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Subject: Uma lição para a actual direcção do PCP


Author:
Bloguista sabichão
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Date Posted: 10/04/05 20:54:27
In reply to: Paulo Fidalgo 's message, "Homenagem, discussão e vivacidade na evocação de Bento Gonçalves..." on 10/04/05 19:08:37

Mas no PCP estão muito ocupados em atacar a esquerda e estas homenagens não dão votos. E depois era preciso obter autorização de Cunhal e este só rebe às segundas.


>Homenagem, discussão e vivacidade na evocação de Bento
>Gonçalves, em Lisboa!
>
>As impressões de um colóquio, por Paulo Fidalgo
>
>
>
>Alguém sabia que ali bem na Rua do Arsenal, funcionou
>o fabuloso torno mecânico onde Bento Gonçalves
>desenvolveu o seu ofício, por todos admirado,
>inclusive pelo presidente do conselho de administração
>do próprio Arsenal na época?
>
>
>
>Como é possível conceber que o mais habilitado
>torneiro mecânico, do parque industrial do Arsenal,
>daquele cujas aparas de aço davam para montar uma
>tubagem de calibre perfeito do comprimento da própria
>rua do Arsenal, desenvolvia ao mesmo tempo a função
>clandestina de secretário-geral do PCP nos anos 20 e
>30 do século XX?
>
>
>
>Foi Edmundo Pedro companheiro à época de partido de
>Bento Gonçalves que elogiou a fantástica performance
>profissional de Bento Gonçalves. E recordou a vida dos
>dois no campo da morte lenta no Tarrafal, até à morte
>de Bento, directamente testemunhada por Edmundo de uma
>dita biliosa, uma doença caracterizada segundo o
>próprio Edmundo como falência renal e anúria
>(entende-se por anúria o estado de ausência de emissão
>de urina).
>
>
>
>O prodígio técnico de Bento Gonçalves, um operário
>versado no espanhol, francês e inglês, pode
>exemplificar-se no seu engenho para construir uma
>máquina de gelo no Tarrafal, sem nunca antes ter tido
>qualquer noção de como era concebido um compressor, ou
>da máquina de cortar e enrolar tabaco, uma pequena
>maravilha de esperteza mecânica, exibida por Edmundo
>para toda a assistência.
>
>
>
>A faceta do operário que se tornou intelectual foi de
>resto acentuada por Mário Soares, outro dos
>homenageadores que fez questão de estar presente. Em
>conjunto com Carlos Brito, sublinharam o aparente
>paradoxo que para ambos constituiu o facto do PCP não
>ter secretário-geral entre 1942, o ano da morte de
>Bento Gonçalves, até à fuga de Peniche no início dos
>anos sessenta. Porquê esse enorme hiato? Esses quase
>20 anos, coincidem com a época em que ambos se
>iniciaram nas lides do PCP. A razão por ambos
>adiantada foi a de que a marca de Bento Gonçalves foi
>tão esmagadora que a ideia de uma substituição se
>tornava insuportável para muitos camaradas da
>direcção. Por outro lado, poderá ter pesado nessa
>relutância em substituir o líder desaparecido, o facto
>de alguns, como o lendário José Gregório, o mais
>destacado animador da revolta do soviete da Marinha
>Grande em 1931, e membro do secretariado do PCP,
>considerar pouco adequado que um secretário-geral do
>PCP, o partido da classe operária, não fosse um
>operário.
>
>
>
>Ninguém sequer considerou hipóteses mais
>questionadoras daquilo que o senso comum costuma
>reproduzir, como a possibilidade de se ter gerado uma
>inclinação para a desvalorização do papel de uma
>liderança centrada numa pessoa, um ponto de vista
>possível quando estamos a falar de um partido
>comunista. Onde se teoriza que o génio dos indivíduos
>é valorizado, ao ponto do trabalho ser encarado como
>encadeamento social, em que o lugar do principal não
>se consegue facilmente determinar. Ou então que entre
>os possíveis substitutos, poderia existir um certo
>empate de aspirações e de perfil que não permitia uma
>escolha sem fracturas. A razão evocada foi pois,
>fundamentalmente, a do peso do grande herói
>desaparecido.
