| Subject: Re: Elogio da dissidência |
Author:
Iroel Sánchez
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Date Posted: 3/04/05 12:39:10
In reply to:
Comité Central do Partido Comunista de Cuba
's message, "Novas e brutais medidas do governo Bush" on 1/04/05 23:56:36
Elogio da dissidência
por Iroel Sánchez [*]
“É o exercício da democracia que faz que a nossa nação esteja preparada para a democracia” [1] , disse-nos, na melhor imitação de Cantinflas, o sr. George W. Bush no passado 6 de Novembro.
No entanto, nesta ocasião o seu discurso passou suspeitosamente desapercebido para os habituais coleccionadores de “bushismos” do Partido Democrata. O 20º aniversário da National Endownment for Democracy (NED) foi assim celebrado com um novo Plano de Democratização para o Médio Oriente.
A imprensa norte-americana revelou o acto sem procurar antecedentes nem fazer alusões incómodas à condição de canal financeiro da CIA que a NED ostenta desde o seu nascimento, como noticiou na altura o New York Times e denunciaram diversos intelectuais norte-americanos.
Meses depois, o democrata John Kerry fez honra à sua filiação e anunciou que aumentará os fundos para a mesma fundação.
Nem Bush nem Kerry, nem sequer o já citado Times, lembraram ao inominável Oliver North, artífice da NED e do Irão-Contras, “com o seu olhar firme, o seu inexorável sentido do dever e a sua palpável convicção de que o fim justificam os meios” [2] .
Os contra-revolucionários cubanos, os golpistas venezuelanos, os “governos interinos” no Haiti ou Iraque, e os novos-ricos que administram ONGs na Europa de Leste podem estar tranquilos: ganhe quem ganhar – republicanos ou democratas – o seu dinheiro está garantido. Como garantidos estiveram, também, os bombardeamentos ao Sudão, Afeganistão e Jugoslávia pelo sorriso democrático de Bill Clinton.
O dinheiro e a violência, a cenoura e o garrote, avalizam o certificado de exportação do modelo da “república de Wall Street”.
Se 83% dos norte-americanos apoiam as aspirações ecologistas, 86% está de acordo com o movimento pelos direitos cívicos, 94% apoia o controlo de armas, e 80% acredita que todos devem ter igual direito aos serviços de saúde e 88% desconfia dos executivos das corporações [3] …, a pergunta óbvia é porque é que as transnacionais podem governar os EUA e decidir os destinos do mundo sem deixar de chamar ao seu sistema de dominação “uma democracia”.
O clientelismo, que permite ao sistema político funcionar de maneira tão fechada como um ciclo termodinâmico perfeito (corporação-dinheiro-campanha mediática-governo para os ricos), juntamente com a leitura manipulada, mas triunfadora na Guerra Fria, de um conjunto de categorias – opinião pública, liberdade de imprensa, democracia…–, pressupõe absolutamente as equivalências impostas pela linguagem imperial como um grupo de verdades reveladas e inamovíveis.
A OPINIÃO PÚBLICA E A OPINIÃO PUBLICADA
A opinião pública é a opinião publicada nos meios de comunicação, que já não dependem de subscritores, leitores, telespectadores ou ouvintes, mas sim dos seus anunciantes.
Trabalham com notícias que procedem, em mais de 90% dos casos, das mesmas fontes transnacionais ou governamentais, quer dizer, directamente do dono ou do seu instrumento. Cada vez mais existe a impressão de se ver uma só televisão e um só jornal com diferentes apresentadores ou designs. É a uniformidade disfarçada de diversidade.
São esses meios que impõem a ideia do consumo como bem-estar, que por vezes seduziu o burocratizado socialismo europeu e fê-lo abandonar a ideia de propor alternativas ao capitalismo.
Das notícias à publicidade, as minorias – cada vez menores, mas cada vez mais ricas – exibem, em poderosíssimo “efeito demonstração”, como se deve viver, ou pelo menos como devemos aspirar a viver; democratizam-se os conselhos aos investidores e não o dinheiro para os investimentos.
