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Subject: Mais factos, menos opinião


Author:
José Carlos Abrantes
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Date Posted: 25/04/05 11:08:30

Mais factos, menos opinião

José Carlos Abrantes, DN, 25/04/05


1" 'O regime estalinista de Kim Jong-Il anunciou ontem ter reforçado o seu arsenal de armas nucleares para fazer face à alegada invasão que Pyongyang diz estar a ser preparada pelos Estados Unidos.' É assim que começa a notícia de Manuel Carlos Freire sobre o anúncio do reforço do poder nuclear norte-coreano na edição de hoje do 'Diário de Notícias'. Não tenho intenções de reflectir sobre a natureza política do sistema político da Coreia do Norte, a minha intenção é a de protestar contra o carácter parcial e nada isento com que o jornalista iniciou a notícia. Não me recordo de ver, em lugar algum, a assunção da denominada ideologia estalinista, de que fala Manuel C. Freire, por parte do povo e do Governo norte-coreano, mas recordo-me na perfeição do conteúdo da deontologia dos profissionais de jornalismo e que exige a existência de factos para sustentar a notícia."

Bruno C.

O jornalista enviou-me um esclarecimento que começa assim "Estou convicto de que a 'carta' do leitor Bruno C. não merece comentários."

São vários os casos em que os jornalistas, ao prestarem esclarecimentos às interpelações dos leitores, manifestam o seu desconforto. Fazem afirmações sobre a irrelevância das críticas. Manuel Carlos Freire diz que as observações do leitor "não merecem comentários" e que a resposta é dada apenas pelo dever de prestar esclarecimento ao provedor, atenção que agradeço. Assim, já não é a primeira vez que se revela este tipo de "hostilidade" em relação às interpelações dos leitores

Cito, por isso, o Livro de Estilo do DN, que me foi recentemente disponibilizado, e que afirma "O leitor (...) é a razão de ser do jornal. (...) Quando contactam o jornal (os leitores) esperam ser bem atendidos, sobretudo se protestam."

Manuel Carlos Freire argumenta depois com citações de excertos de notícias de alguns media estrangeiros impossíveis de reproduzir. De facto são muito extensas e não foram traduzidas. No Livro de Estilo diz-se que o "DN é um jornal português, escrito para leitores predominantemente portugueses" e que" a transcrição de textos em línguas estrangeiras implica a sua tradução." Ora as citações chegaram-me em inglês e francês. A mais significativa dessas citações refere-se a um texto da BBC on line (que traduzo, para cumprir o livro de estilo) "Analistas dizem que foi um sinal que o Estado estalinista não estaria disposto a responder às pressões internacionais."

Não me cabe pronunciar sobre o modo como outros órgãos noticiosos constroem as suas notícias. Mas a resposta do jornalista levou-me o olhar para outros exemplos. Num texto equivalente do Le Monde (24-03-05) fala-se da chantagem nuclear norte-coreana, mas referem-se os países pelos nomes. De forma bem fulminante o autor do texto francês fala, num único momento, da Coreia do Norte como "posto avançado da tirania", colocando esse qualificativo, essa opinião, na boca de Condoleeza Rice. Ou seja, não dá a sua opinião, dá uma informação subtil mas marcante.

Vale a pena também ver o que está no Manual de Redacção e Estilo da Folha de S. Paulo num caso de separação entre a opinião e os factos.

"Faça textos imparciais e objectivos. Não exponha opiniões, mas factos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões. Em nenhuma hipótese se admitem textos como Demonstrando mais uma vez o seu carácter volúvel, o deputado António de Almeida mudou novamente de partido. Seja directo: O deputado António de Almeida deixou ontem o PMT e entrou para o PXN. É a terceira vez em um ano que muda de partido. O carácter volúvel ficará claro pela simples menção do que ocorreu."

Julgo que o leitor do DN deseja o mesmo que, na construção das notícias, sejam sempre os factos a demonstrar e não a opinião do jornalista.

2. Incluo frequentemente no Bloco-Notas uma informação para incentivar os leitores a escreverem ao provedor. Acontece que raramente é publicada, embora envie o texto com o número de caracteres exigido, mesmo menos. Por vezes, aparece uma fotografia para preencher o espaço vazio provocado pela retirada injustificada do texto. Dado que já solicitei explicação e não a obtive, partilho esta insólita situação com os leitores. Aproveito aliás para reproduzir o apelo "ESCREVA, manifeste a sua opinião sobre a informação do DN enviando email para provedor2004@dn.pt ou escrevendo para Provedor dos Leitores Diário de Notícias, Avenida da Liberdade, 266, 1250-149 Lisboa."

A situação é tanto mais estranha quanto têm aparecido algumas críticas, em blogues, fazendo crer que o Provedor dos Leitores do DN responderia, menos do que seria desejável, a interrogações dos leitores. A esta crítica também respondi na crónica anterior mostrando que, no Estatuto do Provedor dos Leitores, que sou obrigado a cumprir, estão tipificados três tipos de crónicas as de resposta aos leitores, as de análise ao jornal, as de crítica sobre o contexto mediático. Com a crónica de hoje completo 47 textos: 21 com respostas a leitores, 21 de crítica geral e cinco de análise do jornal. Mesmo nas crónicas de crítica geral procuro, sempre que se justifica, falar do DN. Se volto a insistir sobre esta tipificação é também porque outro problema tem estado sem solução, desde há meses: na versão internet não é colocado o Bloco-Notas, gerando essa falta alguns mal-entendidos pela inserção de um texto incompleto. Os leitores que lêem o jornal na internet ficam com uma ideia distorcida sobre o que escrevo. Como é possível que o DN, incluído no grupo PT, forte na internet, não consiga solucionar um pequeno problema informático de colocar na rede uma crónica completa? Alguma omissão haverá.

José Carlos Abrantes, Provedor dos leitores

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Subject Author Date
Re: Mais factos, menos opiniãoAna Maria25/04/05 12:22:43
Bruno Carapinha apoia a Coreia do Norte.João Luís25/04/05 14:26:35
Re: Mais factos, menos opiniãoJoão Luís25/04/05 20:05:46


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