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Subject: Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927 (22)


Author:
Bento Gonçalves
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Date Posted: 20/04/05 22:58:34
In reply to: Bento Gonçalves 's message, "PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927" on 11/04/05 22:35:11

PALAVRAS NECESSÁRIAS (22)
A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927

Bento Gonçalves
Edição de Virgínia Moura, 1ª edição sem data, 2ª edição 1973

Efectivamente, a primeira reacção armada deu-se cerca de dois meses após a queda do governo de José Domingues dos Santos, em 18 de Abril de 1925. Os reaccionários foram derrotados pelas forças governamentais, apoiadas no povo. Sucede que o esmagamento da reacção só na aparência existiu. Os prisioneiros da aventura putchista foram enviados para prisões confortáveis. O regime e as facilidades que nelas desfrutavam eram parecidas com as de que dispunham em liberdade. Parecia que o Governo tivera a preocupação única de os salvar da ira popular e que, passada ela, seriam restituídos à sua vida normal. De facto, assim aconteceu. Meses depois, o Tribunal da Sala do Risco absolveu-os.

O que significava esta criminosa actuação governamental para com os inimigos do Povo? Por outro lado, que queria dizer a prisão de 46 operários militantes, efectuada no dia imediato ao da liquidação do “putsch”, e a sua deportação para África 10 dias após, sem qualquer interrogatório, processo ou inculpação sumária? O primeiro exame revelaria que o governo agira contra os reaccionários sob pressão dos liberais e do povo e que, no dia seguinte, iludindo a vigilância dessas forças e mentindo sem pudor, protegia a reacção e atacava a classe operária com a deportação dos seus filhos sob o labéu de terroristas e criminosos vulgares.

Como era tudo isso possível? Sem dúvida porque a reacção se havia infiltrado por toda a parte e tinha nas mãos todas as alavancas da repressão. O Partido Democrático estava agora reduzido ao papel de gendarme do povo, ao serviço da reacção. Só a cobardia e a indecisão dos reaccionários, em 18 de Abril, podiam, mais que quaisquer outros factores, explicar o não terem triunfado completamente.

Entretanto, com condições tão favoráveis, a reacção tinha o futuro assegurado, a partida estava ganha.

Era evidente que o fascismo, que o povo conseguira desmoralizar em 18 de Abril, recobraria em breve o ânimo abatido. Que disposições tomavam a CGT e todos os restantes organismos operários para o enfrentar? Não se perdera, com efeito, uma oportunidade excelente para o submeter e asfixiar no casulo quando a Esquerda Democrática esteve no poder? Não indicaria nessa data a situação política a necessidade duma frente unida operária que por si se tornasse um baluarte de resistência independente antifascista e de apoio e impulso à acção progressista do Governo de José Domingues dos Santos?

Isto não se fez, embora fosse viável, com a condição de o sectarismo dos dirigentes operários não se lhe ter interposto. Com efeito, as duas colossais manifestações populares que foram feitas ao Governo de José Domingues dos Santos, por espontânea iniciativa das massas, não encontraram eco nas organizações operárias. Os três meses de actividade governativa da Esquerda Democrática deram muito tempo para uma improvisação de acção conjunta de todos os sectores progressivos. Mas a única prova que se teve – iniludível – foi a da incapacidade política de todos, menos os reaccionários.

Poderia admitir-se uma viragem salutar, uma reacção extrema das organizações operárias após o 18 de Abril, quando a CGT era já, afinal, um monte de destroços, os partidários da ISV pouco mais que um núcleo de palradores pretensiosos, o Partido com o Rates a encaminhá-lo para o plano inclinado da bancarrota e o Partido Socialista com o Amâncio Alpoim e o Ramada Curto a bajularem os parlamentares democráticos? Claro que não. Ao oportunismo juntara-se o sectarismo, cada vez mais violento, mais derrotista. A crise era profunda e a desorientação que decorria da mentalidade oportunista dos dirigentes operários da época tomava-a como uma vaga de impossível domínio. Havia o sentimento liquidacionista de “o que for soará”. Reagir para quê?

Era bem uma crise de pensamento revolucionário, de teoria que se não formulara, a despeito da riqueza de experiência por que passou o proletariado desde 1910 até aquela data. Mas a esta experiência faltara a base do Marxismo, a única que a podia transformar numa táctica adaptada às circunstâncias dessa época no nosso país.

A prova mais flagrante da mentalidade pequeno-burguesa e da podridão em que se encontrava deu-a a CGT em Santarém, no seu Congresso, em Setembro de 1925. Depois de haver ratificado a adesão à A I dos Trabalhadores, aprovou uma tese sobre as colónias e nem uma palavra sobre a unidade operária proferiu. Não valia a pena qualquer apelo à unidade antifascista porque o fascismo, se viesse, não seria duradouro. Qualquer Costa o liquidaria e, até lá, os democráticos apanhariam uma lição...

Ainda no ano de 1925, os reaccionários tentaram a sorte. Em 19 de junho, o comandante Cabeçadas tomou de assalto um barco de guerra de onde chegou a fazer uns tiros para terra. O Governo julgou a aventura talvez muito aborrecida e contrariado por não ser ainda desta vez que punham fim à fantochada da sua existência.