A vitrina cresce e cresce, se bem que o cristal é cada vez mais grosso e está blindado. Consumir é o caminho para a liberdade, parece dizer-nos os media, na sua tarefa de converter aos cidadãos em consumidores, tão atentos às suas possibilidades no mercado que se desinteressem totalmente da política, a não ser no dia das eleições, em que deverão “escolher” entre os partidos-empresas, que se vendem pela televisão como qualquer artigo de consumo.
A democracia é eleições pluri-partidárias ou não é, se bem que seja também corrupção, clientelismo, apatia politica e abstencionismo.
Os “gurus” do pensamento trabalham destemidamente para garantir ao sistema que com o voto só muda a cor da mascara com que se tenta encobrir a dominação.
Estes intelectuais bem pensantes, tão profundamente descritos por Alfonso Sartre [4] , dizem mal do poder e orientam-nos para nos afastarmos dele, enquanto elogiam a empresa transnacional que os publica – sem pertencer ao poder?
Assim pastam felizmente no curral temático que os seus bem pagos “espaços de opinião” lhes permitem.
Ali, clamam pelo direito ao prazer da classe média venezuelana, sem se deterem no nada agradável retrocesso económico dos seus concidadãos do primeiro mundo; convertem automaticamente a emigração cubana em “exílio”, enquanto condenam ao “insilio” qualquer voz dissidente que dentro do seu próprio país denuncie os crimes e a intolerância que inundam de cadáveres as costas do seu paraíso; estes vizinhos de páginas repletas pelos anúncios classificados do sexo pago que se indignam com a prostituição alheia.
Sempre, desde os nossos países lhes chega, como anel para o dedo, uma ou outra voz desejosa de ver o seu nome em letra impressa para obter o aval de bom comportamento intelectual, servir de testemunho letrado para a campanha de ocasião e testemunhar que os negros, latinos e indígenas somos preguiçosos e corruptos, o que ao mesmo tempo explica que sejamos pobres, porque “ali todo a gente rouba”.
Magnifica notícia para aqueles que há já muito tempo estão a roubar o mundo!
A venda da social-democracia como opção de esquerda, operação só possível se se tiver memória fraca, e se esquecermos o artilheiro de multidões Carlos Andrés Pérez, ou as execuções extra-judiciais sob o governo de Felipe González, e se não fizermos muitas perguntas acerca de certos financiamentos da década de 70, que converteram partidos minoritários em poderosas máquinas políticas.
A CRUZ VERMELHA DA DIREITA
Se uma parte da esquerda eleitoral se limita a funcionar como Cruz Vermelha da direita, a que administra a crise enquanto legitima o sistema, é lógico que se deva preocupar com democracia em Cuba e Venezuela.
Cuba, como bem observou Noam Chomsky, é o país no mundo que mais agressões terroristas sofreu e soube enfrentá-las com mais participação de cidadãos e mais activismo político das massas, sem torturas nem execuções extra-judiciais.
A Venezuela é uma nação cujo presidente foi mais repetidamente eleito em menos tempo.
Mas o certificado de boa conduta política exige distanciamento daqueles que incomodam o império e exige, como disse Fidel na “introdução necessária” ao Diario del Che en Bolívia, “converter as organizações de luta do povo em instrumentos de conciliação com os exploradores internos e externos” [5] .
A imprensa liberal que qualifica o revelador documentário “Farenheit 9/11”, de Michael Moore, como um “ataque demolidor contra Bush”, silencia a profunda denúncia que o escritor e cineasta norte-americano faz da cumplicidade racista dos senadores democratas na fraude eleitoral, da utilização dos pobres como carne para canhão e o escandaloso divorcio entre a classe política e o povo norte-americano.
Os bem disciplinados colunistas, repórteres e críticos de cinema que nos ensinam a olhar para não ver e canalizam adequadamente a nossa indignação contra Bush, tentam evitar que questionemos o sistema: estejamos contra a guerra, inclusive contra Bush, mas nunca contra o capital.
Talvez aquela incomoda pergunta de Brecht nunca tenha sido formulada: “De que serve estar contra o fascismo – que se condena – se nada se diz contra o capitalismo que o origina?” [6] .
