| Subject: "perdi a vista mas conservo a visão" |
Author:
Luís Carvalho
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Date Posted: 16/03/05 22:06:31
(in www.comunistas.info)
“Perdi a vista mas conservo a visão”
Falo de Henry Winstom.
Tinha 22 anos quando aderiu ao Partido Comunista dos Estados Unidos da América, em 1933. O seu país, já então a principal economia mundial, atravessava uma profunda crise económica, com a produção industrial a cair cerca de um terço e o desemprego a atingir 27%, no meio de milhares de falências. Os camponeses e os operários eram os mais afectados. Milhões de desempregados vagueavam pelas grandes cidades, sobrevivendo apenas à custa de esmolas. Cresciam bairros de lata, a vagabundagem e a criminalidade.
Depois de, uma década antes, ter sido ilegalizado e sofrido uma dura repressão, em que dezenas de milhares de militantes ou simpatizantes seus foram presos, o Partido Comunista dos Estados Unidos estava então no que seria, até hoje, o pico da sua influência. Irrisória a nível nacional - cem mil votos, 0,3% do eleitorado - mas concentrada e com alguma relevância entre os operários das cidades de Nova Iorque e Chicago.
Para um jovem operário negro como Henry Wistom, o PC norte-americano era, apesar de pequeno e sectário, um espaço de luta pela justiça social e contra o racismo. Por ali Winstom foi um dos organizadores de uma marcha de desempregados sobre a capital norte-americana, Washington, e de uma campanha em defesa dos operários negros. Com apenas 25 anos de idade já era membro do comité central do partido.
Na Segunda Guerra Mundial, o fascismo, essa forma de ditadura terrorista, tentou conquistar o mundo. Perante isso, Winstom alistou-se como voluntário nas forças armadas norte-americanas, tendo participado em combates contra as tropas fascistas da Alemanha e suas aliadas japonesas. Durante esta guerra, o PC norte-americano conquistou novas simpatias em círculos intelectuais e operários.
Mas logo começou a disputa entre as duas superpotências saídas da guerra, os Estados Unidos e a União Soviética, cujo regime era então erradamente considerado comunista e admirado pela generalidade dos partidos comunistas do mundo.
Ora o governo norte-americano logo apontou todos os seus concidadãos comunistas como sendo ‘anti-americanos’ e agentes ou espiões da União Soviética. Proibiu comunistas de serem funcionários do governo ou dirigentes sindicais. E apelou ao povo norte-americano que denunciasse à polícia todos os ‘suspeitos’.
Estabeleceu-se um clima de paranóia. Os ‘denunciadores’ apontavam, de mistura, os nomes dos comunistas, daqueles que haviam tido contactos com comunistas, de pessoas das relações de gente que se havia dado com comunistas, nomes de estrangeiros, e de pessoas de quem simplesmente não gostavam. Abriram-se processos. Muitos ‘suspeitos’ viram as suas carreiras profissionais arruinadas. Houve pessoas condenadas sem provas (inclusivamente à morte). Uma dessas pessoas foi Henry Winstom.
Enquanto estava preso, Winstom padeceu de um tumor cerebral. Mas as autoridades não o deixaram receber o devido tratamento médico. Só depois de uma campanha internacional pela sua libertação é que o então presidente John Kennedy lhe concedeu um ‘perdão’.
Mas era já tarde de mais. O tumor afectara o nervo óptico. Winstom estava irremediavelmente cego. Mas não desistiu dos seus ideiais. Ao sair da prisão, declarou: “tiraram-me a vista, mas não me tiraram a visão!”. Entre outras causas, viria a destacar-se na solidariedade com a luta contra o regime racista que vigorava na África do Sul.
Em 1966, Henry Winstom foi eleito para o cargo honorífico de presidente do Partido Comunista dos EUA, que ocupou até falecer, em 1986.
Já não chegou a conhecer, por pouco, o descalabro dos regimes erradamente ditos comunistas da União Soviética e seus satélites, que havia apoiado. Nem o fim do regime racista da África do Sul, que havia combatido.
Não conheceu também a profunda crise em que caiu o comunismo, enquanto ideal e enquanto movimento político - que tantos abandonaram e outros vão mantendo com algumas formas e concepções erradas e ultrapassadas. Mas que, apesar de um percurso algo contraditório e acidentado, permanece válido, ensaiando caminhos novos e já recuperando algumas forças.
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