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bloguista sabichão
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Date Posted: 19/04/05 12:08:10
In reply to:
www.comunistas.info
's message, "Interrogações autárquicas" on 19/04/05 9:52:24
>Interrogações sobre estratégia autárquica
>
>por Paulo Fidalgo - Lx, 19/704/05
>
>
>
>Ninguém ignora a importância das eleições autárquicas
>para a edificação de uma alternativa progressista em
>Portugal.
>
>
>
>Como exemplarmente Carlos Brito romanceia no seu “A
>Páginas Tantas”, o investimento por parte do PCP no
>acordo com o PS de Jorge Sampaio, para a Câmara de
>Lisboa, nos anos 80, foi o de se iniciar um processo
>de vasto alcance.
>
>
>
>Do lado comunista ambicionava-se uma cidade nova é
>certo, mas procurava-se sobretudo um País novo,
>também.
>
>
>
>A ideia de um empreendimento à esquerda, de
>convergência, tendo em vista um novo patamar de
>transformação no país, era imprecisa, mal compreendida
>por democratas de vários quadrantes, e não isento
>daquelas manifestações de espírito de grupo que tornam
>a discussão de posições nas listas um negócio pouco
>recomendável. Mas era ainda assim galvanizador.
>
>
>
>Parecia contudo depender fortemente de uma aposta a
>prazo num governo de esquerda, plural, como corolário
>natural do que se iniciava em Lisboa.
>
>
>
>Em virtude porém de discutíveis – mas nunca discutidas
>- experiências de participação comunista em governos
>de coligação pelo mundo fora, a ideia de centrar a
>estratégia transformadora numa solução progressista de
>governo reformador era atemorizadora para os próprios
>comunistas. Confrontava as várias componentes da
>esquerda com as suas limitações programáticas quanto
>ao uso do governo como arma de transformação, e
>sobretudo fazia temer pelo comportamento de uma base
>social muito dissociada de objectivos reformadores nos
>vários sectores da vida nacional.
>
>
>
>Do lado comunista, aquilo que era uma manobra
>política, ofensiva, de largo alcance, perdeu elán,
>ficou prisioneira de hesitações e temores, tornou-se
>numa administração sem impacto político mobilizador –
>porque destituída de um plano coerente de repercussão
>nacional - e fracassou num ambiente de geral
>frustração. Na direcção comunista prevaleceu, com o
>tempo e com a vitória de uma linha sectária que
>culminou nos confrontos do XVI Congresso, uma noção
>meramente táctica, instrumental, de defesa de um
>status quo de influência eleitoral formal, sem cuidar
>que tais posições só se seguram se servirem para
>construir uma cidade e um país novos.
>
>
>
>Para os que ambicionam uma revolução, a melhor defesa
>é tomar a ofensiva. Ora, deixar a coligação “Por
>Lisboa” vegetar no defensismo, e apostar quando muito
>numa linha tecnocrática do fomento urbano, foi, como
>se viu, um deslize para a derrota.
>
>
>
>A análise desse insucesso está por fazer, mas foi
>liminarmente arrumada do lado da actual direcção do
>PCP como uma penalização do carregado ambiente
>nacional de crítica ao governo de Guterres.
>
>
>
>Ora, a questão começa precisamente por aí!
>
>
>
>Como é possível que uma coligação de esquerda,
>sofresse da mesma penalização que o país infligia a um
>governo PS mono-color?
>
>
>
>A incapacidade de uma coligação em Lisboa se
>autonomizar da imagem negativa do governo releva
>precisamente do facto de não emprestar qualquer
>especificidade política que permitisse mostrar aos
>lisboetas algo de efectivamente diferente. E, que, ao
>contrário do caminho de António Guterres, haveria toda
>a vantagem em que o governo do país arrepiasse caminho
>e corrigisse a mira com os olhos postos no que se
>devia estar – e de facto não estava - a passar na
>cidade.
>
>
>
>O problema é que, na cidade, nada de especialmente
>interessante ou mobilizador se passava que
>contrariasse a maré de críticas ao governo. A verdade
>é que o plano de unir a esquerda em Lisboa para,
>depois, a unir no país, a favor de um projecto
>transformador, tinha perdido orientação, chegara a um
>total impasse estratégico e mergulhara no “pântano da
>esquerda”. E o insidioso pântano da esquerda em Lisboa
>precedeu por longo tempo o pântano no país, redundou
>na vitória da direita e ainda serviu de trampolim para
>os meses loucos de Santana Lopes.
>
>
>
>Em certo sentido, a derrota em Lisboa, foi talvez o
>mais importante pródromo da grave crise então em
>gestação e do qual a cegueira das esquerdas nem sequer
>ainda hoje permite tomar consciência.
>
>
>
>Se estão certas estas reflexões, então, antes de
>qualquer outra consideração política, caberá
>equacionar o que se deve entender por uma política
>unitária, de vasta congregação da esquerda, nas
>autarquias. Importa pois, em primeiríssimo lugar,
>perceber que só resultará aquele plano que cortar
>radicalmente com a cegueira que levou a coligação por
>Lisboa à derrota.
