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Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (19)


Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 18/04/05 22:36:41
In reply to: Bento Gonçalves 's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11

PALAVRAS NECESSÁRIAS (19)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927

Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973

A Carlos Rates foi entregue a responsabilidade do Partido nos começos do Verão de 1924. Pouco depois marchou para Moscovo. Logo que de lá voltou, realizou uma conferência pública no Sindicato dos Arsenalistas do Exército. O maior número de assistentes era dos arsenalistas e de elementos da pequena burguesia (...).

A conferência nem de perto abordava os problemas do Partido daquela época. Foi uma conferência de exaltação do regime soviético e, particularmente, da grande personalidade de Lenine. A assistência ficou bem impressionada porque Rates falara bem.

O “Comunista” publicava-se agora com regularidade. A questão camponesa trazia o Rates apaixonado. Publicavam-se teses que um futuro Congresso do Partido devia discutir e aprovar, ou não, como é das normas democráticas. Não nos recorda nada da doutrina delas (...).

A questão colonial também chamara a atenção de Rates. Estava em discussão no Comité Central do Partido quando Humbert-Droz, pela segunda vez, veio a Portugal. Rates elaborara uma tese que preconizava a venda das colónias portuguesas a fim de, com o seu produto, promover o fomento da agricultura e comércio de Portugal. Embora as colónias portuguesas não lhe interessassem pessoalmente, Humbert-Droz aconselhou Rates a não fazer a sua “liquidação” e a rever a sua tese, que, por fim, se publicou sem a preconização da almoeda.

Rates e Droz formavam um duo irresponsável e grotesco. Com uma acertada vigilância de classe não era difícil fixá-los como oportunistas sem vergonha. É forçoso admitir-se que a IC ignorava esta cambada.

Rates continuava no Partido, apesar de tudo. Em 1925, porque a imprensa procura confundir o Partido com a “Legião Vermelha”, Rates publica no “Comunista” uma nota na qual o Partido afirmava a sua orientação antiterrorista.

Era o primeiro e único acto que Rates produzia de utilidade para o Partido e o que, pela sua essência, correspondia a uma manifestação séria de táctica do Partido. É porém duvidoso que tivesse sido esse o sentido que Rates lhe deu. Pelo menos, do Comité Central não podia ter saído a inspiração, porque havia lá quem simpatizasse com o terrorismo.

Rates era um elemento conhecidíssimo nos meios operários. Tinha sido um dos dirigentes mais destacados do movimento sindical no Alentejo. Rates era um indivíduo estudioso. Tornara-se, por isso, um intelectual operário, conforme a classificação da época. Este facto grangeara-lhe muita simpatia, e até admiração, entre as massas operárias e, particularmente, no meio de muita gente das camadas médias e pequenas da burguesia.

Contudo, a perda de contacto com as massas durante muitos anos e as suas modernas ideias, contrárias à CGT, alienaram-lhe a amizade de outrora nos meios proletários.

Era para os sectores da pequena burguesia que ele devia convergir com a sua política, arrastando consigo o Partido. Neste sentido, o seu dinamismo era grande. Serviu-se das simpatias que no país tinha no sector da burguesia e construíu, por intermédio delas, alguns pontos de apoio para a vida do Partido. A actividade organizativa de Rates em breve ia mostrar o sentido oportunista que a fundamentava.

A Esquerda Democrática (...) tinha estado no Poder e caíra de pé, como então se dizia. A simpatia de que esse agrupamento político gozava no seio das camadas médias e pequeno-burguesas era grande. A campanha que aquele agrupamento realizava com vistas às eleições de 1925 era intensa e parecia, em análise superficial, agourar o fim do prestígio do Partido Democrático e, conseguintemente, o seu desaparecimento como partido de maioria parlamentar.

Rates teria encarado, decerto, a situação como excelente para pôr o Partido Comunista em destaque na política portuguesa. Teria avaliado o destino imediato da situação política do país em função duma ligação do Partido com a Esquerda Democrática. O que a reacção tramava, as suas possibilidades intrínsecas e a passividade política da CGT, com a qual o Partido estava em guerra aberta, não tinham sido apreciadas e, portanto, não podiam ser avaliadas.

