| Subject: Re Como responder à erosão ... 2 |
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 3/01/05 16:30:48
In reply to:
observador curioso
's message, "Re: Como responder à erosão da política e dos políticos ?" on 3/01/05 16:02:24
Ó Alminha de Observador pouco curioso para vêr as coisas como estão.
Ninguém disse mal do sistema de partidos,o que se disse é que o povo está cada vez mais desinteressado . Percebeu? E que isso é negativo para uma vivencia Realmente Democrática !?
>Sim Senhor, inovador este Redondo. Já estou a ver as
>eleições de 2035, nas quais o boletim de voto assim
>rezará:
>
>Projecto da elevação de Ranholas a cidade --------
>
>Projecto de redução das portagens da ponte 25 de Abril
>---
>
>Contra a liberalização do tabaco------
>
>Contra a supra-incineração
>
>Salvemos o cão rafeiro-----
>
>etc, etc, etc.
>
>Depois cada eleitor vota num só projecto ou numa só
>causa. Contados os votos, gritados vivas á democracia
>participativa, vamos todos para casa não venha aí a
>nova PIDE de um futuro Salazar.
>A democracia partidária terá todos os defeitos mas
>ainda se não inventou nada melhor.
>
>
>
>>A política tem vivido, em Portugal, uma sequência de
>>ciclos desgostantes e desgastantes.
>>Não vale de nada insinuar, com ar superior, que as
>>massas ao desinteressar-se da política estão apenas a
>>revelar a sua debilidade cultural e cívica que os
>>trinta anos passados sobre a Revolução já não
>>disfarçam.
>>
>>Não, os responsáveis por esse “alheamento cívico” são
>>principalmente os “agentes políticos”, o establishment
>>cultural e jornalístico e, de modo geral, os que
>>gravitam à volta das cadeiras (e orçamento) do poder.
>>
>>As festividades dos 80 anos do Dr. Mário Soares
>>juntaram num banquete a quase totalidade desse
>>establishment e mostrataram como, apesar das guerras
>>violentas em que se envolvem regularmente, os seus
>>membros sabem reconhecer o essencial das suas
>>solidariedades. O povo assistiu atónito ao desfile de
>>figuras que julgava serem incompatíveis (aqueles 2000
>>notáveis que ocupam 90% do tempo opinativo das
>>televisões e que estão sempre a ser nomeados para
>>qualquer coisa).
>>
>>O Dr. Mário Soares é o exemplo mais acabado de uma
>>forma de fazer política que já se começa a tornar
>>intolerável: o partidarismo como um clubismo, o “ser
>>amigo do seu amigo”, a “leadalde” acima da verdade e
>>do interesse público, uma lógica impiedosa de poder de
>>grupo em que os princípios já não parecem ser o
>>cimento aglutinador.
>>
>>O Dr. Mário Soares não é o único a praticar estas
>>artes mas é notável que os seus 80 anos não lhe tenham
>>ensinado a moderar-se e a ver a relatividade e
>>precaridade das “glórias bélicas” a que não consegue
>>resistir.
>>
>>E é por causa dessa lógica que os partidos principais
>>se vêm alternando no poder, ciclicamente. Sempre que
>>um alcança o voto maioritário do povo assume as rédeas
>>da governação para ser de imediato sujeito aos tratos
>>de polé da oposição.
>>
>>Numa primeira fase, quando ainda subsistem algumas
>>ideias mais arrojadas do programa eleitoral, a
>>oposição trata de arregimentar todos os interesses e
>>corporações que se sentem ameaçados por qualquer das
>>propostas do governo.
>>Iniciam uma táctica que inclui barragens de artilharia
>>na imprensa a cargo do batalhão dos comentadores de
>>serviço, algumas chantagens económicas, a divulgação
>>de meia dúzia de escândalos fiscais ou processuais da
>>autoria dos ministros, tudo com o objectivo de
>>paralisar o adversário.
>>
>>Quando o efeito paralisante foi conseguido e o governo
>>fica com o ar de já não se poder mexer em qualquer
>>direcção inicia-se a segunda fase que consiste em
>>glosar a inoperância dos ministros, as contradições
>>detectadas nas suas declarações, e em geral trata-se
>>da preparação do funeral político.
