| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (3) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 12/04/05 21:24:10
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (3)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
A República implantara-se com o efectivo apoio da massa operária. Os dirigentes do Partido Republicano Português prometeram, em troca desse apoio, algumas reformas (...).
Decerto que o terão feito em reuniões conjuntas com os dirigentes operários socialistas e sindicalistas revolucionárias. Sabendo-se que a orientação reformista dos socialistas portugueses se subordinava à táctica da II Internacional de tomar o parlamento como elemento essencial da luta operária contra o sistema capitalista, pode-se admitir que entre socialistas e republicanos se acordara num compromisso de estreita colaboração partidária.
Por seu turno, os sindicalistas revolucionários, fiéis ao seu “apoliticismo”, deverão ter-se comprometido à prestação dum apoio, condicionado pela sua concepção ideológica e orientação de luta independente.
Sem dúvida, os republicanos iriam, após o seu triunfo, explorar a falta de unidade operária, a diferença de métodos de luta entre socialistas e sindicalistas revolucionários e, mais do que tudo isto, a ausência duma justa consciência revolucionária do proletariado.
Ainda não iam decorridos dois meses, já o primeiro sinal de reacção do lado operário se manifestava com a declaração da primeira greve parcelar (Corticeiros de Almada). Este facto tornou-se um verdadeiro rastilho. Dentro em pouco, outras classes se movimentavam, alternando-se os seus resultados com vitórias e derrotas.
Estas greves eram promovidas e orientadas pelos sindicatos revolucionários. A rede dos seus sindicatos ia engrossando. A influência dos sindicalistas revolucionários crescia, enquanto a influência dos socialistas ia perdendo terreno com a passagem de alguns dos seus sindicatos para o lado dos seus oposicionistas. Ao mesmo tempo, os sindicalistas revolucionários criavam novos sindicatos, trazendo à luta, deste modo, muitos milhares de trabalhadores organizados.
As Constituintes tinham no seu seio, pelo menos, dois deputados socialistas – Ladislau Batalha e António José da Silva. O desespero destes, ao verem a influência do seu partido sobre as massas operárias em progressivo declínio, levava-os a lamentosas intervenções parlamentares, devido à falta de cumprimento das demagógicas promessas produzidas pelos republicanos, antes da derrocada monárquica.
O certo é que a República não afectara os interesses dos grandes proprietários agrícolas, nem tão-pouco os da banca e da grande indústria. Os capitalistas (...) tinham, em boa parte aderido ao Partido Republicano Português. Esta decisão (...) é que fundamentalmente pesava no comportamento e acção dos órgãos (...) da República.
A República significava o prolongamento do domínio da classe capitalista, o seu reforço, e nunca o seu desaparecimento.
A principal dificuldade da grande burguesia consistia em ter a sua classe dividida ideológicamente: dum lado os republicanos; do outro, os monárquicos. Era esta dificuldade que socialistas e sindicalistas não exploravam convenientemente.
Para o conseguirem, precisavam de unir todas as suas forças, ligá-las a um comando único e combinar a acção (...) no Parlamento com a luta dos sindicatos (...). Quer dum lado quer do outro, ligava-se mais importância aos princípios (...) dos respectivos movimentos que à realidade objectiva e ao interesse global da classe operária.
(continua)
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