| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (11) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 16/04/05 16:10:39
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (11)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
O esquema de organização do Partido fora copiado dos partidos da burguesia. Instituíram-se o Centro Comunista de Lisboa e Comissões de Freguesia. A acanhada vida do Partido estava ao princípio quase toda limitada à cidade de Lisboa. Apenas num ponto ou noutro do país existiam pontos de apoio nas mãos de indivíduos estranhos à classe operária.
Toda a vida de relações de organização do Partido estava subordinada ao referido esquema. Os métodos de acção quase não coincidiam com o interesse político do proletariado,
Neste sentido, recomendava-se, sem instruções acertadas, a exploração do terreno sindical. Era nos cafés (...) de Lisboa que o grosso da actividade do Partido se fazia. Directrizes e orientação geral, cultura revolucionária e preparação de quadros era tudo uma penúria. De resto, o sectarismo, o desconhecimento teórico e os próprios objectivos dos dirigentes do Partido ilustravam bem a podridão da primeira fase do movimento.
A adesão da Juventude ao Partido Comunista trouxera-lhe a base proletária de que estava carecida, a experiência da luta sindical e, até certo ponto, o controlo à sua orientação e actividade. Mas a formação da Juventude Comunista, que resultara da cisão nas Juventudes Sindicalistas, fazia aumentar furiosamente os ataques da CGT contra o Partido.
Esta campanha, entretanto, não obstava a que principalmente os militantes jovens interviessem nas discussões das Assembleias Sindicais e desassombradamente manifestassem nelas as suas ideias sobre as questões que ali se tratavam.
A Juventude Comunista, conquanto experiente e combativa, era sectária e não se havia podido libertar do seu oportunismo de esquerda. Não admira: o modo como se formara, o ambiente em que vivera, a sua origem e, sobretudo, a falta de elementos doutrinários impediam-na de se situar num terreno firme de organização juvenil marxista.
Contudo, o seu ardor combativo e o seu espírito de classe chocavam-se com a inércia e o pequeno-burguesismo direitista dos dirigentes do Partido. O facto não traduzia propriamente uma divergência de princípios, porquanto o que se registava, era um conflito surdo sobre processos de actuação.
Não se produzia, contudo, uma luta aberta entre jovens e membros do Partido, mas a pressão da Juventude ia-se fazendo sentir no seio do Partido, através da consciência de classe que ela salientava nas suas manifestações de actividade exterior.
Alguns jovens tinham entrado para o Partido e este facto, aos olhos dos “direitistas”, parecia revelar o desejo, por parte da Juventude, de pôr o Partido ao serviço da classe operária, integrando-o nas lutas desta. O certo é que tudo isto sucedia sem um plano previamente estabelecido pela Juventude, mas o facto tornava-se sintomático para os dirigentes do Partido.
Aos poucos, muitos filiados, de começo muito entusiastas, abandonavam o Partido. Alguns dirigentes, vendo este abandono como um sintoma ameaçador das suas posições na direcção, abandonavam também os seus lugares.
Na verdade, o terreno que pisavam era resvaladiço. O ardor combativo e o vivo sentimento de classe da Juventude irradiavam para dentro do Partido; o panorama agudo das querelas entre os partidos da burguesia no interior, a deflagração de nova crime económica a que se associava uma crise política, a agitação a que ela dava lugar e o contacto crescente com a literatura revolucionária dos Partidos de outros países indicavam que o Partido tinha de mudar de orientação e de processos. O seu rumo tinha de ser alterado.
(continua)
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