>
>
>
>Foi sublinhado, o fenómeno especial no início do
>século XX, de Bento Gonçalves surgir como o símbolo do
>operariado mais avançado do seu tempo. Habilitado
>técnica e intelectualmente para dominar a execução e a
>organização da produção, para determinar os contornos
>da sua evolução e portanto, como o agente capaz de
>operar a viragem que a sociedade e o mundo
>ambicionavam. Hoje, e isso não foi sequer abordado
>pela escassez de tempo, a classe operária tradicional
>fragmentou-se na construção de uma subjectividade
>transformadora, pois que em muitos casos, a mão de
>obra é facilmente descartável, o patronato impõe a
>organização da produção e ameaça todos os dias com a
>deslocalização e o despedimento. A subjectividade
>determinada nestes segmentos da classe operária é mais
>defensiva e menos capaz de assumir uma atitude de
>agente de transformação. Mas a constante revolução da
>produção que caracteriza o capitalismo gera outros
>segmentos onde florescem Bentos Gonçalves porque são
>os trabalhadores e não o patrão que dominam aí o
>processo de produção, a sua organização e estão
>habilitados intelectualmente a conquistar um mundo
>novo. No fundo esta análise entre subjectividades
>fracturadas, serve para colocar em cima da mesa que
>não basta ser operário para automaticamente se
>metamorfosear em revolucionário, uma verdade há muito
>conhecida. E que o fulcro do embate transformador não
>liberta energias iguais em todos os ramos da
>actividade produtiva. De acordo de resto com Marx,
>essa energia não está necessariamente nos segmentos
>mais empobrecidos e precarizados dos trabalhadores.
>Foi de resto sublinhado que o Arsenal era a mais
>avançada unidade industrial do seu tempo e que o
>conjunto dos seus trabalhadores era o destacamento
>mais evoluído da classe operária portuguesa. Nada mais
>natural portanto que o Arsenal se constituísse na
>célula mais activa do partido da classe operária, e
>que fosse dela que a reorganização de 29 e o
>relançamento da actividade do PCP nos anos seguintes
>se originasse. E nada mais natural que a crítica do
>anarquismo, do sectarismo, do aventureirismo, do
>putchismo e de todos os vícios pequeno-burgueses
>prevalecentes no movimento operário, tivesse nos
>operários do Arsenal o seu esteio. O Arsenal e os seus
>operários eram a frente do movimento revolucionário e
>de mudança na sociedade portuguesa de então. E isso
>não foi obra do acaso apenas, nem do génio das
>individualidades operárias que por lá pontificaram
>apenas, incluindo o nosso Bento Gonçalves. Aliás, esse
>génio é também, de alguma forma, o produto das
>circunstâncias singulares da indústria do Arsenal. Foi
>pois o resultado de um processo social onde indústria
>avançada tecnologicamente e operários habilitados
>geram a visão de um mundo novo para o qual valia a
>pena batalhar, valia a pena mobilizarem-se e mobilizar
>a luta de todos os trabalhadores e camadas médias do
>Portugal do seu tempo.