>
>
>
>Significa isto que, ao contrário do amolecimento
>anterior, a política de unidade autárquica deve antes
>de tudo recuperar toda a potencialidade do plano
>original: batalhar por um país novo!
>
>
>
>À primeira vista, os apelos do PCP a um diálogo com o
>PS em Lisboa, e deste ao PCP, no Porto, poderiam
>inscrever-se num estado de espírito positivo.
>
>
>
>Sabendo do discurso relutante e sem verdadeira
>abertura para uma discussão de governo, presente na
>campanha eleitoral para as recentes legislativas, por
>parte do PCP (e do BE), constata-se para já uma
>preocupação meramente táctica, em torno de lugares e
>agendas eleitorais. Longe portanto desse sentido
>refundador que a unidade autárquica deve recuperar sob
>pena de não ganhar qualquer credibilidade.
>
>
>
>Assim, não se está a refundar uma coligação. Está-se a
>arriscar a reedição de um mau resultado.
>
>
>
>O PS deseja acordos porque tem a noção de que lhe
>interessa prolongar o elán das legislativas, e
>recuperar Lisboa e Porto ao PSD, um objectivo
>compreensível mas destituído em si mesmo de sentido
>transformador.
>
>
>
>E sabemos que ao PS e, a toda a esquerda de resto,
>lhes interessa um bom resultado nas autárquicas para
>alimentar a perspectiva de vitória nas presidenciais.
>
>
>
>Mas atenção, posto assim, de forma prosaica, tudo isto
>poderá apenas ser lido pelo eleitor democrata como um
>mero sacar de votos, eleitoralista, que não mobiliza
>nem convence.
>
>
>
>Do lado do PCP, o sentido parece ser tão-só o de fugir
>a uma exposição eleitoral em listas isoladas que o
>confronte com um cenário de perdas. O inverso
>precisamente do que seria de exigir a uma força com
>efectivo estatuto de promotor de uma sociedade e
>economia avançadas.
>
>
>
>Do lado do BE, a imagem que predomina é a de uma força
>que prefere a conquista eleitoral baseada naquele
>discurso, vivo e focado em causas, que lhe forneceu
>uma das mais espectaculares mudanças de aritmética
>eleitoral desde a Revolução, mas como solista sem
>espírito de unidade.
>
>
>
>A ser verdade, isso tornaria o BE num novo émulo do
>super-eleitoralismo, que sacrifica a vitória sobre o
>PSD nas grandes capitais, ao alargamento do seu
>território eleitoral. E perpetuaria assim aquela
>imagem de oposição que não embarca nas agruras da
>governação.
>
>
>
>O BE justificou parcialmente a sua táctica de corredor
>solitário com a conduta ilícita do PCP e do PS ao
>longo do mandato autárquico que agora termina. Diz
>João Teixeira Lopes que ambos devem ser penalizados: o
>PCP pela sua aliança oportunista com o PSD na Câmara
>do Porto; e o PS do Porto porque continua contaminado
>com o pior do caciquismo autárquico. Críticas que têm
>de resto bastante fundamento. Sem uma retratação do PS
>e do PCP, no Porto, preferirá o BE ir sozinho.
>
>
>
>O discurso rectificador e moralizador do BE no caso do
>Porto pode querer constituir um embrião de uma nova
>maneira de actuar em termos de política autárquica,
>que supere o esgotamento e as práticas mais
>cristalizadas da esquerda convencional, consentâneo de
>resto com a ideia de uma nova praxis que desde sempre
>marcou a vantagem do BE. Mas por não ter claramente
>assumido o papel de refundador de uma política de
>agregação corre o risco de aparecer tão-só como uma
>escapatória para o desejo de afirmação eleitoral
>autónoma.
>
>
>
>O sentido da discussão política é o de batalhar por
>programas e não por prévias considerações de conduta.
>Até porque a lógica nos ensina que todas as forças que
>antes divergiram e agora consideram uma aliança,
>fazem-no porque evoluíram e admitem rectificar.
>Colocar a condição prévia de uma penitência é
>argumento que parece alimentar precisamente uma linha
>de fractura a todo o custo.
>
>
>
>O BE teve nesta altura uma oportunidade soberana para
>colocar na agenda uma verdadeira refundação da unidade
>à esquerda. Em moldes renovados e apontados à montagem
>de nova solução política para o país. Não teve no
>entanto a audácia de o fazer. Tinha de resto toda a
>autoridade para isso, como força que reúne cada vez
>mais simpatias do povo. Deveria ter pois colocado em
>cima da mesa aquilo que toda a esquerda espera por ver
>ser colocado: celebrar acordos que repercutam numa
>nova dinâmica nas cidades, no governo e nas eleições
>presidenciais.
>
>
>
>Ficariam assim mais claros os pontos de acordo ou de
>discórdia.
>
>
>
>Para os comunistas, onde quer que eles hoje se
>arrumem, o que interessa hoje é gerar as condições
>para que a alternativa de fundo abra caminho nas
>cidades e no país. Por isso, a sua condução deve ter o
>sentido de batalhar muito mais por compromissos
>programáticos transformadores e por objectivos com
>alcance político do que deixar a discussão arrastar-se
>pelo pântano das defesas de território e das agendas
>de aparelho.
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