>>
>>Uma vez feitas as eleições, sempre apresentadas como
>>grandes viragens decisivas para o futuro do país, os
>>partidos que foram imolados no governo do ciclo
>>anterior passam ao papel de oposição e, dada a
>>violência e irracionalidade com que foram tratados,
>>sentem-se no direito de ser ainda mais demagógicos do
>>que os seus adversários.
>>
>>Como os adversários são sistematicamente diabolizados
>>e as suas tentativas de realizar algo sempre
>>apresentadas como absolutamente injustificadas e
>>prejudiciais segue-se que cada novo governo começa, em
>>regra, por destruir ou ignorar as obras do anterior. A
>>intenção de destruir as decisões dos governos em
>>funções inicia-se aliás ainda durante a fase de
>>oposição e é prometida para o ciclo seguinte da
>>“alternância” assegurando-se assim que os cidadãos não
>>possam considerar “estável” qualquer legislação mesmo
>>que regularmente aprovada e publicada.
>>
>>Não é claro quando, nem como, a esquerda se deixou
>>resvalar para esta desgraçada situação mas a
>>“superioridade moral dos comunistas” ou a seriedade
>>“laica e republicana” tendem a converter-se em
>>fórmulas de que só os mais velhos se recordam ainda.
>>
>>Hoje, mesmo à esquerda, impera o fulanismo, os
>>“fait-divers”, os golpes de teatro mediáticos, os
>>trocadilhos, a dramatização ou exagero das situações
>>numa verdadeira versão tablóide da política.
>>A reacção de Ana Gomes à decisão de Sampaio de
>>empossar Santana, a maior parte das declarações de
>>Louçã sobre o caso Marcelo, o estilo de Bernardino
>>Soares ao comentar as questões orçamentais, são apenas
>>alguns exemplos em que a demagogia, a falta de sentido
>>de Estado, e mesmo as graçolas de baixo estofo tornam
>>a esquerda irreconhecível para aqueles que, como eu,
>>sempre acreditaram que ela se distinguia pela nobreza
>>e elevação quer dos propósitos quer dos
>>comportamentos.
>>
>>A história mostra que os comportamentos descritos
>>levam à destruição da democracia. Tem que tocar
>>algures um sino a rebate para que se verifique uma
>>mudança radical de atitude por parte daqueles que
>>querem preservar a liberdade.
>>
>>É preciso acreditar que a dignidade dos comportamentos
>>também acabará por fazer a diferença e “render”
>>politicamente. Quando um jornalista rasteiro vem com
>>uma pergunta rasteira, verdadeiramente tentadora para
>>entalar o adversário mas irrelevante do ponto de vista
>>do interesse público, é preciso recusar o engodo,
>>reduzir a intriga às suas diminutas proporções, falar
>>de outra coisa.
>>
>>Só quando se mostrar coragem para rejeitar a chicana
>>política, para perder as eleições se for esse o preço
>>das verdades incómodas, para tirar o chapéu ao
>>adversário quando as suas acções são positivas é que
>>poderá começar um novo ciclo na política portuguesa.
>>
>>Para isso faltará talvez encontrar uma alternativa
>>para os partidos como base em que assenta a
>>democracia. Os partidos, pela sua própria natureza,
>>geram clubismo, cegueira sectária e distribuição de
>>favores.
>>
>>Não seria muito mais natural as pessoas associarem-se
>>a causas e projectos, de acordo com as suas
>>inclinações, do que filiarem-se em instituições com as
>>quais nunca se identificam completamente. Quem, por
>>exemplo, seja simultaneamente contra a liberalização
>>do aborto e contra o pacote laboral não encontra
>>nenhum partido com que se identificar.
>>
>>Virá o dia, estamos certos, em que as pessoa serão
>>militantes de causas e projectos e não de partidos. Em
>>que os boletins de voto pedirão a cruzinha não em
>>bandeiras partidárias mas sim em causas e projectos.
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