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observador curioso
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Date Posted: 30/03/05 15:01:48
In reply to:
Fernando Penim Redondo
's message, "A metamorfose digital da mercadoria" on 30/03/05 11:40:49
Diz-nos Redondo que o valor de troca das mercadorias no digitalismo (ou novo sistema de produção assente nas tecnologias da informação) não depende tanto da quantidade de trabalho socialmente dispendido para prroduzir o bem mas sobretudo do conhecimento empregue pelos produtores e, pasme-se, pelos consumidores que o adquirem. Assim para calcular a margem de lucro de um lag top, por exemplo, há que ter também em conta o tempo gasto por quem o compra em adquirir os conhecimentos que op levam a usá-lo. Interessante mas muito pouco rigoroso sob o ponto de vista da economia.
>A riqueza das sociedades nas quais domina o modo de
>produção capitalista aparece como um “imenso
>acumulamento de mercadorias”, sendo a mercadoria
>singular a sua forma elementar. A nossa investigação
>começa, por isso, com a análise da mercadoria.
>(primeira frase de O Capital de Karl Marx, Edições
>Avante 1990).
>
>
>Marx elegeu a mercadoria como categoria para ponto de
>partida, quer na Crítica da Economia Política (1859)
>quer em O Capital (1867), da caracterização do modo de
>produção capitalista. Não será portanto de estranhar
>que se faça outro tanto ao analisar a transição do
>Capitalismo para o Digitalismo.
>
>A revolução tecnológica, associada à representação
>digital da informação, está a abrir caminho para a
>emergência de um novo modo de produção, o Digitalismo.
>
>“Esse novo modo de produção cuja base material
>compreende as redes de comunicação de dados, a rádio e
>televisão difundidas pelo espectro radioeléctrico ou
>por cabo, todo o tipo de autómatos desde os
>micro-chips aos super-computadores, os softwares
>aplicacionais, as bases de dados e os sistemas
>operativos, e todas as tecnologias conexas que com
>eles activamente interagem e deles cada vez mais
>dependem, realiza-se pela captura, armazenamento,
>tratamento e difusão da informação necessária à
>produção de conhecimento.” (in Do Capitalismo para o
>Digitalismo, Fernando Penim Redondo e Maria Rosa
>Redondo, Campo das Letras 2003)
>
>Esperamos demonstrar que a metamorfose digital da
>mercadoria constitui uma ruptura cuja magnitude
>indicia o surgimento de um novo modo de produção.
>
>Novo modo de produção não significa necessariamente o
>advento de relações de produção justas por isso
>importa equacionar as novas condições em que a luta
>pelo progresso humano virá a travar-se.
>
>
>
>A mercadoria segundo Marx
>
>
>
>Marx define a mercadoria na primeira secção, do Tomo
>I, do Livro Primeiro de O Capital (1867):
>
>
>
>
>1. “A mercadoria é, antes de mais, um objecto
>exterior, uma coisa, que, por meio das suas
>propriedades, satisfaz necessidades humanas de
>qualquer espécie. A natureza dessas necessidades, quer
>surjam, p. ex., do estômago ou da fantasia, em nada
>modifica a questão.” (Edições Avante 1990, pag. 45).
>
>
>Nesta parte da definição admite-se que as necessidades
>humanas tanto podem resultar de processos básicos
>“automáticos” (por ex. necessidade de alimentação)
>como de mecanismos mentais complexos.
>
>A utilização da palavra fantasia em contraponto ao
>estômago, mesmo que não tenha sido intencional, pode
>indiciar que Marx desvalorizava as necessidades
>“intelectuais” comparativamente com as necessidades
>“físicas”.
>
>
>
>
>2. “A utilidade de uma coisa fá-la um valor de
>uso...Condicionada pelas propriedades do corpo da
>mercadoria, ela (a utilidade) não existe sem
>ele...Este seu carácter não depende do facto de a
>apropriação das suas propriedades de uso custar ao
>homem muito ou pouco trabalho” (Edições Avante 1990,
>pag. 46)
>
>
>Portanto a utilidade é carácter da coisa pelas
>propriedades do seu corpo e independente da quantidade
>de trabalho humano necessária para a obter.
>
>A utilidade ou existe ou não existe (nesse caso a
>coisa é inútil) e não é aflorada sequer a hipótese de
>uma coisa ser mais ou menos útil.
>
>Também não é posta a hipótese de uma coisa ser útil
>para uns indivíduos e não para outros.
