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Rogério Rodrigues - "A CAPITAL"
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Date Posted: 10/04/05 12:05:34
O PCP alheou-se da homenagem. Mário Soares estranha e declara que Cunhal sempre teve o complexo de não pertencer à classe operária
ROGÉRIO RODRIGUES
Por iniciativa de três jovens, realizou-se ontem, na Biblioteca-Museu República e Resistência, um colóquio sobre Bento Gonçalves, na prática o fundador do PCP, tal como o conhecemos hoje. Mas a direcção do PCP declinou o convite de estar presente, o que criou alguma estranheza entre os participantes nesta homenagem.
Estiveram na mesa Edmundo Pedro, um dos poucos tarrafalistas vivos, que ocupava, naquele campo de concentração, a cama ao lado de Bento Gonçalves e ouviu as suas últimas palavras antes de entrar em estado de coma; Carlos Brito, ex-dirigente do PCP, objecto de uma purga, hoje isolado no Algarve, que conta em traços breves a sua entrada no PCP na década de 50 e a importância de Bento Gonçalves e da sua doutrina para os jovens comunistas; finalmente, Mário Soares, também ele um ex-comunista (oito anos de militância), que não conheceu Bento Gonçalves mas ouviu falar dele aos tarrafalistas com quem contactou após o seu regresso a Portugal (amnistia dos centenários) e também ao seu tio que fora arsenalista e companheiro de Bento Gonçalves. Não pôde estar presente, por questão de idade, 96 anos, um dos promotores da iniciativa, Vasco de Carvalho que, com alguma leviandade histórica, foi apresentado, pelos jovens promotores, como «secretário--geral interino nos anos 40», ou seja, em plena reorganização, ganha pelo grupo liderado por Álvaro Cunhal.
Além destes elementos presentes na mesa, falou ainda Fernando Vicente, um dos homens mais torturados pela PIDE, que não falou, um dos responsáveis, durante anos, pela Festa do Avante! e que, no último Congresso do PCP, foi hostilizado por não alinhar com a actual direcção, embora mantendo-se comunista e membro daquele partido.
Trás um texto escrito e engloba este colóquio no programa das comemorações do 25 de Abril. Considera Bento Gonçalves o primeiro dos comunistas portugueses. Olhando para o auditório não tem rebuço em afirmar que está ali gente «praticamente de toda a esquerda» e estranha a ausência da direcção do PCP que não se quis aliar a esta homenagem. Conclui Carlos Brito: «Espero que não se trate de qualquer revisão da História». E fala um pouco de si mesmo, da sua entrada para o partido, no início da década de 50, quando Bento Gonçalves era uma referência. Recorda as palavras de Bento Gonçalves quando defende que «se os comunistas querem ser politicamente respeitados e seguidos, têm de ser bons profissionais». Reconhecendo que durante duas décadas houve uma vacatura de secretário-geral, só preenchida em 1961, quando o último secretário-geral, Bento Gonçalves morrera em Setembro de 1942, considera que este vazio, na voz corrente dos comunistas, representava uma espécie de homenagem a Bento Gonçalves.
(Continua na edição impressa)
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