Em Dezembro de 1925 ou Janeiro de 1926, Martins Júnior, pessoa ambiciosa e tresloucada, capaz de se bandear com a reacção, como depois se provou com a sua adesão ao fascismo, arranca com a artilharia de Vendas Novas e trá-la para Almada e Cacilhas, de onde, à mistura com uns vivas ao Partido Radical, fez uns tiros para Lisboa. O Governo, porque se tratava de elementos tidos como “radicais”, foi menos macio, e, depois de apagar mais o rastilho de Almada, deportou o Martins Júnior, alguns sargentos e praças para a Madeira e Açores. Um dos heróis desta “fita” foi José Maria de Almeida Júnior.

Estas aventuras, conquanto fossem chefiadas por pessoas cujos nomes andavam ligados à vida da República liberal e arvorassem o estandarte da luta contra o Partido da tirania e opressão, o Partido Democrático, eram inspiradas pelos futuros fascistas. A reconhecida incapacidade política da pequena burguesia era aproveitada pela reacção, que a par e passo a lançava em aventuras desesperadas. A reacção tinha agentes seus nos agrupamentos pequeno-burgueses para o que desse e viesse. Em qualquer circunstância favorável aos seus desígnios, esses agentes tratariam de concertar as coisas a seu favor.

É que os reaccionários não tinham ainda descartado a hipótese de os aventureiros oportunistas da pequena burguesia serem alguma vez bem sucedidos num dos seus frequentes “golpes”. E, desde que tal viesse a suceder, os seus agentes tratariam de encaminhar o sucessor para o ponto em que os fascistas lhe pudessem deitar a mão. Se esta previsão não se desse, havia que esperar o esgotamento de toda essa actividade política putschista e ligar mais tarde toda essa gente a um “putsch” verdadeiramente revolucionário. Até lá, a imprensa reaccionária ajudaria a amadurecer a situação, proclamando que o país marcharia para a ruína se o Exército, “guardião da honra e independência nacionais”, não interviesse nos destinos da política e não pusesse termo à prodigalidade de “revoluções”.

A táctica maquiavélica dos futuros fascistas pôde pôr à prova os seus recursos porque o proletariado não tinha tido consciência revolucionária para elaborar a sua e o Partido Democrático, feudo permanente da reacção, com a sua acção ao serviço da grande burguesia, auxiliou-os em larga medida.

Tivesse a revolução de 1910 extinguido os grandes proprietários agrícolas e o flagelo fascista não teria certamente tantas possibilidades de se apoderar a Nação.

O assalto vitorioso da reacção chegou em 28 de Maio, quando a podridão política da burguesia liberal estava sem perspectivas de saneamento. À frente do exército, montado num cavalo branco, marchava o General Gomes da Costa, antigo chefe dos “putschs” radicais. Todos aqueles elementos dos precedentes golpes “revolucionários” radicais, etc., que tinham lugares no Exército estavam com o movimento, uns dispostos a tudo, outros sinceramente convencidos de que o seu liberalismo estava triunfante. Os que não pertenciam ao Exército exultavam de contentamento e aplaudiam também a sua grande vitória.

O proletariado assistia pelo país às paradas que o Exército fazia como demonstração de força e de tranquilidade.

Na realidade, a reacção tinha ganho a partida e o fascismo veio a ser um facto.

A decepção dos oportunistas pequenos e médios burgueses e proletários transformou-se em “reviralhismo”, que esteve na moda durante muito tempo e ainda hoje não está inteiramente desfeito.

Como atrás ficou referido, desde que Rates abandonou o Partido até Março de 1927, a actividade comunista não era notada porque, na realidade, não existia. Apenas em 7 de Fevereiro, quando se deu o primeiro “putsch” contra a ditadura fascista, o Partido publicou um manifesto convidando os trabalhadores a persistirem na luta – a não abandonarem as armas – até que o “putsch” ficasse vitorioso. A incapacidade dos dirigentes do Partido era tal que foi preciso que elementos não dirigentes lhes houvessem lembrado a necessidade da publicação referida. Foram esses elementos, com José de Sousa à cabeça, quem editou e fez circular o citado manifesto.

Em Março de 1927, porém, José de Sousa, Silvino Ferreira (arsenalista) e outros militantes comunistas tomam conta da direcção do Partido, no propósito louvável de, pelo menos, o arrancarem da apatia em que estava. Esta reacção, cujo intuito revolucionário era evidente, não tinha, infelizmente, ainda um justo alicerce doutrinário e teórico.

Nesse mesmo ano, o Partido envia às festas do 10º aniversário da Revolução Russa um delegado seu. A sua escolha recaiu em Silvino Ferreira (arsenalista). Na mesma data, visto o interesse que na URSS se manifestava em receber delegados de todos os países (sem partido), a fim de tomarem contacto in loco com a realidade bolchevique, partiram para a Rússia vários amigos da União Soviética. De Portugal foram também alguns, entre os quais Augusto Machado, Bento Gonçalves, etc.

Augusto Machado, que, quando partiu para a União Soviética, ainda não era membro do Partido, voltou de lá com a responsabilidade de reorganização do Partido. Provavelmente, Silvino Ferreira deve ter sido quem o indicou à IC.

Em vista disso, a direcção improvisada em Março demitiu-se logo à chegada de Augusto Machado. Este procedeu à reorganização do Partido, mas a exagerada atenção dada ao problema da teorização dos quadros, na base de publicações leninistas, não se repartiu pelo trabalho de organização.

Era a teoria como substituição da prática. Só em 1929, com uma nova reorganização, com Bento Gonçalves, é que o papel e a política revolucionária do Partido começaram a ser compreendidos.

FIM

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Re: PALAVRAS NECESSÁRIAS-A vida proletária em Portugal de 1872 a 1927João Luís23/04/05 0:56:54


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