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Subject: O jogador de xadrez


Author:
Correia da Fonseca
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Date Posted: 31/03/05 22:55:54

O jogador de xadrez
Correia da Fonseca, Avante, 31/03/05

Há décadas atrás, o norte-americano Bobby Fischer, jogador de xadrez, surgia aos olhos do mundo como mais um sinal da superioridade do «mundo ocidental» sobre o bloco socialista: num encontro realizado em Reikjavic, capital da Islândia, Fischer bateu o soviético Boris Spassky e sagrou-se campeão mundial.

Nunca um cidadão dos Estados Unidos alcançara o título mundial da modalidade, o que reforçava o encanto dos aficcionados USA perante o feito.

Durante vinte anos, essa aura durou praticamente intacta, até que um dia o campeão aceitou ir defrontar Spassky no Montenegro, território da antiga Jugoslávia.

Estava-se em 92, e já então os Estados Unidos haviam decidido que a Jugoslávia era um país para abater e cortar em pedaços, desse modo se possibilitando o avanço da hegemonia norte-americana bem para dentro do Leste, em direcção às fronteiras da antiga URSS.

O plano da destruição da Jugoslávia incluía um embargo total que não abria excepção sequer para competições de carácter desportivo, e por consequência estava Bobby Fischer proibido de ir jogar com Boris Spassky no Montenegro.

Por lhe parecer que a proibição era um bocado exorbitante, por não gostar de obedecer a disparates, mais provavelmente porque lhe faria imenso jeito ganhar o prémio de três milhões de dólares destinados ao vencedor, de todo improvavelmente por razões ideológicas e cívicas, Bobby Fischer foi mesmo a Montenegro, venceu Spassky e arrecadou o dinheiro.

A insubmissão provocou a cólera dos poderes norte-americanos que o fulminaram com várias medidas, o ameaçaram com dez anos de prisão e lhe anularam o passaporte.

Fischer passou a viajar com documentação inválida, beneficiando talvez da tolerância de algumas autoridades. Entretanto, terá passado a olhar com olhos mais lúcidos o comportamento das administrações norte-americanas ou mais simplesmente a fazer declarações sem a auto-censura que antes as conveniências imporiam.

Assim, diz-se que achou justificado o 11 de Setembro em face do carácter criminoso da política externa dos Estados Unidos. Pelos vistos, Fischer, que nunca tivera o que se chama «um bom feitio», azedara muito.

Estando no Japão em Julho de 2004 e tentando sair de lá exibindo o seu passaporte inválido, foi preso e mantido nas prisões japonesas durante oito meses, parece que a pedido dos USA que se preparariam para pedir a sua extradição.

Aí interveio a Islândia, o país onde se tornara campeão do mundo em 1973: talvez por reconhecer que era sinistra a perseguição movida a Fischer por pouca coisa, talvez também por algum reconhecimento pela visibilidade internacional que Fischer e Spassky haviam conferido ao país, o governo de Reikjavic concedeu-lhe um passaporte islandês que permitiu a sua saída da prisão e do país.

No aeroporto de Tóquio, sem sequer tentar dissimular o seu célebre «mau feitio» e muito menos as suas legítimas razões de queixa, Bobby Fischer, ex-símbolo da superioridade do Ocidente «livre», afirmou que George Bush e Koizumi, o primeiro-ministro japonês, são criminosos de guerra que «deviam ser enforcados».

Convenhamos que é uma opinião largamente partilhada, pelo menos quanto a Bush.

Um curioso delito

Vimo-lo na TV, a Bobby Fischer, numa breve reportagem feita no aeroporto: pareceu-me surpreendentemente velho, de longas barbas brancas como um Pai Natal arruinado.

Tudo indica que aquele homem não vai acabar bem, num tranquilo bem-estar de campeão reformado, ao contrário do que foi o destino de muitos mestres de xadrez.

Poderá dizer-se que para esse previsível desenlace final muito terá contribuído o seu temperamento que anos de acumulados mimos terão tornado ainda mais difícil, mas o certo é que tudo teria sido diferente se em 92 ele tivesse aceite o «diktat» que o proibia de jogar com o grande rival numa cidade que não era nem americana nem russa, mas sim neutra, como mandam as regras.

O seu crime foi sustentar que um grande encontro de xadrez não pode ser tratado como lance de um outro xadrez, o da guerra fria que, ao contrário do que geralmente se supõe, não acabou totalmente com a derrota da URSS e o seu desmembramento.

O caso é que Bobby Fischer queria jogar xadrez, coisa que ele sabe fazer muito bem, e com isso desobedeceu à política externa dos Estados Unidos num aspecto em que ela se mostrou mais indecentemente totalitária.

Se calhar, Fischer desgraçou então, irreversivelmente, a sua vida. Quanto a Bush, é claro que nunca será enforcado, por mais criminoso de guerra que seja.

Mas é verdade que ainda subsistem no mundo milhões que olham e ouvem Fischer na TV, olham e ouvem Bush, e sabem entender o que se passa.

Esses são a promessa de que chegará o tempo em que um outro campeão poderá ir jogar xadrez a um qualquer Montenegro sem correr o risco de ser perseguido pela administração norte-americana.

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