| Subject: Re: A Esquerda eo Estado SOCIAL |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 30/12/04 16:54:05
In reply to:
Luis Blanch
's message, "Re: A Esquerda e A Despesa Social" on 30/12/04 11:27:00
Ó Fernando Redondo: Temos que convir que no quadro da democracia burguesa , parlamentar , quaisquer medidas reformistas de natureza social são possíveis ,e foram possíveis em diferentes países da Europa, embora hoje cada vez menos por força do poder económico mais forte internacionalizado
e hegemónico.
O que não é possível é encetar um processo revolucionário dentro desse quadro institucional; mas isso é outra coisa. Definhamento do Estado? seriam boas intenções para uma sociedade comunista.
>Não Fernando Redondo- A esquerda não fez do
>Estado social uma bandeira.
>O que acontece, parece-me , é que a esquerda
>lato sensu , sendo Esquerda tem que óbviamente
>instrumentalizar os mecanismo do socialismo e
>não como diz o Miguel Urbano, ir servir-se dos
>instrumentos do capitalismo..., para ir rumo ao
>Socialismo.
>
>
>
>>O principal problema que enfrentamos é o de haver
>>demasiadas pessoas, bem intencionadas, que pensam que
>>a resposta a esta pergunta é evidente.
>>
>>O que é ser de esquerda hoje ?
>>Apesar de vivermos num país onde a produção teórica é
>>quase nula, onde se endeusa qualquer “bicho careta”
>>estrangeiro lido à pressa ao mesmo tempo que se deixa
>>morrer as memórias do processo revolucionário que
>>vivemos, onde os debates políticos descambam quase
>>sempre para os despiques pessoais e mesmo para as
>>ofensas em vez da refutação das ideias, ao colocar
>>esta pergunta sentimo-nos sempre olhados com
>>desconfiança como se se tratasse de uma provocação.
>
>>
>>Cada um de nós tem, evidentemente, alguma ideia sobre
>>o assunto mas há talvez demasiado tempo que tais
>>ideias não são interpeladas e muito provavelmente se
>>pretendêssemos explicar porque é que temos tais ideias
>>não saberíamos muito bem o que dizer. São ideias de
>>esquerda porque são, porque toda a gente de esquerda
>>acha que sim, porque alguém, algures, nos disse que
>>era assim.
>>
>>Na generalidade dos casos trata-se de uma salganhada,
>>mais ou menos incoerente de teses marxistas mal
>>compreendidas, ou que se pensa que têm origem em Marx,
>>com clubismos partidários e umas pitadas de caridade
>>cristã.
>>Quer se trate de defender os “mais desfavorecidos” ou
>>de endeusar a “classe operária” aquilo que se procura
>>é obter legitimação para todo o tipo de propostas que,
>>não raras vezes, apenas servem interesses de grupos ou
>>de corporações.
>>
>>O papel atribuído ao Estado e as ilusões criadas à
>>volta do Estado são, por norma, características do que
>>vulgarmente se considera “ser de esquerda”.
>>De forma sintética pode dizer-se que para o vulgo “ser
>>de esquerda” é entregar a condução da economia e a
>>criação de emprego às empresas privadas e depois
>>actuar ao nível do Estado para acudir às vítimas do
>>sistema (quer as reais quer as inventadas).
>>
>>Procede-se como se o “Estado Social”, por um lado, e a
>>economia real, por outro, fossem coisas independentes;
>>como se fosse possível entregar as rédeas do sistema
>>económico aos interesses egoístas e depois esperar que
>>a sociedade como um todo funcione solidariamente; como
>>se os problemas sociais que nos afligem pudessem ser
>>resolvidos no quadro do capitalismo.
>>
>>Quando nos interrogamos quanto à origem de tais
>>ilusões sobre o papel regenerador do Estado temos
>>dificuldade em perceber a sua fundamentação.
>>
>>Marx defendia o definhamento progressivo do Estado no
>>processo que conduziria ao comunismo entendido como
>>“reorganização da produção sobre a base de uma
>>associação livre e igualitária dos produtores” e
>>Lenine explicou muito detalhadamente o carácter
>>inexoravelmente classista do Estado que, enquanto
>>existissem classes, sempre serviria de instrumento de
>>dominação de umas sobre outras.
