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observador curioso
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Date Posted: 3/01/05 16:02:24
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "Como responder à erosão da política e dos políticos ?" on 3/01/05 15:01:17
Sim Senhor, inovador este Redondo. Já estou a ver as eleições de 2035, nas quais o boletim de voto assim rezará:
Projecto da elevação de Ranholas a cidade --------
Projecto de redução das portagens da ponte 25 de Abril ---
Contra a liberalização do tabaco------
Contra a supra-incineração
Salvemos o cão rafeiro-----
etc, etc, etc.
Depois cada eleitor vota num só projecto ou numa só causa. Contados os votos, gritados vivas á democracia participativa, vamos todos para casa não venha aí a nova PIDE de um futuro Salazar.
A democracia partidária terá todos os defeitos mas ainda se não inventou nada melhor.
>A política tem vivido, em Portugal, uma sequência de
>ciclos desgostantes e desgastantes.
>Não vale de nada insinuar, com ar superior, que as
>massas ao desinteressar-se da política estão apenas a
>revelar a sua debilidade cultural e cívica que os
>trinta anos passados sobre a Revolução já não
>disfarçam.
>
>Não, os responsáveis por esse “alheamento cívico” são
>principalmente os “agentes políticos”, o establishment
>cultural e jornalístico e, de modo geral, os que
>gravitam à volta das cadeiras (e orçamento) do poder.
>
>As festividades dos 80 anos do Dr. Mário Soares
>juntaram num banquete a quase totalidade desse
>establishment e mostrataram como, apesar das guerras
>violentas em que se envolvem regularmente, os seus
>membros sabem reconhecer o essencial das suas
>solidariedades. O povo assistiu atónito ao desfile de
>figuras que julgava serem incompatíveis (aqueles 2000
>notáveis que ocupam 90% do tempo opinativo das
>televisões e que estão sempre a ser nomeados para
>qualquer coisa).
>
>O Dr. Mário Soares é o exemplo mais acabado de uma
>forma de fazer política que já se começa a tornar
>intolerável: o partidarismo como um clubismo, o “ser
>amigo do seu amigo”, a “leadalde” acima da verdade e
>do interesse público, uma lógica impiedosa de poder de
>grupo em que os princípios já não parecem ser o
>cimento aglutinador.
>
>O Dr. Mário Soares não é o único a praticar estas
>artes mas é notável que os seus 80 anos não lhe tenham
>ensinado a moderar-se e a ver a relatividade e
>precaridade das “glórias bélicas” a que não consegue
>resistir.
>
>E é por causa dessa lógica que os partidos principais
>se vêm alternando no poder, ciclicamente. Sempre que
>um alcança o voto maioritário do povo assume as rédeas
>da governação para ser de imediato sujeito aos tratos
>de polé da oposição.
>
>Numa primeira fase, quando ainda subsistem algumas
>ideias mais arrojadas do programa eleitoral, a
>oposição trata de arregimentar todos os interesses e
>corporações que se sentem ameaçados por qualquer das
>propostas do governo.
>Iniciam uma táctica que inclui barragens de artilharia
>na imprensa a cargo do batalhão dos comentadores de
>serviço, algumas chantagens económicas, a divulgação
>de meia dúzia de escândalos fiscais ou processuais da
>autoria dos ministros, tudo com o objectivo de
>paralisar o adversário.
>
>Quando o efeito paralisante foi conseguido e o governo
>fica com o ar de já não se poder mexer em qualquer
>direcção inicia-se a segunda fase que consiste em
>glosar a inoperância dos ministros, as contradições
>detectadas nas suas declarações, e em geral trata-se
>da preparação do funeral político.
>
>Uma vez feitas as eleições, sempre apresentadas como
>grandes viragens decisivas para o futuro do país, os
>partidos que foram imolados no governo do ciclo
>anterior passam ao papel de oposição e, dada a
>violência e irracionalidade com que foram tratados,
>sentem-se no direito de ser ainda mais demagógicos do
>que os seus adversários.
>
>Como os adversários são sistematicamente diabolizados
>e as suas tentativas de realizar algo sempre
>apresentadas como absolutamente injustificadas e
>prejudiciais segue-se que cada novo governo começa, em
>regra, por destruir ou ignorar as obras do anterior. A
>intenção de destruir as decisões dos governos em
>funções inicia-se aliás ainda durante a fase de
>oposição e é prometida para o ciclo seguinte da
>“alternância” assegurando-se assim que os cidadãos não
>possam considerar “estável” qualquer legislação mesmo
>que regularmente aprovada e publicada.
>
>Não é claro quando, nem como, a esquerda se deixou
>resvalar para esta desgraçada situação mas a
>“superioridade moral dos comunistas” ou a seriedade
>“laica e republicana” tendem a converter-se em
>fórmulas de que só os mais velhos se recordam ainda.
>
>Hoje, mesmo à esquerda, impera o fulanismo, os
>“fait-divers”, os golpes de teatro mediáticos, os
>trocadilhos, a dramatização ou exagero das situações
>numa verdadeira versão tablóide da política.
>A reacção de Ana Gomes à decisão de Sampaio de
>empossar Santana, a maior parte das declarações de
>Louçã sobre o caso Marcelo, o estilo de Bernardino
>Soares ao comentar as questões orçamentais, são apenas
>alguns exemplos em que a demagogia, a falta de sentido
>de Estado, e mesmo as graçolas de baixo estofo tornam
>a esquerda irreconhecível para aqueles que, como eu,
>sempre acreditaram que ela se distinguia pela nobreza
>e elevação quer dos propósitos quer dos
>comportamentos.
>
>A história mostra que os comportamentos descritos
>levam à destruição da democracia. Tem que tocar
>algures um sino a rebate para que se verifique uma
>mudança radical de atitude por parte daqueles que
>querem preservar a liberdade.
>
>É preciso acreditar que a dignidade dos comportamentos
>também acabará por fazer a diferença e “render”
>politicamente. Quando um jornalista rasteiro vem com
>uma pergunta rasteira, verdadeiramente tentadora para
>entalar o adversário mas irrelevante do ponto de vista
>do interesse público, é preciso recusar o engodo,
>reduzir a intriga às suas diminutas proporções, falar
>de outra coisa.
>
>Só quando se mostrar coragem para rejeitar a chicana
>política, para perder as eleições se for esse o preço
>das verdades incómodas, para tirar o chapéu ao
>adversário quando as suas acções são positivas é que
>poderá começar um novo ciclo na política portuguesa.
>
>Para isso faltará talvez encontrar uma alternativa
>para os partidos como base em que assenta a
>democracia. Os partidos, pela sua própria natureza,
>geram clubismo, cegueira sectária e distribuição de
>favores.
>
>Não seria muito mais natural as pessoas associarem-se
>a causas e projectos, de acordo com as suas
>inclinações, do que filiarem-se em instituições com as
>quais nunca se identificam completamente. Quem, por
>exemplo, seja simultaneamente contra a liberalização
>do aborto e contra o pacote laboral não encontra
>nenhum partido com que se identificar.
>
>Virá o dia, estamos certos, em que as pessoa serão
>militantes de causas e projectos e não de partidos. Em
>que os boletins de voto pedirão a cruzinha não em
>bandeiras partidárias mas sim em causas e projectos.
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