Com efeito, o Partido aparece ligado com a “Esquerda Democrática” para fins eleitorais. Ratem tinha uma confiança ilimitada na acção eleitoral do Partido: não contava o Partido com milhares de funcionários públicos em Lisboa, com os pontos de apoio espalhados pela província e, sobretudo, com o valor e efeito mobilizador das suas teses sobre a Agricultura e as Colónias que o Congresso do Partido realizado pouco antes, aprovara com entusiasmo e confiança enexcedíveis? Com certeza, o plano era infalível.

Os 8 candidatos que o Partido reunira à lista dos candidatos da Esquerda Democrática dentro em pouco estariam em S. Bento, em passo solene e altivo, cantando a Internacional para maior glória de Carlos Rates. Os nomes de Cabecinha, empregado comercial, Tavares dos Santos, arsenalista, Pereira Quartel, antigo trabalhador agrícola alentejano, etc., eram, por fim, uma garantia de que o plano estava bem traçado e que a falta de um ou outro retoque não podia alterar o resultado previsto.

Além de mais, o grupo Caetano de Sousa – José de Sousa – António Monteiro não o hostilizava. O grupo estava desfeito; e o próprio José de Sousa, cujo castigo havia terminado, auxiliava a campanha eleitoral do Partido, receoso de que o acusassem de sabotador, tendo-se entretanto negado à inclusão do seu nome numa lista eleitoral pela cidade do Porto.

As eleições, as últimas do regime liberal, realizaram-se. Mas o Partido não conseguiu fazer vingar uma única candidatura. A Esquerda Democrática aproveitara os votos do Partido mas não se dispôs a conceder-lhe, ao menos, um lugar no Parlamento.

O choque abalara o Rates, e com ele o Partido, profundamente. A par disto, a reacção dava mostras de insatisfação. Havia indícios de que as coisas iam por mau caminho. Rates não estava para cair numa situação bicuda, caso a reacção viesse a dar um golpe triunfante. O mesmo pressentimento dominava os espíritos de muitos dos seus admiradores e seguidores. A debandada começara. A ovra de Humbert-Droz começara a desconjuntar-se.

Rates, para se congraçar com as exigências do Partido, tinha abandonado a Maçonaria. E, como estava estabelecido, tornou pública a sua demissão. Mas agora que a vida lhe corria mal, que a existência do Partido se tinha anquilosado devido ao insucesso eleitoral e que as perspectivas políticas do país eram ameaçadoras para quem fosse comunista, não tinha a mesma disposição para o sacrifício.

Um dos 21 pontos em que deviam estruturar-se as secções da IC tornava incompatível a filiação no Partido de indivíduos que escrevessem em jornais burgueses. Ora, Rates não podia conciliar esta exigência com as suas necessidades de vida cómoda. Recebera um convite do “Século” para o seu corpo redactorial com a oferta (?) de mil escudos mensais. Era tentadora a oferta; não se podia desprezar. O Partido não valia mais esse “sacrifício”. Abandonou o Partido, em fins de 1925. Comentários, para quê?

Até Março de 1927, o Partido não tem história. A gente de Rates foi quem lá ficou. Nascimento da Cunha intitulara-se o pai do Partido e por isso lá ficara até que o “filho” teve o primeiro arremedo de emancipação e entendeu não precisar mais dele e do seu “auxílio”, dispensando-o.

As recomposições da Direcção foram frequentes, em família e sem ruídos. A IC mandava cá de vez em quando delegados seus. Mas o problema ficava insolúvel. O Partido não melhorava e, portanto, não andava para diante.

Não seria Humbert-Droz que a IC manteria, embora cá não tivesse voltado depois de 1925, com as mãos sobre a questão do Partido Português? O modo como as coisas decorriam, isto é, a falta de uma solução justa para o Partido, parece indicar que era ele que efectivamente manobrava, ou então havia mais Humbert-Droz ao serviço da IC.

(continua)

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Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (20)Bento Gonçalves19/04/05 21:30:20


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