>
>
>
>
>3. “O valor de troca aparece, antes de mais, como a
>relação quantitativa, a proporção na qual os valores
>de uso de uma espécie se trocam por valores de uso de
>outra espécie, uma relação que muda constantemente com
>o tempo e o lugar.” (Edições Avante 1990, pag. 46)
>
>
>Esta caracterização do valor de troca situa-se
>claramente num contexto social em que a generalidade
>dos trabalhadores produz bens “trocáveis” (mesmo que
>por intermédio da moeda) e precisa de saber que
>quantidade deve entregar para obter um outro bem
>pretendido. Na nossa época a generalidade dos
>trabalhadores, participantes de processos de produção
>complexos em que impera a manipulação da informação em
>fases sucessivas, teriam muita dificuldade em
>identificar os resultados “trocáveis” do “seu
>trabalho”.
>
>
>
>
>4. “Um valor de uso ou bem, portanto, apenas tem um
>valor (de troca) porque nele está objectivado ou
>materializado trabalho humano em abstracto...A
>quantidade de trabalho mede-se ela própria pela sua
>duração no tempo, e o tempo de trabalho, por seu
>turno, possui como padrão de medida determinadas
>partes de tempo, como hora, dia, etc.” (Edições Avante
>1990, pag. 49)
>
>
>Ao relacionar o valor de troca com o tempo de trabalho
>“materializado” nas mercadorias Marx situa-se
>claramente no contexto social indicado em 3.
>
>Faz todo o sentido comparar o tempo que alguém demorou
>a produzir um bem com o tempo que lhe “custaria”
>produzir um outro bem que pode ser obtido por troca
>com o primeiro.
>
>
>
>5. “Tempo de trabalho socialmente necessário é tempo
>de trabalho requerido para produzir qualquer valor de
>uso nas condições de produção dadas, socialmente
>normais, e com grau social médio de habilidade e
>intensidade do trabalho.” (Edições Avante 1990, pag.
>50)
>
>...“Portanto, é apenas o quantum de trabalho
>socialmente necessário para a produção de um valor de
>uso que determina a magnitude do seu valor (de troca)“
>(Edições Avante 1990, pag. 50)
>
>
>Estas definições têm por objectivo evitar que as
>diferenças entre os tempos individuais de produção
>levassem a que a uma mercadoria produzida por um
>trabalhador mais lento correspondesse um valor de
>troca superior já que o seu tempo de produção teria
>sido maior.
>
>Tem implícito o convencimento de que os potenciais
>“trocadores” conhecem o tempo de produção em condições
>“socialmente normais” mesmo que não conheçam o tempo
>gasto num bem específico, por um produtor específico,
>quando pretendem adquiri-lo.
>
>
>
>
>6. “Originariamente, a mercadoria surgiu-nos como algo
>biface: valor de uso e valor de troca. Verificou-se
>mais tarde que também o trabalho, na medida em que
>está expresso no valor, já não possuía as mesmas
>características que lhe cabiam como gerador de valores
>de uso. Esta natureza biface do trabalho contido na
>mercadoria foi em primeiro lugar apontada criticamente
>por mim. Como este ponto é o fulcro em volta do qual
>gira a compreensão da economia política, temos agora
>de o esclarecer mais de perto.” (Edições Avante 1990,
>pag. 52)
>
>...“Para se tornar mercadoria o produto tem de ser
>transferido por meio de troca para o outro a quem
>serve como valor de uso. Finalmente nenhuma coisa pode
>ser valor sem ser objecto de uso. Se for inútil, então
>também o trabalho nela contido é inútil, não conta
>como trabalho e não forma, por isso, qualquer valor”
>(Edições Avante 1990, pag.52)
>
>
>O valor de uso e o valor de troca são as duas faces da
>mercadoria mas não têm uma convivência pacífica;
>enquanto o valor de uso repousa na faceta qualitativa
>do trabalho o valor de troca baseia-se apenas no
>aspecto quantitativo do trabalho. Como se pode ver
>Marx considerava esta questão fulcral.
>
>
>
>
>7. "Um casaco não se troca por um casaco, um valor de
>uso não se troca por esse mesmo valor de uso” (Edições
>Avante 1990, pag. 53)
>
>
>Esta afirmação é coerente com a citada em 2. e
>constitui uma boa ilustração do que se referiu quanto
>à ausência do grau de utilidade, ou mesmo de um
>universo de utilidade, para os bens. Pela afirmação
>citada acima parece querer defender-se que um casaco é
>tão útil como outro casaco qualquer, seja para quem
>for.
>
>
>
>
>
>A mercadoria no nosso tempo
>
>Históricamente os homens relacionaram-se com a
>mercadoria de formas diferentes a saber:
>
>Antes do advento da comunicação de massas – as
>decisões de aquisição eram, na maior parte dos casos,
>tomadas com base na informação projectada pela própria
>mercadoria e o acto de trocar/comprar era efectuado na
>presença da mercadoria.
>
>Após o advento da comunicação de massas – a decisão é
>geralmente tomada com base numa “imagem” publicitária
>da mercadoria (meta-informação) mas a compra ocorre na
>presença da mercadoria.