Definitivamente, para alguns bem pensantes o que se passa na Bolívia, Venezuela ou Palestina são conflitos entre guelfos e gibelinos, que resultariam insignificantes salvo pelo que com isso poderia recolher a literatura no futuro.
Estes aspirantes a escrever Divinas Comedias, deveriam perguntar-se se dentro de cinquenta anos haverá futuro, com o esgotamento das fontes energéticas, com mais dois mil milhões de habitantes nos países pobres e a deterioração do médio ambiente, que configuram a curto prazo a construção do inferno na terra.
Se estes temas, tão caros aos media, afloram, não é mais além das gretas de ocasião que abrem as contradições inter-oligarquicas, ampliadas pelas quadrilhas de intelectuais mediáticos na sua função legitimadora do sistema.
E quando isso acontece, os obedientes assalariados da linguagem “politicamente correcta” têm muito cuidado para empregar bem as palavras.
Não importa que “disidir” signifique, de acordo com a Real Academia Española, “separar-se da doutrina comum” [7] – será outra no nosso tempo a doutrina comum que não a proclamação da economia de mercado como o único modo de vida, ou de morte, possível? –; os milhões que protestam contra a exploração capitalista, a guerra ou os genocídios, nunca serão chamados dissidentes, mas sim “terroristas”, “globalifóbicos”, ou quanto muito ”bandos”, como tal podem-se reprimir, assassinar e torturar impunemente com as armas da democracia representativa, como vemos muitas vezes, seja em Itália, no Peru ou no Iraque.
Os Estados Unidos intervieram uma vez contra a Alemanha nazi e mais de 180 vezes contra países pobres. Apesar disso o capital linguístico da Segunda Guerra Mundial continua a servir na imprensa dos nossos dias, para que os invasores se possam converter em “aliados”, que salvarão os invadidos dos “crimes de guerra” cometidos por um “ditador” pertencente ao “eixo” do mal.
Apenas quinze anos após a “vitória” capitalista frente ao chamado socialismo real, desde o Sul, o mito neoliberal começa a derrubar-se. Se as ideias são decisivas para a construção de alternativas, é também essencial construir alternativas para a sua difusão.
As notícias, com excepção dos desastres naturais, não são casuais. É evidente que se está a impor uma agenda ao mundo, que se derrama em cascata desde os meios de elite (CNN, The New York Times …) até ao jornal duma pequena cidade de província.
O que pretenda mudar a agenda deve estar disposto a perder fontes de financiamento, anunciantes e distribuidores. Se isso não fosse suficiente estão as denúncias judiciais, os pleitos e as campanhas de descrédito.
No cenário ibero-americano, honrosas e escassíssimas excepções, como La Jornada do México, confirmam a regra que dita a morte, anunciada e ocorrida, de jornais dissidentes como O Diário [8] (com mais de mil horas de processos nos tribunais), Liberación [9] (asfixiado economicamente entre os bancos e os distribuidores) o Egin [10] (criminalizado e fechado pelo governo de José Maria Aznar), para só citar três exemplos de como funciona a liberdade de expressão para os que pretendem separar-se da “doutrina comum”.
A crescente concentração da propriedade sobre os meios de comunicação em umas poucas empresas e o controlo paralelo do negócio da publicidade, que já supera mil milhares de milhões de dólares anuais, confirmam-nos a antiga afirmação: uma vez mais todos os caminhos vão dar a Roma. Ainda que nos dias que correm haja muitos recursos intelectuais e financeiros empenhados em faze-los invisíveis.
Todos os caminhos vão dar a Roma. No entanto existem muitos poucos trilhos e veredas entre nós próprios.
Um dos principais resultados da dominação mediática e cultural foi a fragmentação e incomunicação entre os que produzem informação e conhecimentos opostos à ordem existente.
Assim, a criação de um falso, mas aparentemente inevitável “sindroma da solidão” como destino manifesto da dissidência intelectual, é uma das armadilhas com que contam os dominadores para desmobilizar o pensamento crítico e condena-lo eternamente a ficar à margem.
