| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (18) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 17/04/05 17:39:17
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (18)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
Caetano de Sousa e José de Sousa foram politicamente inábeis, dentro da sua orientação oportunista de esquerda. Tinham entalado o Rates no meio deles e talvez tivessem evitado o rompimento.
Rates, pouco depois provoca a cisão. A maioria do Partido estava com ele. Esta situação tornara-se imediatamente conhecida da IC por meio de dois grupos desavindos. A IC manda rapidamente um delegado seu a Portugal.
Uma vez em Portugal, Humbert-Droz, delegado da IC, inicia a sua missão fazendo reunir, em separado, os dirigentes dos dois grupos em oposição. Ouve as razões de cada um dos grupos e decide-se pela entrega da direcção do Partido ao grupo dos Ratistas. Esta solução, todavia, não implicava a exclusão do grupo Caetano de Sousa - José de Sousa. Pires Barreira, que com eles, promoveu a Conferência, ficara, por proposta de Humbert-Droz, incluído na direcção do grupo dos Ratistas.
A decisão do conflito não foi acertada. Era impossível chegar a uma conclusão justa com base nas concepções dos dois grupos. Um e outro comportavam inconvenientes à formação dum Partido revolucionário, um Partido Comunista. O oportunismo dum e doutro estava suficientemente denunciado através das suas respectivas condutas.
Mas era evidente que a base vincadamente proletária acompanhava o grupo Caetano de Sousa – José de Sousa. Isto devia, nas circunstâncias daquela época, ser considerado como principal apoio a uma decisão justa. Toda a juventude, a parte mais numerosa do Movimento Comunista Português, estava com Caetano de Sousa – José de Sousa.
O facto de não ter avaliado este factor importante da decisão ocasionou uma quase debandada geral dos elementos juvenis da sua Organização. É que estes não compreenderam que se entregasse a direcção aos direitistas. A própria manobra de Humbert-Droz de colocar Pires Barreira, Secretário da Juventude, na direcção do Partido, não surtira o efeito previsto.
Porque Pires Barreira, fiel ao seu oportunismo esquerdista, abandonara a direcção do Partido e viera reunir-se ao grupo de Caetano de Sousa – José de Sousa, de onde, efectivamente, nunca saíra, e começou a fazer causa comum com ele. Finalmente, Humbert-Droz não resolvera a questão: pelo contrário, agravara o conflito. Os dois grupos mantiveram-se: o de Caetano de Sousa – José de Sousa a restringir-se cada vez mais, devido à deserção dos jovens; e o dos Ratistas, o oficial, a mostrar crescentemente o seu oportunismo pequeno-burguês.
Nas circunstâncias existentes, afigura-se-nos que a resolução do problema do Partido tinha que vir do exterior e executada pelo exterior. Entregar a qualquer dos grupos ou aos dois grupos em conjunto (...) a tarefa dirigente de reconstituição do Partido, que, na verdade, nunca existira como partido revolucionário da classe operária, era um erro maior que os que procurava resolver. Provou-se a seguir que a sanção de seis meses aplicada a José de Sousa e a exclusão de Caetano de Sousa e Pires Barreira, ordenada pela IC, em virtude de indisciplina e não acatamento do arranjo de Humbert-Droz, não melhoravam a situação.
A Juventude, como Organização, desapareceu.
Só umas escassas dúzias de jovens, persuadidos da sua integridade comunista, ficaram fiéis à tradição – uns dentro do Partido e outros fora dele, lançados na mesma desorientação de actividades da época. Rates e a sua gente cavavam cada vez mais a separação entre as massas operárias e o Partido.
Humberto-Droz, efectivamente, verificara que o Partido, até à sua chegada, nada ou quase nada fizera no sentido de normalizar a situação de acordo com o que ficara tratado no IV Congresso; que os seus erros se haviam acumulado e que o sectarismo dos seus dirigentes, principalmente, tinha o Partido quase bloqueado. (...) Podia concluir-se que, praticamente, o Partido não existia.
Mas que espécie de contribuição tinham dado os Ratistas ao Partido para evitar o seu descalabro? Nenhuma. Eles tinham contribuído, em certa medida, com as suas intrigas à mesa do café e, depois com a cisão, para o seu aniquilamento. Havia, portanto, alguma razão que impusesse os Ratistas? Nenhuma. As promessas que os Ratistas fizeram a Humbert-Droz constituíam uma garantia futura de que o Partido ia entrar nos eixos? Impossível de ser considerado.
Só Humbert-Droz, oportunista de direita, podia concluir o impossível: que a existência e a linha justa do Partido ficavam asseguradas pelos Ratistas.
A IC teria podido resolver a situação do Partido nessa data? Cremos que sim, se o delegado que cá mandou fosse, de facto, um camarada políticamente justo.
Afigura-se-nos que o que havia a fazer era um estudo sobre os indivíduos cuja origem e consciência proletárias fossem susceptíveis de reeducação. Isto era elementar. Com base neles, reorganizar o Partido e assegurar a sua direcção com um elemento que a própria IC para cá destacasse. A continuidade deste trabalho assegurar-se-ia com o envio dum número possível de camaradas para a escola política.
E deste modo ter-se-ia construído uma barreira contra a qual se deviam desfazer todos os oportunistas, quer de esquerda quer de direita, e nunca desvios essenciais de linha política se teriam verificado no Partido. As condições do meio eram más; mas não eram intransponíveis, nem a sua invocação poderia constituir um argumento contra a tese que apresentamos.
(continua)
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