>
>Na era digital – a decisão tem cada vez mais como base
>“representações” digitais da mercadoria (por exemplo
>na Internet) e a compra efectua-se, cada vez mais, sem
>a presença da mercadoria.
>
>A fantástica capacidade digital para multiplicar
>réplicas de representação da mercadoria levou ao
>extremo o processo de separação da decisão e do acto
>da compra relativamente à mercadoria. A mercadoria
>pode até nem existir senão a partir do momento em que
>decidimos adquiri-la já que pode, ela própria, ser
>objecto de replicação quase instantânea com recurso a
>quantidades quase nulas de trabalho vivo. A distinção
>entre produção e circulação esbate-se ou extingue-se.
>
>Pode dizer-se que em muitos casos a maior parte do
>trabalho, e do custo, ocorrem na produção das
>representações da mercadoria e não da própria
>mercadoria. Em qualquer caso quando hoje falamos de
>mercadoria é preciso considerar o conjunto constituído
>pela mercadoria e pelas suas representações no mercado.
>
>Se no passado as mercadorias já comportavam muito
>trabalho que não era directamente produtivo
>(concepção, engenharia, design, estudos de mercado)
>hoje esse trabalho, independente das quantidades
>produzidas, contribui em muito maior escala para o
>valor das mercadorias já que ocorre também ao nível
>das suas representações. Torna-se portanto quase
>impossível ter o tempo de trabalho como critério de
>valor das mercadorias.
>
>Os consumidores não só tomam as suas decisões sobre
>mercadorias ausentes como estão cada vez mais perante
>processos de escolha entre mercadorias “equivalentes”,
>que presumivelmente terão tempos socialmente
>necessários de produção equivalentes. Por exemplo a
>selecção de um detergente, entre vários, não pode ser
>feita com base no tempo socialmente necessário para os
>produzir.
>
>Marx dizia que a troca de mercadorias com diferentes
>valores de uso que ocorre entre os homens significa
>que algo as torna “equivalentes” e que essa
>equivalência advém da quantidade de trabalho humano
>incorporado; nós dizemos que a escolha de um entre
>vários produtos com “tempos socialmente necessários”
>de produção similares significa que existe algo, para
>além do tempo, que motiva essa escolha.
>
>Se o tempo deixa de ser um critério de escolha (de
>valor) para os consumidores e se apesar de tudo eles
>têm que escolher, e escolhem, umas mercadorias e não
>outras então é necessário encontrar a fundamentação
>dessas decisões. Parece legítimo concluir que decidem
>no convencimento de que umas mercadorias satisfazem
>melhor as suas necessidades do que outras, ou seja,
>que têm valores de uso diferentes, ou maiores. As
>próprias necessidades dos consumidores são, como todos
>sabemos, “construídas” pelas mais variados mecanismos
>de comunicação.
>
>Aquando da satisfação das necessidades básicas os
>homens socorrem-se de mecanismos mentais complexos e
>socialmente determinados (para responder à necessidade
>de alimentação come-se isto e não aquilo, cozinha-se
>de uma forma e não de outra, por exemplo).
>
>As decisões de compra e as escolhas subjacentes são
>“actos de conhecimento” no sentido em que resultam do
>tratamento da informação contida nas representações
>das mercadorias. Essa informação não é mais do que o
>resultado dos “actos de conhecimento” executados pelos
>trabalhadores que conceberam e executaram as referidas
>representações.
>
>Este tipo de trabalho, não repetitivo e de resultados
>imprevisíveis, coaduna-se mal com as relações, hoje
>correntes, de trabalho remunerado por salário
>correspondente a uma dada unidade de tempo.
>
>É hoje claro que a utilidade das mercadorias pode
>existir ou não, e em graus diferentes, para diferentes
>seres humanos (há quem se recuse a comprar televisão
>ou automóvel, por exemplo) e pode ser diferente para
>mercadorias que vulgarmente são consideradas
>equivalentes (com os casacos mencionados por Marx).
>
>Só neste sentido pensamos ser válida a tese de que
>estamos em transição para uma sociedade do
>conhecimento o que impõe a revisão do esquema de valor
>de Marx por forma a compreender, e intervir com
>eficácia, neste novo modo de produção.
>
>Há que olhar para o valor de troca não como resultante
>do tempo de trabalho mas como uma consequência da
>qualidade do trabalho que gerou os valores de uso;
>como grandeza dependente dos “actos de conhecimento”
>dos trabalhadores e do seu reflexo nos “actos de
>conhecimento” dos consumidores.
>
>Só assim poderemos forjar relações de produção mais
>justas e muito mais produtivas que era precisamente o
>que Marx pretendia.
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