>
>
>
>Foi muito discutida a noção de que nas últimas
>décadas, a memória e o exemplo do papel de Bento
>Gonçalves está muito pouco valorizado. Porquê esta
>relativa secundarização? Levantou-se o dedo acusador
>ao muito insuficiente papel do PCP na valorização de
>Bento Gonçalves, nomeadamente no ano de 2002, o
>centenário do seu nascimento. Foi de resto sublinhada
>a ausência de figuras destacadas da direcção actual do
>PCP no colóquio. Os militantes do PCP presentes
>defenderam-se e contra-atacaram para sublinhar que a
>figura de Bento é recordada amiudadas vezes e no
>centenário se realizou uma exposição dedicada na festa
>do Avante. Por outro lado, João Arsénio Nunes,
>sublinhou que o trabalho historicista da documentação
>do PCP está muito insuficiente porque os meios
>disponíveis são escassos. Uma outra camarada achou
>mesmo exagerado o dizer-se que há uma certa ocultação
>da figura de Bento Gonçalves. Mas Edmundo Pedro
>contra-atacou exemplificando com o célebre livro “A
>Defesa Acusa” onde se publicaram as célebres
>declarações de defesa dos presos comunistas nos
>tribunais fascistas e onde a defesa de Bento não está
>incluída - “um belo documento que deveria ser
>conhecido”, disse. A interrogação acerca dos supostos
>motivos do esquecimento relativo de Bento Gonçalves,
>foi colocada mas não cabalmente respondida. Uma
>explicação adiantada é um tanto do foro da análise
>psicológica e conta-se nos seguintes termos: Bento
>Gonçalves é insuficientemente recordado porque Álvaro
>Cunhal, o secretário-geral que se lhe seguiu, se
>sentiu inseguro no possível confronto histórico que
>alguém pudesse suscitar. E porquê essa hipotética
>insegurança? Responderam alguns dos presentes que
>Álvaro Cunhal sempre transportou às suas costas o
>fardo de não ser operário e que, portanto, a evocação
>do herói do Arsenal era vista como a reprodução
>recorrente do defeito. Foi ainda mencionada a hipótese
>de que o papel de Bento Gonçalves na reorganização de
>40-42 foi muito importante, tanto quanto se percebe
>pelo seu texto seminal “As duas palavras”, escrito no
>Tarrafal, e pelo testemunho de Edmundo Pedro que
>estabeleceu com clareza que foram Gabriel Pedro,
>Vilarigues, Júlio Fogaça e outros, também presos no
>Tarrafal, que receberam as pormenorizadas instruções
>de Bento para a reorganização quando regressaram a
>Portugal após a sua libertação. A hipótese foi a de
>que Álvaro Cunhal talvez sentisse alguma
>competitividade com Bento Gonçalves quanto ao peso
>relativo dos dois nesse processo reorganizador. Uma
>possibilidade que os presentes acharam descabida, caso
>fosse verdadeira. É que ninguém lhe passa pela cabeça
>contestar o papel de Álvaro Cunhal no processo mas
>tão-só recentrar e recuperar o contributo de Bento
>Gonçalves. Outras hipóteses explicativas haverá para o
>relativo apagamento da memória, mas uma que vem ao de
>cima sempre é pensar-se que rediscutir o passado é
>discutir também o presente e o ambiente, hoje, é
>avesso a discutirem-se linhas de orientação, alianças,
>desvios pequeno-burgueses, erros, etc. João Arsénio
>Nunes foi certeiro quando disse que esse esquecimento
>atinge também as obras de Álvaro Cunhal, como a “A
>Revolução Portuguesa, o Passado e o Futuro” e pode
>adiantar-se o total esquecimento em que está o “O
>Radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”. O
>que todos aparentemente concordaram é com a ideia de
>que o passado não se tem discutido ou discute-se muito
>insuficientemente e não se poderão empreender acções
>com futuro sem o conhecer e rediscutir.
>
>
>
>Um momento especialmente tocante foi a leitura das
>palavras de Vasco Carvalho, o secretário-geral
>interino do PCP nos anos quarenta, e vítima do
>processo reorganizador. O Camarada Vasco deu o seu
>apadrinhamento à sessão com palavras simples e a sua
>ausência física decorre das limitações dos seus 95
>anos. Mas Vasco Carvalho é um testemunho vivo dos
>enfrentamentos da reorganização, das dissensões no PCP
>e no fundo é o exemplo das limitações e problemas que
>afectam o movimento revolucionário em Portugal.
