Author:
Guilherme Valente
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Date Posted: 14/04/05 18:09:07
In reply to:
António Barreto
's message, "Sete Pecados Capitais" on 21/03/05 8:47:06
Publicado no EXPRESSO 09/04/2005
O SISTEMA EDUCATIVO PORTUGUÊS é uma enorme trapalhada que tem crescido com cada nova alteração e cada novo ministro.
Ao contrário dos que defendem a introdução progressiva de correcções limitadas no sistema, sustento ser necessária a mudança estrutural, que na realidade nunca se fez. O que houve foi quase sempre pseudo-reformas, elas próprias comprometidas ou infectadas pelo “mesmo”, ou pelo “mesmo” recorrentemente neutralizadas ou absorvidas, sempre que, de algum modo, procuravam contrariá-lo. Uma evidência do que afirmo é o discurso dos ex-ministros que, depois de deixarem o ministério, passam a defender expressivamente aquilo que, quando ministros, não puderam realizar.
São necessários:
•Diversificação do modelo de gestão e direcção das escolas para que se revelem, em emulação, as melhores soluções.
•Mudança nos cursos, na carga horária, nos programas, nos livros (muito fácil, se houver coragem), nos tempos livres, promovendo o quase ausente desporto escolar, as artes, o associativismo, o interesse cívico, etc.
•Verdadeiro apoio qualificado às crianças e jovens que, por qualquer razão, manifestem maiores dificuldades de aprendizagem.
•Opção de uma verdadeira e qualificada formação profissionalizante a partir do 9.° ano, com a possibilidade de frequência de cursos especiais da mesma índole, a partir do 7.° ano, para adolescentes em processo, em risco evidente de abandono, com base numa ponderada avaliação e aconselhamento responsável e rigorosamente fundamentado da escola, assegurando-se a possibilidade de passagem entre esses cursos profissionalizantes e o curso geral de acesso ao ensino superior, de acordo com o aproveitamento, a vocação, o interesse e a capacidade demonstrados, em momentos adequados.
•Introdução de estágios laborais mesmo para os alunos do curso geral, potenciais candidatos à universidade — experiência enriquecedora e dignificante das várias opções de formação, cuja igual dignidade e interesse público é imperativo promover.
•Motivação e reconhecimento de tantos admiráveis professores.
•Reforma radical do sistema de formação de docentes, da formação em exercício e da progressão na carreira dos que vêm sendo lançados nas escolas — o desafio mais difícil, mas, seguramente, o mais decisivo, porque será preciso enfrentar o domínio dos «ideólogos», dos «pedagogos», que infectam todo o sistema educativo a partir de muitos cursos superiores de educação, públicos e privados, nas universidades e nos politécnicos (apesar da resistência de alguns docentes que começa a verificar-se dentro destas instituições). É dramático o estado de incultura, de ignorância, de iletrismo, que caracteriza muitos dos alunos formados por essas escolas, apesar das notas de fim de curso que obtêm e lhes garantirão o recrutamento como docentes. ( Quererá o Prof. Mariano Gago enfrentar a questão essencial dos cursos superiores de formação de professores? Terá a ministra da Educação a capacidade que anteriores ministros não demonstraram para instituir — solução urgentíssima — um sistema de recrutamento de docentes que avalie a sua competência?)
Como já escrevi, o eduquês grassou e implantou-se com a velocidade e a tentacularidade da erva daninha pela razão muito simples de que... «vende», dá jeito a muita gente (absurdamente também aos país). E fácil, não dá chatices, não dá trabalho aos miúdos nem às famílias, não responsabiliza nada nem ninguém e, na universidade, em muitos casos, até acaba por «oferecer» diplomas. Perfeito, até que a realidade lhes caia em cima.
E preciso refundar a escola em Portugal. Colocar muito claramente a pergunta que hoje embaraçaria muita gente no sistema educativo: PARA QUE SERVE A ESCOLA?
E partir daí.
Para isso é necessário que surja na sociedade um conjunto informado, plural, livre e responsável de pessoas capazes de exigirem e apoiarem a mudança da escola, para que a escola possa contribuir para mudar a sociedade.
Nesta perspectiva, o Manifesto para a Educação da República, subscrito por um qualificado, respeitado, politicamente plural e singularmente numeroso grupo de cidadãos, foi uma grande oportunidade perdida.
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