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Subject: Re: Na espera de uma morte


Author:
Augusto M. Seabra
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Date Posted: 3/04/05 11:34:38
In reply to: Frei Bento Domingues 's message, "A Igreja Católica é só o Papa?" on 3/04/05 11:01:14

Na espera de uma morte
Augusto M. Seabra, Público, 03/04/05

Não é imperativo ser crente e católico para que certas imagens e recordações de papados permaneçam. Neste momento, ocorrem-me memórias dos momentos de morte.

Há aquela memória de infância da morte de Angelo Roncali, o "bom Papa João", o do Concílio.

Mas o que agora ainda mais me tem de novo ocorrido são as sucessivas mortes, num escasso intervalo, em Agosto e Setembro de 1978, de Paulo VI e João Paulo I. É que houve uma circunstância profissional que me fez "comparticipar" do luto: trabalhando então na RTP, no Departamento de Programas Musicais, coube-me por duas vezes pôr no ar a Paixão Segundo São Mateus de Bach, dirigida por Karl Richter, com Peter Schreier e Dietrich Fischer-Dieskau.

Pela mesma ordem de razões, tenho vivíssimas memórias de 16 de Outubro de 1978, o dia da surpreendente eleição de Karol Woytila. Foi uma estreia de fogo para a RTP/2 dirigida por Fernando Lopes, a primeira e única experiência de outro canal público totalmente diferente, incluindo a informação. E enquanto eu próprio me preparava para entrar noutro estúdio, para em seguida apresentar o Wozzeck de Alban Berg, a "Informação/2" estreava-se com o António Mega Ferreira, e com o Joaquim Furtado a fazer uma entrevista sobre a escolha do conclave.

Evoco estas circunstâncias porque moldam também uma percepção do que tem sucedido nas últimas semanas e sobretudo nos últimos dias: nunca tantos milhões de pessoas estiveram na ansiedade e mediaticamente condicionados à espera da morte de um homem. O fim da vida de Karol Woytila é outro marco da "aldeia global".

Isto dito assim, com esta frieza analítica, conceptualmente agnóstica, poderá parecer uma desconsideração para com os sentimentos de tantos e tantos católicos - longe de mim, espero, ser intolerante, como em numerosos aspectos o foi o pontificado que termina.

O que não posso deixar de particularmente assinalar é que na clássica questão das religiões e do mundo moderno, clássica desde pelo menos Max Weber (o "ópio do povo" não é para aqui chamado), a mediatização que foi um dos mais distintivos traços de João Paulo II assinala um modo de inscrição da Igreja Católica no mundo moderno; mas pergunto-me também se o modo como tem vindo a ocorrer a exposição pública da sua agonia não se integra, contraditoriamente ainda, num processo de "desencantamento do mundo" característico da modernidade

O célebre conceito weberiano de "desencantamento do mundo" supõe que a racionalidade, a técnica e a burocracia, a "desmagificação" (que acaso existisse a palavra seria uma aproximação a "Entzauberung", evitando a confusão entre "desencantamento" e decepção) retiram no mundo moderno o sagrado enquanto tal da esfera pública da acção.

Como todavia bem sabemos a presente modernidade, chame-se-lhe o que se entenda (modernidade tardia, pós-modernidade, etc.) comporta fortíssimas reacções anti-modernas de matriz religiosa.

No que especificamente diz respeito à esfera mediática: teremos também de nos questionar se a velocidade e a intensidade das imagens, e o modo de relacionamento com essas, não supõem antes que processos técnicos avançados da modernidade suscitaram novos e fortíssimos investimentos simbólicos, idolatrias e tribalismos mesmo, que, a contra-corrente, suscitam um "reencantamento". De algum modo, e até agora agudizadamente nestes últimos dias, João Paulo II condensa também essas duas complexas perspectivas.

Para ser honesto, que a perspectiva não é neutra, devo esclarecer que a pessoa e a acção não me são indiferentes.

Começando pelo princípio, recordo exactamente a percepção que tive no momento da escolha do papa polaco, a de que era uma peça que também se vinha encaixar na estratégia dos direitos humanos de Jimmy Carter (embora hoje nos queiram fazer crer que face ao império soviético apenas houve depois Ronald Reagan).

É a dimensão estritamente política, capital, de quem tão decisivamente deu um alento a movimentos autónomos e ao desmoronamento do comunismo real e, como tal, aos horizontes da liberdade.

Mas a par disso, a acelerada "fabricação" de santos e beatos, em maior número neste papado do que num somatório de vários séculos, e a intolerância, não digo em questões de fé (que não me cabe discutir, sendo aliás certo que dogmas são consubstanciais a qualquer religião), mas de práticas, das quais a mais grave foi a obstinação na recusa de relações sexuais protegidas num contexto de pandemia, em suma o cariz resolutamente anti-moderno, não me podem deixar de suscitar a mais liminar rejeição, sendo certo que foram também motivo de acções político e de tentativas de condicionar a ordem temporal.

Acabei contudo por ser também sensível ao lado esforçado, viajante, disso que designam como "peregrino" e "apostólico", precisamente enquanto exemplo de determinação obstinada de um ancião que ia ficando visivelmente diminuído.

Foi a introdução de uma modernidade mediática no papado que também veio a suscitar esta exposição pública agora, mas não posso deixar de pensar quanto a vivência em directo da espera da morte, há 48 horas no momento em que escrevo, incluindo todos os prelados que foram falando de Woytila já no passado, tem qualquer coisa de espectáculo indecente.

Ou então, que tão simplesmente se aguarda a decisão burocrática do anúncio oficial, dessa burocracia impessoal, a um tempo pré-moderna, no que à hierarquia do Vaticano diz respeito, e que a outro é esse traço maior distintivo da ordem do mundo moderno e do "desencantamento". Na espera de uma morte

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Subject Author Date
Re: A agonia do Papa e o circoPúblico 3/04/05 11:47:05


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