>>Como podem então partidos que se dizem
>>“marxistas-leninistas” defender permanentemente o
>>alargamento do papel do Estado na sociedade se o
>>Estado não deixou ainda de ser o Estado da burguesia ?
>>
>>A única explicação que nos ocorre é que se trata de um
>>absurdo efeito de arrastamento; como a experiência
>>soviética se fundava sobre um desmesurado papel do
>>Estado então, concluirão os saudosistas, qualquer
>>Estado é potencialmente um instrumento da revolução.
>>
>>Já os partidos de cariz “social-democrata”, que há
>>muito abandonaram o marxismo, parecem viver da
>>invocação dos bons tempos da social-democracia nórdica
>>tentando escamotear que tal experiência ocorreu em
>>fases muito particulares do desenvolvimento do
>>capitalismo, apenas em países ricos que, através da
>>exportação de tecnologias de alto valor acrescentado,
>>drenavam a seu favor enormes recursos. Não é portanto
>>passível de generalização.
>>
>>Estas concepções vêm encontrar terreno fértil num país
>>demasiado habituado à brutalidade e ao paternalismo
>>atávico do Estado e onde os votos dos 700 mil
>>funcionários da Administração Pública pesam sempre
>>muito nos cálculos eleitorais (até Sampaio não hesitou
>>em justificar a aprovação do Orçamento de Bagão Félix
>>para 2005 com a necessidade de não atrasar os aumentos
>>dos funcionários públicos).
>>
>>O Estado como intérprete natural do “Interesse
>>Público” e o Estado como “Robin dos Bosques” que tira
>>aos ricos para dar aos pobres são os dois mitos com
>>que se cobre, em qualquer dos casos apontados, o
>>desejo de manipular a super-estrutura institucional
>>para realizar os modelos imaginados por “vanguardas
>>esclarecidas” ou, pura e simplesmente, para ocupar os
>>centros do poder.
>>
>>O “Interesse Público” dificilmente pode ser
>>interpretado por um Estado que, na nossa época dos
>>média e da alternância, com governos que raramente
>>perduram, constantemente procede à redefinição do
>>“Interesse Público” à medida da conjuntura ou das
>>eleições que se aproximam.
>>A ferocidade das guerras pelo poder, com laivos
>>medievais de arregimentação de feudos corporativos,
>>leva a que as propostas dos partidos sejam em grande
>>medida constituídas por garantias de previlégios já
>>existentes em vez de inovações transformadoras.
>>
>>O mito do “Robin dos Bosques” também não se realiza na
>>medida em que os principais pagadores do Orçamento do
>>Estado são os trabalhadores por conta de outrem
>>enquanto que os verdadeiramente ricos e certas
>>corporações profissionais beneficiam de escandalosa
>>impunidade.
>>
>>As questões do Orçamento do Estado, hoje tão em
>>evidência, são nucleares para se perceber a armadilha
>>em que a esquerda se deixou cair:
>>- a esquerda fez do “Estado Social” a sua bandeira
>>eleitoral o que exige um volume cada vez maior de
>>recursos financeiros e implicaria receitas fiscais
>>cada vez maiores
>>- quando pretende acabar com os privilégios e
>>incumprimento fiscal, como as alavancas da economia
>>estão entregues ao sector privado, a esquerda não sabe
>>como resistir à chantagem da deslocalização da
>>actividade económica ou à revolta de certas
>>corporações profissionais.
>>
>>É isto que explica porque a esquerda não tem uma
>>solução para o problema orçamental (e nunca terá
>>enquanto não encontrar uma via de saída para este
>>falso dilema).
>>
>> “Ser de esquerda” hoje parece que é descrer da
>>possibilidade de ganhar os destinatários da acção
>>política para novos ideais sociais, descrer do povo
>>cuja adesão e motivação deveriam figurar antes de
>>qualquer outro objectivo político. Essa adesão e
>>motivação deveriam servir não só para obter mais
>>votos, como hoje acontece, mas essencialmente para
>>modificar comportamentos, estruturas, modos de
>>produzir, relações sociais.
>>
>>Uma vez ganhas as pessoas para uma sociedade de novo
>>tipo a questão do Estado passaria naturalmente a ter
>>outro significado.
>>
>>Não haverá uma política de esquerda verdadeiramente
>>alternativa enquanto não equacionarmos, sem medo, a
>>necessidade de erguer uma nova sociedade.
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