| Subject: Re: Obituários |
Author:
Rui Nogueira
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Date Posted: 14/04/05 13:16:06
In reply to:
Anabela Fino
's message, "Obituários" on 14/04/05 10:02:24
Raramente terei lido texto mais eivado de ódio sectário do que este publicado no Avante. Anabela Fino é bem o porta voz do ressaibiamento dos actuais dirigentes do PCP em relação às personalidades que um dia abandonaram o partido, fosse qual fosse o motivo. De acordo com esta forma de pensar todo aquele que militou no PCP - ainda que há décadas - e que o deixou de fazer é um ex-comunista, entendendo-se como um inimigo, um reaccionário ou um vendido. Estará, sempre segundo a direcção do PCP, impedido de legitimamente ter opiniões sobre o PCP, ainda que positivas e de participar em debates ou homenagens a figuras da história do partido.
Esta atitude - e outras que recentemente têm vindo a lume - é bem esclarecedora da mentalidade dos actuais dirigentes do PCP e totalmente contrária a uma imagem de convivência democrática e de pluralismo de ideias que toscamente pretendem passa para a opinião pública.
Esta maneira de encarar a sociedade e a política revela um espírito de seita e um fundamentalismo execrável.
As consequências estão à vista. O PCP, que antigamente era atacado pela direita e pelas forças mais reaccionáris da sociedade portuguesa, é agora por elas tolerado e por vezes até acarinhado como se viu recentemente na campanha eleitoral. Ao invés são muitas as pessoas de esquerda, ligadas ou não no passado ao PCP, que repudiam a direcção comunista e que deixam de votar na CDU por repulsa por este tipo de atitudes.
O PCP, dirigido como o está a ser, já não é a força de esquerda destinada a transformar a sociedade e a encontrar o caminho do verdadeiro socialismo. É um vestígio arqueológico, uma memória do passado e um partido sem futuro.
A direita agradece.
>Obituários
>
>Anabela Fino, Avante, 14/04/05
>
>No último sábado, a Biblioteca-Museu da República e
>Resistência serviu de palco a um estranho conclave: um
>grupo composto quase exclusivamente por ex-comunistas,
>de longa data ou nem tanto, assumidos ou nem por isso,
>marcou encontro para homenagear (?) Bento Gonçalves,
>secretário-geral do PCP morto no campo de concentração
>do Tarrafal em 1942.
>
>De Mário Soares a Carlos Brito, de Edmundo Pedro a
>Fernando Vicente - segundo reza a notícia do Público
>do passado domingo -, sem esquecer a imprescindível
>poesia de Manuel Alegre para dar um toque cultural ao
>conciliábulo, as intervenções tiveram a
>particularidade de convergir não apenas no ponto de
>partida, o homenageado, o que seria normal, mas também
>no ponto de chegada, o ataque ao PCP, o que sendo
>menos curial era no entanto bastante expectável tendo
>em conta o gabarito dos oradores.
>
>De acordo com a informação vinda a público, a
>generalidade dos intervenientes fez questão de
>criticar a ausência oficial do PCP na sessão, mas a
>nenhum dos preclaros tribunos ocorreu questionar-se
>sobre a sua legitimidade para debitar sobre o
>pensamento e a vida de um homem que se dedicou por
>inteiro ao Partido e à causa que eles próprios traíram.
>
>Pode ser que para quem acreditou - e alguns até
>aplaudiram! - no fim da História seja natural que os
>detractores do comunismo, no seu afã de fazer crer que
>a luta de classes desapareceu, se dediquem a evocar a
>memória dos comunistas mortos, que são sempre os
>melhores, aproveitando o ensejo para zurzir nos
>comunistas vivos, que são os que incomodam.
>
>Pode até ser que para tais senhores faça todo o
>sentido encomendar a missa de sétimo dia aos ateus e o
>encómio da paz aos senhores da guerra, ou entregar a
>segurança das vítimas aos algozes e o combate da
>injustiça social aos exploradores. Afinal de contas,
>quem engavetou o socialismo ou trocou a luta pela
>transformação da sociedade pelos encantos do jet-set
>não terá certamente motivos para se sentir complexado
>em lembrar com paternal simpatia o operário letrado
>que morreu pela liberdade. Não custa nada, não tem
>consequências e fica bem no currículo, para além de
>ajudar a apagar memórias de estórias menos edificantes
>dentro do conveniente princípio de que uma mão lava a
>outra.
>
>Complexos têm os coerentes, como Álvaro Cunhal, que
>segundo garantiu Soares no referido evento nunca
>conseguiu livrar-se da pena, ou mesmo da culpa, de não
>ser operário, motivo que explica, na óptica soarista,
>a razão pela qual Bento Gonçalves é tão «esquecido»
>pelo PCP.
>
>Valham-nos os ex de militância e ideias de todos os
>tempos, tão prontos a esquecer o presente como a
>reescrever o passado, para manter viva a chama do
>anticomunismo. Que seria de nós sem estes próceres da
>democracia, tão férteis em discursos e elogios
>póstumos como em incoerências e jactâncias?
>
>De tão cheios de si e dos seus ódios de estimação,
>caminham distraídos pelo velho caminho dos inimigos da
>luta de classes que um dia travaram, sem sequer se dar
>conta que palavra a palavra vão escrevendo de forma
>indelével os seus próprios obituários.
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