| Subject: Re: Obituários |
Author:
Zé Braz
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Date Posted: 14/04/05 21:17:03
In reply to:
Rui Nogueira
's message, "Re: Obituários" on 14/04/05 13:16:06
És parvo ou quê...
>Raramente terei lido texto mais eivado de ódio
>sectário do que este publicado no Avante. Anabela Fino
>é bem o porta voz do ressaibiamento dos actuais
>dirigentes do PCP em relação às personalidades que um
>dia abandonaram o partido, fosse qual fosse o motivo.
>De acordo com esta forma de pensar todo aquele que
>militou no PCP - ainda que há décadas - e que o deixou
>de fazer é um ex-comunista, entendendo-se como um
>inimigo, um reaccionário ou um vendido. Estará, sempre
>segundo a direcção do PCP, impedido de legitimamente
>ter opiniões sobre o PCP, ainda que positivas e de
>participar em debates ou homenagens a figuras da
>história do partido.
>Esta atitude - e outras que recentemente têm vindo a
>lume - é bem esclarecedora da mentalidade dos actuais
>dirigentes do PCP e totalmente contrária a uma imagem
>de convivência democrática e de pluralismo de ideias
>que toscamente pretendem passa para a opinião pública.
>Esta maneira de encarar a sociedade e a política
>revela um espírito de seita e um fundamentalismo
>execrável.
>As consequências estão à vista. O PCP, que antigamente
>era atacado pela direita e pelas forças mais
>reaccionáris da sociedade portuguesa, é agora por elas
>tolerado e por vezes até acarinhado como se viu
>recentemente na campanha eleitoral. Ao invés são
>muitas as pessoas de esquerda, ligadas ou não no
>passado ao PCP, que repudiam a direcção comunista e
>que deixam de votar na CDU por repulsa por este tipo
>de atitudes.
>O PCP, dirigido como o está a ser, já não é a força de
>esquerda destinada a transformar a sociedade e a
>encontrar o caminho do verdadeiro socialismo. É um
>vestígio arqueológico, uma memória do passado e um
>partido sem futuro.
>A direita agradece.
>
>>Obituários
>>
>>Anabela Fino, Avante, 14/04/05
>>
>>No último sábado, a Biblioteca-Museu da República e
>>Resistência serviu de palco a um estranho conclave: um
>>grupo composto quase exclusivamente por ex-comunistas,
>>de longa data ou nem tanto, assumidos ou nem por isso,
>>marcou encontro para homenagear (?) Bento Gonçalves,
>>secretário-geral do PCP morto no campo de concentração
>>do Tarrafal em 1942.
>>
>>De Mário Soares a Carlos Brito, de Edmundo Pedro a
>>Fernando Vicente - segundo reza a notícia do Público
>>do passado domingo -, sem esquecer a imprescindível
>>poesia de Manuel Alegre para dar um toque cultural ao
>>conciliábulo, as intervenções tiveram a
>>particularidade de convergir não apenas no ponto de
>>partida, o homenageado, o que seria normal, mas também
>>no ponto de chegada, o ataque ao PCP, o que sendo
>>menos curial era no entanto bastante expectável tendo
>>em conta o gabarito dos oradores.
>>
>>De acordo com a informação vinda a público, a
>>generalidade dos intervenientes fez questão de
>>criticar a ausência oficial do PCP na sessão, mas a
>>nenhum dos preclaros tribunos ocorreu questionar-se
>>sobre a sua legitimidade para debitar sobre o
>>pensamento e a vida de um homem que se dedicou por
>>inteiro ao Partido e à causa que eles próprios
>traíram.
>>
>>Pode ser que para quem acreditou - e alguns até
>>aplaudiram! - no fim da História seja natural que os
>>detractores do comunismo, no seu afã de fazer crer que
>>a luta de classes desapareceu, se dediquem a evocar a
>>memória dos comunistas mortos, que são sempre os
>>melhores, aproveitando o ensejo para zurzir nos
>>comunistas vivos, que são os que incomodam.
>>
>>Pode até ser que para tais senhores faça todo o
>>sentido encomendar a missa de sétimo dia aos ateus e o
>>encómio da paz aos senhores da guerra, ou entregar a
>>segurança das vítimas aos algozes e o combate da
>>injustiça social aos exploradores. Afinal de contas,
>>quem engavetou o socialismo ou trocou a luta pela
>>transformação da sociedade pelos encantos do jet-set
>>não terá certamente motivos para se sentir complexado
>>em lembrar com paternal simpatia o operário letrado
>>que morreu pela liberdade. Não custa nada, não tem
>>consequências e fica bem no currículo, para além de
>>ajudar a apagar memórias de estórias menos edificantes
>>dentro do conveniente princípio de que uma mão lava a
>>outra.
>>
>>Complexos têm os coerentes, como Álvaro Cunhal, que
>>segundo garantiu Soares no referido evento nunca
>>conseguiu livrar-se da pena, ou mesmo da culpa, de não
>>ser operário, motivo que explica, na óptica soarista,
>>a razão pela qual Bento Gonçalves é tão «esquecido»
>>pelo PCP.
>>
>>Valham-nos os ex de militância e ideias de todos os
>>tempos, tão prontos a esquecer o presente como a
>>reescrever o passado, para manter viva a chama do
>>anticomunismo. Que seria de nós sem estes próceres da
>>democracia, tão férteis em discursos e elogios
>>póstumos como em incoerências e jactâncias?
>>
>>De tão cheios de si e dos seus ódios de estimação,
>>caminham distraídos pelo velho caminho dos inimigos da
>>luta de classes que um dia travaram, sem sequer se dar
>>conta que palavra a palavra vão escrevendo de forma
>>indelével os seus próprios obituários.
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