| Subject: A história dos outros contada por ele |
Author:
João Mesquita
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Date Posted: 8/04/05 23:51:45
“Um verdadeiro toupeira vermelha”
João Mesquita, Grande Reportagem, 05/02/05
(...) Em Novembro de 71, chegara a Lisboa um celebrado activista da revolta estudantil coimbrã de 69, João Cabral Fernandes (que) vem fazer o chamado ano de prática clínica no Hospital de Santa Maria.
Mas vem também procurar estender à capital os Grupos de Acção Comunista (GAC), que se tinham começado a formar em Coimbra e no Porto a partir de leituras e discussões que têm Léon Trotsky sempre no centro.
Aos ouvidos de Cabral Fernandes chegam notícias de um grupo de estudantes do Liceu Padre António Vieira (...). Um (...) era Francisco Louçã. O outro, Miguel Teotónio Pereira.
Cabral Fernandes não descansa enquanto não descobre como chegar à fala com os rapazes. Ainda por cima (...) lêem Marx, Lenine e Marcuse e frequentam sessões de cinema pouco recomendadas (...), no velho Império ou no cineclube que funciona no salão paroquial da Igreja de S. João de Brito.
Só que Miguel (...) não prescinde das suas futeboladas (...) nem de uns longos jantares (...) na Munique ou na Alga (...). Francisco não. Já nessa altura (...) dá mostras de ser “um verdadeiro toupeira vermelha” (...).
João Cabral Fernandes também gosta de umas noitadas. Mas não descura a oportunidade de recrutar Francisco Louçã (...).
Quando surge nas primeiras reuniões de estudantes trotskistas (...) Francisco dá logo nas vistas (...). Ainda é, porém, um militante muito recente para estar na conferência que funda a LCI, realizada na casa que um estudante trotskista de Medicina possuía em Peniche, no dia 18 de Dezembro de 1973.
Mas nesse mesmo ano passa a integrar a direcção de Lisboa da nova organização. E em Julho de 1974, no encontro que consagra a integração da UOR (União Operária Revolucionária) na LCI, é eleito para o Comité Central.
Já participa, pois, na primeira polémica interna que abala a LCI após o 25 de Abril, em torno de saber se ela deve, ou não, legalizar-se imediatamente.
Francisco Sardo e Ferreira dos Santos, dois históricos (...), sustentam que não (...). Louçã está entre a maioria que defende que sim. E assim chega ao Secretariado do Comité Central, onde tem por camaradas João Cabral Fernandes, Heitor de Sousa, Adelino Fortunato e António Brandão.
Mas os resultados nas eleições para a Constituinte, em Abril de 75, não são brilhantes (...). Resultado: o segundo congresso, que se efectua em Agosto, é talvez o mais polémico (...). Defrontam-se quatro tendências. Ganha a liderada por Francisco Vale, futuro jornalista de O Jornal e hoje proprietário da editora Relógio d’Água.
Francisco Louçã está na segunda corrente mais votada, ao lado de Cabral Fernandes e José Manuel Boavida.
Sai do Secretariado, mas por pouco tempo. Um mês depois do congresso, a maioria afecta a Vale impõe a participação da LCI na FUR. Mas a evolução desta parece dar razão aos que, como Louçã, a viram mais como um instrumento do PCP para alargar a base de apoio à governação de Vasco Gonçalves.
Consequência: novo secretariado, com Francisco Louçã a regressar. E quando em Julho de 76 se realiza o terceiro Congresso da LCI, Francisco Vale acaba mesmo por ser expulso, sob a acusação de fraccionismo. Sardo (...) e Ferreira dos Santos (...) afastam-se.
Pelo meio dá-se o 25 de Novembro, que interrompe os sonhos revolucionários (...).
(continua)
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