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Subject: Uma entrevista com António Gervásio


Author:
Estudos sobre o comunismo [Blog]
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Date Posted: 7/04/05 16:24:18

O PCP está em crise?

Confrontados com a questão sobre se o PCP está em crise, quer em crise política, ideológica ou crise de direcção, António Gervásio responde directamente que não e que a Festa do Avante foi a maior demonstração de que o partido não está em crise.
Todavia, novamente, um grupo de destacados dirigentes comunistas têm vindo para a praça pública contestar a actual direcção.

A.G – Esta questão dos chamados reformistas ou renovadores tem tido o apoio da comunicação social. Estes membros do partido defendem uma outra teoria, de que o partido deveria deixar de ser marxista-leninista, defendendo um outro funcionamento, um outro método de eleição dos seus órgãos dirigentes, uma concepção que consiste em alterar toda a matriz ideológica, de classe, todos os princípios e apresentam-se à opinião pública como vitimas de perseguição e de delito de opinião, num partido onde sempre houve as opiniões mais disparatadas e nunca ninguém foi sancionado por ter opiniões diferentes. Todos têm direito a ter a sua opinião e a defende-la, desde que não entrem em trabalho fraccionário, foi sempre assim e será assim. Agora, este grupo tem um trabalho fraccionário organizado dentro do PCP.
Por que razão os renovadores têm pressa em realizar um novo Congresso, quando o último foi há dois anos e prazo para a realização do próximo está definido nos estatutos do partido?

A.G. – Em primeiro lugar para ganhar tempo e para a gente se entreter com estas coisas e poderem ter a esperança de mudar alguma coisa. No último Congresso já puseram as opiniões deles, bateram-se ali por elas, mas foram rejeitadas. Em 1300 delegados não chegaram a 100 os que se abstiveram e votaram a favor. Isto não tem impacto dentro do partido, mas faz mal e nas últimas eleições fomos prejudicados por isso.
As pessoas não sabem como é que funciona o PCP e pensam que não se pode ter opiniões diferentes. Claro que pode e têm o direito de ter, que está assegurado nos estatutos.

A.P. – Mais uma vez, nesta questão, os órgãos de comunicação social, fazedores de opinião, e os grandes grupos económicos, dão sobre esta questão uma imagem que pode vir a debilitar o partido, dando voz a este pequeno grupo e não a todo o trabalho de luta do partido, de organização nas fábricas, nos campos, na Assembleia da República.
Em todos os lados onde está presente a actividade do partido, não há uma palavra na comunicação social e só é dada ênfase a estes, como se eles representassem alguma coisa. Para quem esteja menos informado politicamente, pensa que é aquele o clima que se vive dentro do partido. Não é verdade nem nunca foi. É muito forçado chamar a isto uma crise, a imagem que se transporta para o exterior aparenta uma crise, mas na prática, a vida do partido é do mais normal que pode haver.

A sociedade em que hoje vivemos, é uma desilusão, principalmente para quem viveu toda a vida ligado ao PCP, com uma visão de sociedade própria do PCP?

A.G. - Não, não é. Quando olho para o meu partido vejo que o XVI Congresso trouxe uma fornada de jovens para o partido, mas todos com a consciência do seu papel, da sua responsabilidade. Olhando para a sociedade, vejo-a por isso com uma certa alegria.

Mas acha essa sociedade próxima do socialismo ou cada vez mais afastada?

A.G - Nessa perspectiva não. Vamos ter anos duros e negros pela nossa frente, lutas muito duras, por que o imperialismo está livre, faz o que quer, atreve-se a destruir países, o que parece impossível. No nosso país, ou no mundo, não vejo grandes perspectivas. A luta vai-se agudizar, a História não anda para trás, às vezes anda aos ziguezagues, mas sempre caminhando para a frente.
Hoje, o capitalismo tem uma capacidade de alienar as pessoas para o consumismo, para uma vida fácil, para o dia-a-dia, onde não se pensa em nada. O que se vê é uma desumanização da própria sociedade, onde cada um quer é ter um bom carro, e não pensa nas questões sociais, na solidariedade.

A História é uma luta de classes?

A.P. – É isso mesmo. A história é uma luta de classe e terá sempre a pressão de um lado e do outro. Haverá sempre uma força dominante. Neste nosso mundo é o dinheiro, é ele que manda, que impõe ao poder político a sua vontade. Um equilíbrio raramente haverá.

No livro “Até Amanhã Camaradas”, Rosa diz a Vaz, “temos que fazer um mundo novo”, esse continua a ser um objectivo do PCP?

AG – Exactamente, se não, não fazia sentido sacrificar tanto a nossa vida familiar, profissional, se não tivéssemos essa perspectiva. Não será já no nosso tempo. Muitos queriam ver derrubar o fascismo, não viram, mas outros viram. Eu já não vejo o socialismo no meu país, mas tenho a certeza que é para aí que a Humanidade caminha.
A Humanidade não precisa de homens a explorar outros homens, não precisamos disso, queremos outra vida sem ser explorados, uma vida melhor, cada vez trabalhar menos mas produzindo mais, com novas tecnologias. Eu não luto por uma sociedade burguesa, não espero que os capitalistas se democratizem e vão ceder mais regalias e mais direitos aos trabalhadores. É preciso transformar esta sociedade, para acabar com os erros a que hoje assistimos.
Estas são as minhas convicções políticas, assentes na história da vida.

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Subject Author Date
Re: Uma entrevista com António GervásioFernando 7/04/05 23:36:29


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