| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (6) |
Author:
Bento Gonçalves
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 13/04/05 23:17:13
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (6)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
É evidente que quem mais contribuiu para o ataque à política de colaboração imperialista do governo português, com a sua efectiva entrada na guerra, foram a União Operária Nacional e a Juventude Sindicalista.
A larga agitação e as numerosas manifestações de rua (...) criaram nas massas populares (...) profunda hostilidade contra a entrada de Portugal no conflito.
Este ambiente precisava de apoio político, dum partido revolucionário da classe operária que reunisse à sua volta esse descontentamento e o transformasse num acto político popular insurreccional, do qual resultassem o derrubamento do governo dos capitalistas e a sua substituição por um governo de coligação popular.
Porém, a vanguarda proletária existente não tinha uma justa consciência do seu papel. A sua estruturação “apolítica” e as suas tácticas de combate mais uma vez patenteavam a sua incapacidade de colocarem a classe operária como força dirigente e independente.
Na realidade, o nosso atraso industrial, a ignorância do marxismo e o baixo nível de cultura geral (...), tolhiam o passo ao proletariado para mais largos objectivos políticos.
Esta situação de classe inferiorizada politicamente era e continuava sendo aproveitada pelos oportunistas de todos os matizes políticos da burguesia. A experiência de 1910, a parceria dos sindicalistas como os “Abrilistas” e a sua benevolência para com Pimenta de Castro, nada disto havia servido para eliminar a linha geral do oportunismo de esquerda que continuava preparada para receber qualquer cavaleiro que oportunamente a quisesse montar.
Sidónio Pais apreendeu bem a situação. Com um plano, cuja demagogia ocultava bem a sua finalidade reaccionária, reuniu, duma assentada, a participação dos sindicalistas revolucionários e a dos “Abrilistas”.
Sem este valioso apoio, Sidónio não teria triunfado. Mais, não teria sequer tentado o golpe. A entrada de Portugal na guerra teve como consequência imediata um agravamento orçamental. Os créditos que a Inglaterra nos fornecia, e que não tinham uma aplicação útil, teriam de ser pagos por quem deles não colhia benefícios: o povo. A moeda desvalorizava-se e este facto repercutia-se no custo de vida, que começara a subir.
Estes e outros factos ruinosos (...) despertavam cada vez mais o profundo sentimento de hostilidade para com o governo. A luta de classes reacendera-se (...). Era evidente que tudo isto contribuía para o enfraquecimento do regime capitalista.
Não havendo um Partido revolucionário que fosse capaz de ligar ao proletariado as massas de todos os sectores da vida nacional, incompatibilizadas com a política do governo (...), não só se não podia esgotar a burguesia intervencionista, como era impossível evitar o golpe da burguesia mais reaccionária. Foi o conjunto da situação existente que gerou o sidonismo.
Tem-se atribuído ao sidonismo o papel de percursor do fascismo. Conquanto a sua política não tivesse tido tempo para se desenvolver e definir completamente, o modo como soube aproveitar-se da falta de justa consciência política do proletariado, a sua demagogia inicial, a liquidação do sistema parlamentar democrático, a censura imposta à imprensa, a tendência para a centralização de poderes, etc., parecem confirmar aquela opinião.
Na realidade, o fascismo nos outros países, bem como no nosso, depois de 1926, deu os seus primeiros passos pondo em prática medidas idênticas. Pode-se admitir que a experiência sidónica tivesse sido estudada pelos antiliberais da burguesia de outros países e, particularmente, pela do nosso.
Os sindicalistas revolucionários é que, sem dúvida, não a estudaram. E se o fizeram, concluíram, sómente, que um novo Costa, de pistola na mão, nos libertaria de qualquer ditador, de qualquer aventureiro que nos pretendesse usurpar a nossa liberdadezinha. Esqueceram-se de que a reacção não dormia e que esta se havia de precaver contra os futuros Costas, matadores de Reis e presidentes.
Sidónio Pais não fora ao poder para resolver os problemas imediatos dos trabalhadores. Sidónio fora até lá por indicação da burguesia.
Sidónio Pais, cujo primeiro cuidado fora o de tomar conta das alavancas de comando do Exército, não se esqueceu, porém, de criar um aparelho especial de repressão política (...). A par destas medidas reaccionárias, rearmou a Polícia de Segurança Pública e transferiu para a capital as unidades militares da sua maior confiança.
A fim de se certificar do poder da sua armadura repressiva, provocou, dois meses depois da sua ascensão ao poder, uma “pavorosa” no seio da Marinha de Guerra. Os marinheiros nela envolvidos foram esmagados e muitos deles deportados para África.
O conjunto repressivo funcionara excelentemente e ele enchera-se de confiança para agir à vontade.
A prisão dos adversários mais irrequietos foi o começo da sua obra de “saneamento”. Dentro em pouco, verificava-se que a promessa de não ser enviada mais gente para a guerra não era cumprida. As reclamações dos trabalhadores não eram atendidas. Medidas de benefício popular não surgiam. Os trabalhadores expiavam as culpas da incapacidade política dos seus dirigentes.
Em Março de 1918 (...) a classe operária irrompe para a luta. Por virtude dum decreto que cerceava aos ferroviários algumas regalias (...) declararam a greve geral (...). Machado dos Santos (...) sai do Governo (...). Sidónio (...) cedeu.
Mas ele não viera ao Poder para fracassar frente aos trabalhadores. Tratou de se preparar com vista ao futuro.
Pouco tempo depois, são as corporações marítimas do porto de Lisboa que (...) procuram, por meio da greve, melhorar económicamente. A despeito duma resistência de três meses (...) o resultado foi uma derrota completa.
A este insucesso dos trabalhadores ligaram-se outros.
Sidónio Pais, que se havia desfeito dos elementos mais liberais (...) atulhando as prisões com milhares de adversários, tinha (...) contra si sómente os trabalhadores mais conscientes.
Em Julho de 1918, começou uma verdadeira ofensiva contra os salários dos trabalhadores do Estado. Muito embora o custo de vida se agravasse (...) reduziu os salários (...).
A reacção mais potente (...) deu-se no dia 18 de Novembro. A União Operária Nacional declara a greve geral política. A sua palavra de ordem central é: Abaixo o Sidónio.
A luta estendeu-se (...) deram-se recontros (...). Onde a luta tomou um verdadeiro carácter insurreccional foi (...) no Alentejo, com a participação dos trabalhadores assalariados à frente.
A greve terminou com um fracasso completo. Muitos rurais alentejanos foram deportados para Luanda. O proletariado não conseguiu chamar a si a totalidade dos camponeses e as camadas pequeno-burgueses hostis ao sidonismo. O seu esmagamento não surpreendeu. (...)
Quando Sidónio foi assassinado, em 14 de Dezembro de 1918, pelas prisões de África e do país haviam passado cerca de 20 mil pessoas (...)
(continua)
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
| |