| Subject: Re: A agonia do Papa e o circo |
Author:
Público
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Date Posted: 3/04/05 11:47:05
In reply to:
Frei Bento Domingues
's message, "A Igreja Católica é só o Papa?" on 3/04/05 11:01:14
A agonia do Papa e o circo
Público, 03/04/05
À hora a que escrevo, João Paulo II ainda não morreu, embora já tenha sido morto por quase todos os canais de televisão, que há dois dias atiram quase ininterruptamente para o ar todos os "congelados" pré-preparados há meses (ou anos) para o dia da morte do chefe da Igreja Católica.
É fácil perceber que são congelados - para que não restassem quaisquer dúvidas, o tempo de verbo usado é sempre o passado. Depois do Papa morrer, os ditos congelados serão repetidos, entre a primeira reacção à morte que se seguirá à enésima reacção à agonia.
O frenético decreto da morte por antecipação foi assinado pelo louco mundo dos media, à escala global, de há 48 horas para cá. O funeral, encomendado pelo circo noticioso, desenrolou-se imparável, no inferno de onde esteve ausente qualquer espécie de pudor que a agonia humana merecia.
Em alguns canais, o Vaticano foi tratado como uma "fonte" espúria, que contra todas as evidências mediáticas se recusava a confirmar que o Papa já tinha morrido. Os católicos foram açoitados pelos microfones, à espera que dissessem qualquer coisa noticiável ou, eventualmente, chorassem ou recitassem encíclicas de cor. No primeiro dia do frenesim, os jornalistas portugueses postaram-se em Fátima, palmilhando o santuário à espera de católicos em prece pelo Papa, o que quase não havia. Quem é que estava em Fátima?
Estava quem já tinha, com antecipação, resolvido ir a Fátima, porque fez uma operação há um mês ou porque tinha uma reunião anual de antigos combatentes marcada para esse dia, que incluía a romagem. Rezariam todos pelo Papa, que ficássemos descansados.
Como "diversos canais de televisão" noticiaram na sexta-feira a morte pontifícia, até já se fizeram de antemão três minutos de silêncio em Fátima, ordenados pelo bispo residente. "Informaram-me que diversos canais de televisão disseram o que estamos pensando: o Papa João Paulo II morreu", disse na sexta-feira aos fiéis D. Serafim Ferreira, provocando logo a grande comoção que, com o desmentido oficial, teve que fazer marcha-atrás.
Ontem, ao fim da tarde, o comunicado escrito do Vaticano confirmava a gravidade do estado de saúde, mas acrescentava que o Papa ainda responde a perguntas.
Enquanto durasse a agonia, a cultura abutreira instalada não iria sossegar. O Papa morreu à noite.
Obviamente, nada disto - o circo devoto em redor da morte papal - tem a ver com a mensagem da Igreja Católica.
Sobre o acontecimento previsível, o bispo do Porto disse a mais natural das frases, aliás de acordo com a religião que professa: "Quando o Papa morrer, faz-se-lhe o funeral, depois reúne-se o conclave de cardeais que elege outro Papa". Mas explicar isto aos "infiéis"?
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