A INTERNET
A Internet, ainda que também invadida pelas grandes empresas, brindou aos movimentos sociais a possibilidade de colocar, de imediato e a baixo custo, a informação que oculta a inundação mediática.
Mas, é necessário tecer na prática as redes que surgiram na Internet. O intercâmbio de publicações, a circulação de livros, a coordenação entre as pequenas editoras, entre as rádios e televisões comunitárias, são acções urgentes e imprescindíveis. Unir o pequeno desde onde se resiste à hegemonia imperial e levantar o grande, ali onde avance a hegemonia revolucionária.
A ditadura do pensamento único – significará alguma coisa para os meios de comunicação, a oculta coincidência de “pensamento único” e “doutrina comum” versus “dissidência?” – impôs o seu código binário: ou comungas ou não existes.
Perante isso, Hugo Chávez, em “rebelião contra as oligarquias e contra os dogmas revolucionários” [11] – para dize-lo desde a definição guevarrista do 26 de Julho –, lançou a ideia de que os pobres, os esquecidos, os silenciados, tenham o seu próprio canal, a sua “CNN do Sul”. Coloca-nos assim, perante a possibilidade de contar, num futuro que desejamos próximo, com um poderoso meio alternativo mas já não marginal.
A derrota administrada na Venezuela ao golpismo mediático constitui uma lição para todos os que no mundo decidem da ordem da nova Roma.
Num país onde os media se tornaram, com toda a claridade, partidos políticos ao serviço da oligarquia crioula e do governo norte-americano, está-se a demonstrar que, apesar do dinheiro da National Endownment for Democracy e do “jornalismo liberal” do The New York Times, CNN, El País e porta-vozes locais, pode-se ganhar e preservar o poder para as maiorias. O que significa começar a ganhar também a batalha dos meios de comunicação.
Nestes tempos de Internet e exclusões, de satélites e fome, Carlos Max, sorridente e subversivo, sussurra nos ouvidos do mundo: “dissidentes de todos os países, comuniquem-se”.
Notas
(1) George W. Bush, Declarações do presidente no XX aniversário da National Endownment for Democracy, Office of the Press Secretary, Washington, 6 de Novembro de 2003 http://www.whitehouse.gov/news/releases/2003/11/20031106-2.es.html .
(2) Neil Berry, “Encounter”, London Magazine, fevereiro-março de 1995. Citado por Frances Stonor Saunders em La CIA y la guerra fria cultural, Editorial Debate, S.A., Madrid, 2001, p.207.
(3) Michael Moore, Qué han hecho con mi país, tío?, Ediciones B.S.A., Madrid, 2004. pp. 176-181, estes dados aparecem extensamente documentados em “Notas y fuentes”, pp. 251-253.
(4) Alfonso Sastre, La batalla de los intelectuales, Editorial Ciencias Sociales, La Habana, 2003, pp. 59-91.
(5) Fidel Castro, “Una introducción necesaria”, em Ernesto Che Guevara, El Diario del Che en Bolivia, Instituto del Libro, La Habana, 1968, p. XIII.
(6) Bertolt Brecht , “Las cinco dificultades para decir la verdad”, Boletín del Seminario de Derecho Político, nº 29-30, novembro de 1963, Salamanca. Em português em http://resistir.info/brecht/brecht_a_verdade.html .
(7) Real Academia Española, Diccionario de la Lengua Española, Vigéssima segunda edição, http://www.rae.es/ .
(8) Miguel Urbano Rodrigues, “O Diário” Acusa!. Mais de mil horas nos Tribunais, Editorial Caminho, SA, Lisboa, 1984.
(9) Andrés Sorel, Liberación. Desolación de la utopía, Ediciones Libertarias, Madrid, 1985.
(10) Euskadi Información, La Ley del silencio, Birsortu S.l., Hernani, 1998.
(11) Ernesto Che Guevara, El Diario del Che en Bolivia, Instituto del Libro, La Habana, 1968, p. 256.
Presidente do Instituto Cubano do Livro. Comunicação apresentada ao Encontro Internacional “Civilização ou Barbárie”, Serpa, Portugal, Setembro de 2004. Tradução de Concha Lorenzo.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info
18/Out/2004
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