| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 14/04/05 21:43:48
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (7)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
A morte de Sidónio abalou profundamente o regime. O oficial do exército e advogado Tamagnini Barbosa era quem se esforçara na presidência do Ministério por prolongar o sidonismo. Mas o fim da guerra e a insistência restauracionista dos monárquicos apressam a crise. As manifestações populares contra a continuação do regime sidonista crescem. A barreira repressiva fende-se e deixa passar em tumulto a inundação libertadora.
A reacção monárquica estava iminente e Tamagnini foi forçado a transigir com o sentimento liberal do povo. As prisões foram abertas, a censura abolida e, como medida de segurança para a República, faziam-se substituições de comandos no Exército e na Marinha.
Os monárquicos, compreendendo que a oportunidade se lhes escapava, precipitaram em 19 de Janeiro de 1919, a restauração monárquica no Porto.
Tamagnini manda imediatamente avançar forças leais para o Norte e permite a organização de batalhões voluntários em Lisboa. Dias depois, os monárquicos, em Lisboa, secundam a reacção do Norte e instalam-se em Monsanto, de onde exigem a rendição do Governo.
A reacção monárquica foi esmagada pela intervenção decidida e efectiva das massas populares. Instintivamente, vendo o perigo, todos os dirigentes das organizações liberais e operárias se uniram no mesmo objectivo de guerra à monarquia e fizeram avançar as suas formações para o combate. A República foi salva. A demagogia democrática ia novamente imperar.
A paralisação das indústrias de produção de guerra e a desmobilização, que o fim da guerra tinha ocasionado, motivaram o aparecimento dum grande exército de desocupados que passavam a combater numa nova frente contra o seu inimigo de sempre – o capitalismo.
A burguesia portuguesa tinha este grave problema para resolver. Os meios de que dispunha não eram muito eficientes. A guerra trouxera-lhes encargos e as “compensações” constituíam ainda um fardo mais pesado. Dívidas a subirem de volume e os efeitos ruinosos da estagnação de um certo progresso industrial, útil enquanto decorreu a guerra.
A República estava salva mas os problemas económicos do país tinham-se agravado. Este estado de coisas equivalia a um aumento de crise revolucionária.
O Governo, com o coronel António Maria Baptista à sua frente, lança mão dos socialistas, a quem entrega a pasta do Trabalho.
Por seu turno, a União Operária Nacional concentra todas as suas atenções no modo de lançar as classes na luta pelas suas reivindicações económicas e ameaça o Governo de desencadear a greve geral nacional pela conquista da jornada das 8 horas de trabalho.
Os socialistas, fiéis ao seu oportunismo político, encabeçam no Governo e no Parlamento a satisfação desta reclamação. O Governo cede e a lei é votada e aprovada. Consumara-se a conquista, a mais cara aspiração dos trabalhadores industriais e empregados do comércio. Contudo, os trabalhadores agrícolas ainda hoje trabalham de sol a sol.
O Governo julgara deter as disposições de luta da União Operária nacional publicando o decreto da jornada diária de 8 horas. Mas não; as greves sucediam-se e os protestos contra a falta de medidas oficiais que eliminassem o desemprego cresciam e tomavam corpo em manifestações operárias em que se empunhavam bandeiras pretas e outras com dísticos de: pão e trabalho. O Governo (...) resolveu votar um crédito de emergência, a fim de obviar o desemprego.
Foi a União Operária Nacional quem preparou e conduziu a jornada pela eliminação do desemprego, pois entre sindicalistas e socialistas não se havia préviamente estabelecido qualquer acordo ou compromisso de luta.
Não obstante, os socialistas, quer no Parlamento, quer no Governo, apressaram a decisão governamental. São ainda os socialistas que propõem a abertura dos trabalhos do Parque Eduardo VII, dos bairros da Ajuda e do Arco do Cego, com o duplo fim de empregarem alguns milhares de trabalhadores e da produção de casas baratas para a população operária.
Apesar disto, os trabalhadores apercebiam-se de que os socialistas tinham em vista a reconstituição do seu antigo prestígio e não correspondiam aos seus apelos postos a circular através do seu órgão, “O Combate”.
A burguesia utilizava o concurso dos socialistas como um elemento amortecedor entre si e o proletariado revolucionário. Mas era evidente que o limite das suas concessões estava à vista e os socialistas não tinham outra alternativa: ou seguir o proletariado revolucionário, ou seguir a burguesia.
O futuro provou que a classe burguesa lhes era mais querida.
Em Julho de 1919, o Governo não pode dominar a crise que o final da guerra desencadeara sobre Portugal. A falta de equipamento industrial, o deficit orçamental e a dificuldade na obtenção de crédito estrangeiro (...) opunham-se a qualquer programa de realização normalizadora.
A especulação sobre os produtos essenciais à vida atingiu proporções de cruzada anti-Nação. A par de tudo isto, os métodos repressivos do Governo não colidiam com os interesses dos grandes exploradores.
Contudo, a solução da crise só seria encontrada pelo Governo se este se apoiasse nas nas massas populares, aplicando medidas que pusessem cobro às especulações, à escassa produção agrária. Mas o Governo era da burguesia mas não do povo...
Contra tudo isto se rebelava a classe operária com greves após greves. E o Governo, para não deixar dúvidas de que defendia os interesses da classe capitalista, esmaga a greve dos ferroviários, em Junho, com o emprego do vagão fantasma. Iam decorridos 4 meses depois da escalada de Monsabto, em que os trabalhadores derrotaram os monárquicos, em nome da República.
A atitude terrorista do Governo encarnecia mais a vontade de lutar dos trabalhadores. De resto, o custo de vida subia, subia sempre...
(continua)
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