>estrangeiro lido à pressa ao mesmo tempo que se deixa
>morrer as memórias do processo revolucionário que
>vivemos, onde os debates políticos descambam quase
>sempre para os despiques pessoais e mesmo para as
>ofensas em vez da refutação das ideias, ao colocar
>esta pergunta sentimo-nos sempre olhados com
>desconfiança como se se tratasse de uma provocação.
>
>Cada um de nós tem, evidentemente, alguma ideia sobre
>o assunto mas há talvez demasiado tempo que tais
>ideias não são interpeladas e muito provavelmente se
>pretendêssemos explicar porque é que temos tais ideias
>não saberíamos muito bem o que dizer. São ideias de
>esquerda porque são, porque toda a gente de esquerda
>acha que sim, porque alguém, algures, nos disse que
>era assim.
>
>Na generalidade dos casos trata-se de uma salganhada,
>mais ou menos incoerente de teses marxistas mal
>compreendidas, ou que se pensa que têm origem em Marx,
>com clubismos partidários e umas pitadas de caridade
>cristã.
>Quer se trate de defender os “mais desfavorecidos” ou
>de endeusar a “classe operária” aquilo que se procura
>é obter legitimação para todo o tipo de propostas que,
>não raras vezes, apenas servem interesses de grupos ou
>de corporações.
>
>O papel atribuído ao Estado e as ilusões criadas à
>volta do Estado são, por norma, características do que
>vulgarmente se considera “ser de esquerda”.
>De forma sintética pode dizer-se que para o vulgo “ser
>de esquerda” é entregar a condução da economia e a
>criação de emprego às empresas privadas e depois
>actuar ao nível do Estado para acudir às vítimas do
>sistema (quer as reais quer as inventadas).
>
>Procede-se como se o “Estado Social”, por um lado, e a
>economia real, por outro, fossem coisas independentes;
>como se fosse possível entregar as rédeas do sistema
>económico aos interesses egoístas e depois esperar que
>a sociedade como um todo funcione solidariamente; como
>se os problemas sociais que nos afligem pudessem ser
>resolvidos no quadro do capitalismo.
>
>Quando nos interrogamos quanto à origem de tais
>ilusões sobre o papel regenerador do Estado temos
>dificuldade em perceber a sua fundamentação.
>
>Marx defendia o definhamento progressivo do Estado no
>processo que conduziria ao comunismo entendido como
>“reorganização da produção sobre a base de uma
>associação livre e igualitária dos produtores” e
>Lenine explicou muito detalhadamente o carácter
>inexoravelmente classista do Estado que, enquanto
>existissem classes, sempre serviria de instrumento de
>dominação de umas sobre outras.
>Como podem então partidos que se dizem
>“marxistas-leninistas” defender permanentemente o
>alargamento do papel do Estado na sociedade se o
>Estado não deixou ainda de ser o Estado da burguesia ?
>
>A única explicação que nos ocorre é que se trata de um
>absurdo efeito de arrastamento; como a experiência
>soviética se fundava sobre um desmesurado papel do
>Estado então, concluirão os saudosistas, qualquer
>Estado é potencialmente um instrumento da revolução.
>
>Já os partidos de cariz “social-democrata”, que há
>muito abandonaram o marxismo, parecem viver da
>invocação dos bons tempos da social-democracia nórdica
>tentando escamotear que tal experiência ocorreu em
>fases muito particulares do desenvolvimento do
>capitalismo, apenas em países ricos que, através da
>exportação de tecnologias de alto valor acrescentado,
>drenavam a seu favor enormes recursos. Não é portanto
>passível de generalização.
>
>Estas concepções vêm encontrar terreno fértil num país
>demasiado habituado à brutalidade e ao paternalismo
>atávico do Estado e onde os votos dos 700 mil
>funcionários da Administração Pública pesam sempre
>muito nos cálculos eleitorais (até Sampaio não hesitou
>em justificar a aprovação do Orçamento de Bagão Félix
>para 2005 com a necessidade de não atrasar os aumentos
>dos funcionários públicos).
>
>O Estado como intérprete natural do “Interesse
>Público” e o Estado como “Robin dos Bosques” que tira
>aos ricos para dar aos pobres são os dois mitos com
>que se cobre, em qualquer dos casos apontados, o
>desejo de manipular a super-estrutura institucional
>para realizar os modelos imaginados por “vanguardas
>esclarecidas” ou, pura e simplesmente, para ocupar os
>centros do poder.
>
>O “Interesse Público” dificilmente pode ser
>interpretado por um Estado que, na nossa época dos
>média e da alternância, com governos que raramente
>perduram, constantemente procede à redefinição do
>“Interesse Público” à medida da conjuntura ou das
>eleições que se aproximam.
>A ferocidade das guerras pelo poder, com laivos
>medievais de arregimentação de feudos corporativos,
>leva a que as propostas dos partidos sejam em grande
>medida constituídas por garantias de previlégios já
>existentes em vez de inovações transformadoras.
>
>O mito do “Robin dos Bosques” também não se realiza na
>medida em que os principais pagadores do Orçamento do
>Estado são os trabalhadores por conta de outrem
>enquanto que os verdadeiramente ricos e certas
>corporações profissionais beneficiam de escandalosa
>impunidade.
>
>As questões do Orçamento do Estado, hoje tão em
>evidência, são nucleares para se perceber a armadilha
>em que a esquerda se deixou cair:
>- a esquerda fez do “Estado Social” a sua bandeira
>eleitoral o que exige um volume cada vez maior de
>recursos financeiros e implicaria receitas fiscais
>cada vez maiores
>- quando pretende acabar com os privilégios e
>incumprimento fiscal, como as alavancas da economia
>estão entregues ao sector privado, a esquerda não sabe
>como resistir à chantagem da deslocalização da
>actividade económica ou à revolta de certas
>corporações profissionais.
>
>É isto que explica porque a esquerda não tem uma
>solução para o problema orçamental (e nunca terá
>enquanto não encontrar uma via de saída para este
>falso dilema).
>
> “Ser de esquerda” hoje parece que é descrer da
>possibilidade de ganhar os destinatários da acção
>política para novos ideais sociais, descrer do povo
>cuja adesão e motivação deveriam figurar antes de
>qualquer outro objectivo político. Essa adesão e
>motivação deveriam servir não só para obter mais
>votos, como hoje acontece, mas essencialmente para
>modificar comportamentos, estruturas, modos de
>produzir, relações sociais.
>
>Uma vez ganhas as pessoas para uma sociedade de novo
>tipo a questão do Estado passaria naturalmente a ter
>outro significado.
>
>Não haverá uma política de esquerda verdadeiramente
>alternativa enquanto não equacionarmos, sem medo, a
>necessidade de erguer uma nova sociedade.
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