| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (17) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 17/04/05 16:42:26
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (17)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
Foi com todo este equipamento e sem um estudo retrospectivo da situação político-económica(que gerara, por um lado, as derrotas operárias anteriores e, por outro, um incremento de tensão política entre a burguesia e as restantes camadas) que a CGT entrou em actividade no ano de 1923.
A população cegetista baixara muito. De 130.000 que era, em meados de 1922, não atingia agora mais de 90.000 associados. Este declínio devera-se às derrotas anteriores, ao aumento da repressão e, sobretudo, à descrença das massas na CGT. As várias classes tinham saído duma fase ardorosa de lutas sem resultados solidamente proveitosos. A vida continuava-lhes difícil.
A vigilância e a repressão governamentais exerciam-se agora com mais dureza. As greves, por isso mesmo, eram mais severamente combatidas. Às dificuldades criadas pelo acinte governamental e patronal correspondia um aumento do terrorismo operário. Os grupos terroristas que mais se evidenciavam eram os da “Legião Vermelha” e o dos “Camartelos”.
A experiência do “niilismo” russo, do “revacholismo” francês e do “terrorismo deBarcelona” para nada servira à CGT. Conheciam-se as causas do terrorismo em que a situação assentava, isto é, sabia-se que era uma consequência da debilidade da luta de massas que por si reflectia debilidade política. Mas nada: os dirigentes cegetistas, longe de tomarem uma posição contrária, estimulavam-no.
Esta situação, ao contrário de uma retirada em ordem, era a debandada geral, a liquidação pelo reconhecimento da impotência. A debilidade congénita de qualquer corrente de pensamento oportunista vem sempre à superfície nos momentos difíceis.
A derrocada do anarco-sindicalismo, em Portugal, começou em 1923.
1923 foi também um ano de agravamento das condições económicas das massas, de insucessos putchistas, de instabilidade ministerial, de acumulação de experiência política para a reacção.
Até Março de 1924, o Partido quase não dera sinal de vida. Fizera a refiliação partidária. O resto das tarefas passaram em claro.
José de Sousa voltara de Setúbal. Reentrara para a direcção do Partido. O seu dinamismo prático fazia de novo mexer o Partido. Reconhecera-se, e ele em primeiro lugar, que a falta de aplicação das tarefas do IV Congresso e, marcadamente, da orientação geral da IC poria em risco de exclusão a SPIC.
Nestas circunstâncias, o Partido promove, em 4 de Março, uma Conferência com o fim de reactivar a vida do Partido, pondo aí, como questão central a aplicação prática de todas as tarefas gerais aprovadas pelo IV Congresso, e particularmente as que se haviam acordado com a SPIC. A Conferência decorreu num ambiente de franca cordialidade e chegou a termo com uma inteira unanimidade de vistas. Pode-se dizer que, se não fora a Conferência ter sido abandonada por dois dos conferencistas, nada fazia prever que dentro em pouco se daria uma cisão no Partido. Entretanto a Conferência aprovou todas as tarefas.
Desde que Caetano de Sousa regressara do IV Congresso, a parte direitista do Partido não agira partidariamente. Formara-se mesmo em grupo e não ocultava o facto. De vez em quando dava sinal de vida com críticas malévolas, nos seus pontos habituais de reunião (cafés), contra a direcção do partido. A sua existência decorria monótoma. Os componentes do grupo oposicionista estavam todos ao mesmo nível. Faltava-lhes um elemento destacado, com ascendência. Esse homem existia, estava também no Partido. Esse homem chamava-se Carlos Rates. Trataram de o procurar. Falaram-lhe. Por fim, convenceram-no. O homem estava disposto. O chefe, o seu chefe incontestado, estava ali. E porque não o Chefe do Partido?
Foram todos à Conferência. A última questão da ordem de trabalhos era a eleição do Comité Central do Partido. Aguardaram-na com paciência mantida a custo. O Comité Central foi votado, mas Carlos Rates não fora incluído.
Este xeque nos propósitos direitistas não podia ficar assim. Rates tinha de ser o Chefe do Partido.
(continua)
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