>
>
>
>Foi igualmente emocionante discutir-se com Fernando
>Vicente, o engenheiro recordista da tortura do sono em
>Portugal, com 31 dias, dos quais resultou um porte
>exemplar para um revolucionário. Ele modestamente quis
>sublinhar que a polícia política descriminava
>classisiticamente os presos, encarniçando-se muito
>mais com o castigo aos operários e camponeses, afinal
>a origem social dos próprios torcionários, e
>comparativamente era mais branda com os oposicionistas
>filhos da burguesia. Fernando Vicente no fundo queria
>sublinhar a sua modéstia como herói das prisões,
>perante a grandeza de Bento Gonçalves. Aliás, Mário
>Soares subscreveu a ideia de uma discriminação
>classista na actuação da PIDE, como se comprova,
>disse, com o que ele próprio sofreu. Mário Soares
>admitiu que a sua passagem pelas prisões foi menos
>violenta do que as torturas infligidas a milhares de
>trabalhadores. Contudo, Raimundo Narciso, o
>super-operacional da luta armada contra o fascismo, na
>célebre A.R.A., contestou que fosse de alguma forma
>Fernando Vicente um exemplo de qualquer descriminação
>positiva pela PIDE pelo facto de ser engenheiro.
>Fernando Vicente, afirmou-se no colóquio, é talvez o
>preso vivo mais barbaramente torturado na PIDE e o ser
>engenheiro, afinal, de nada lhe valeu.
>
>
>
>No plano da discussão política do legado de Bento
>Gonçalves, João Arsénio Nunes sublinhou um dado pouco
>valorizado do seu papel político. Arsénio Nunes
>afirmou que a acção de Bento foi profundamente marcada
>pela transposição da linha da Internacional para
>Portugal, facto que de resto foi abordado por Paulo
>Fidalgo quando se surprendeu com um certo estereótipo
>de avaliação revelado por Bento no “Palavras
>Necessárias” na crítica por exemplo à acção socialista
>no governo republicano de 1919 ou à acção de Carlos
>Rates, o primeiro secretário-geral do PCP, na sua
>aliança eleitoral com a Esquerda Democrática em 1924,
>de resto fracassada. Esse estereótipo poderia
>perfeitamente encaixar num certo cânone adoptado do
>jargão da Internacional que teve como preocupação
>maior a clonagem de partidos bolcheviques e, até ao
>seu VII congresso em 1935, alimentou muitas análises e
>opções pouco consentâneas com uma linha unitária, como
>a célebre linha de “classe contra classe”.
>
>
>
>A ideia de Bento como “homem do comintern”, rótulo que
>lhe tinha sido colado pelos anarquistas do seu tempo,
>podia ser usado em sentido pejorativo, mas segundo
>Arsénio Nunes, esse papel de transportador e
>transferidor da linha do proletariado internacional
>para Portugal era verdadeiro.
>
>
>
>Carlos Brito, em contraposição à ideia de Arsénio
>Nunes, de resto um estudioso do movimento operário
>muitíssimo autorizado, sublinhou os períodos em que o
>PCP esteve sem orientação internacional, e que a
>despeito dessa falta, Bento e a direcção não deixaram
>de desenvolver criativamente o seu trabalho mesmo num
>estatuto de “auto-gestão”.
>
>
>
>As duas visões podem mesmo assim não se excluir pois
>que se pode ser o “homem do comintern”, mesmo quando o
>dito comintern não telefona ou não escreve a dizer a
>senha. De qualquer forma, a imagem de Bento como o
>“Internacional” é muito interessante quando o
>movimento operário hoje nem sequer se consegue
>entender para formar uma estrutura europeia
>supra-nacional. O exemplo a retirar da acção de Bento
>é a de que um relançamento da ideia comunista em
>Portugal só pode fazer-se com um regresso ao
>internacionalismo de sempre da ideia comunista.
>
>
>
>Numa tarde de sábado bem ensolarada, esteve o
>auditório do museu República e Resistência à cunha
>para evocar Bento Gonçalves durante mais de 3h00. O
>enorme sucesso do colóquio deve-se à iniciativa de
>jovens estudantes de sociologia que se sentiram
>profundamente marcados pelo desvendar da prodigiosa
>vida e acção de Bento Gonçalves. Jovens que nos
>mostram afinal como, o futuro, está mesmo para
>acontecer.
>
>
>
>Lisboa, 10/04/05

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Replies:
Subject Author Date
Re: Homenagem, discussão e vivacidade na evocação de Bento Gonçalves...visitante com memória10/04/05 20:57:43
    Vocês vivem do passado mas querem apagá-loBoguista sabichão10/04/05 21:03:59


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