| Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (20) |
Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 19/04/05 21:30:20
In reply to:
Bento Gonçalves
's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11
PALAVRAS NECESSÁRIAS (20)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927
Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973
Nos começos de 1924, já se falava em Portugal correntemente do fascismo. As violências e atropelos deste regime ecoavam nas massas por intermédio da imprensa operária e de um ou outro jornal da esquerda liberal. Havia a sentimento de que se tratava dum regime monstro, a avaliar pela sua agressividade; mas sobre as causas da sua vinda e as suas perspectivas não se adiantava nada. Esta estado de ignorância dava a medida da insuficiência dos dirigentes operários nas questões de análise política sobre a evolução da sociedade capitalista da época.
A subida de Mussolini ao poder, em 1921, e a de Primo de Rivera, em 1923, a primeira pouco depois da greve insurreccional que culminou com a tomada das fábricas em Itália, a segunda sob o pretexto da guerra de Marrocos, apesar da sua aparência divergente, mostravam-se idênticas na acção repressiva contra o Movimento Operário.
Com efeito, a orientação dada por Mussolini à política do capitalismo italiano era diferente da que Rivera dava à defesa da grande burguesia espanhola. Mas esta dissemelhança não significava que quer a um quer a outro não animasse o mesmo fim: proteger e consolidar a dominação económica e política do capitalismo.
A burguesia portuguesa, antes da Itália e de Espanha, havia tentado o mesmo objectivo com o Sidonismo. Na verdade, não lhe fora possível, então, conciliar as divergências entre os seus compartimentos de economia de modo a obterem unanimidade de vistas sobre a importância política do Sidonismo.
O Sidonismo remara no “bom sentido”, mas não pôde convencer a burguesia das vantagens da sua união. Foi essa debilidade, e não o desaparecimento de Sidónio, que fez fracassar o regime.
Sidónio não pôde forjar uma teoria, mas deixou elementos. O abalo da guerra criara dificuldades à burguesia portuguesa. Mas não fora suficientemente forte, não a ameaçara profundamente. Ao Sidonismo também faltara essa causa que, mais do que nada, gera o sentimento do receio profundo da perda irreparável e determina por si o instinto de unidade dos interessados em evitá-la.
Porém, em 1924, a grande burguesia, conquanto dividida ainda, tomara já conta de si. Os ensaios de Mussolini, a feroz repressão das classes trabalhadoras por Primo de Rivera e os seus efeitos encorajavam-na.
A burguesia nacional, fraca e tacanha de concepções, nunca enveredara por uma política de desenvolvimento do país que permitisse solucionar alguns dos principais problemas das massas populares.
Encontrara, quando começou a ter algum desenvolvimento, as melhores possibilidades económicas ocupadas por estrangeiros, de quem na realidade se sentia dependente.
Daí que a situação semicolonial do nosso país ajudasse também a criar na burguesia a certeza de que nunca resolveria os problemas fundamentais do nosso Povo.
A situação de Portugal como país semicolonial, devido à influência dos capitais estrangeiros que convergiam para ramos de exploração que não adiantavam nada a solução do nosso problema de emancipação, complicava também a existência da burguesia portuguesa. Mas os problemas existiam e havia que iludi-los, evitar pela astúcia e violência política os seus efeitos, nefastos para a sua existência no conceito das massas. Tudo isto significava para a burguesia a necessidade de sair de uma situação que, dia após dia, mais agravava a sua existência de classe dominante.
A Confederação Patronal, improvisada para combater as greves com o “lock-out”, tinha desaparecido praticamente com o apunhalamento do seu presidente, Sérgio Príncipe, no meio do ano de 1923. A estreiteza dos seus objectivos e a táctica terrorista que empregou convieram à burguesia mas não era, enfim, o instrumento capaz de reunir e levar a cabo as tarefas essenciais de domínio necessárias ao capitalismo.
Essa principal deficiência começara a ser preenchida pela União dos Interesses Económicos, com Pereira Rosa à sua frente, e a Cruzada Nuno Alvares Pereira, coio reaccionário onde pontificavam os grandes lavradores, chefiados por Martinho Nobre de Melo. Estes dois organismos representavam, de facto, interesses distintos: o primeiro defendia os interesses duma parte da indústria e do grande comércio e o segundo, o dos proprietários agrícolas.
Porém, O modo político como tratavam os problemas nas suas respectivas organizações e como os ventilavam através da imprensa denunciavam já o afloramento dum certo encontro de opiniões no sentido duma possível compreensão e acção política em conjunto.
Efectivamente, o corolário desta actividade orgânica e jornalística mostrava a sua evidência no Parlamento através da acção do grupo Cunha Leal e do Cancela de Abreu (monárquico).
O Partido Democrático, o partido da maioria e campeão da demagogia, era, a despeito da actividade reaccionária dos outros agrupamentos, o centro e o mais forte esteio de apoio da grande burguesia. Os agentes desta haviam-se instalado nele nos princípios da sua existência e mais largamente logo que o seu triunfo político se tornou um facto, em 1910. Desde essa data, o Partido Democrático fora sempre o instrumento, a arma mais poderosa, contra os interesses do proletariado.
Conquanto a sua estruturação liberal tivesse servido os interesses da grande burguesia até essa data, era agora a causa que, de certo modo, se opunha ao desenvolvimento da reacção capitalista. A confirmarem o facto, lá estavam os grupos reaccionários do Parlamento, a imprensa capitalista e os organismos de Pereira Rosa e Martinho Nobre de Melo a empurrarem cada vez mais para o abismo os fundamentos liberais do Partido Democrático.
Não havia, então, qualquer manifestação da classe operária, quer pacífica quer violenta, que não fosse imediatamente atacada nos jornais e no Parlamento. A par desses ataques, exigiam-se do Governo medidas excepcionais de repressão. O Governo não hesitava. A constituição era cada vez mais esfarrapada, ia caindo aos bocados. Prisões em massa, agressões, assassinatos e prisões preventivas, tudo isto era fielmente copiado do cruel e bandoleiresco programa de repressão de Primo de Rivera.
A imprensa e os deputados reaccionários exultavam de satisfação sempre que a dureza e as barbaridades do Governo tinham lugar. O papel do Partido Democrático como instrumento das forças da reacção só se devia esgotar em 28 de Maio de 1926. Até lá havia ainda muito que espremer...
(continua)
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