VoyForums
[ Show ]
Support VoyForums
[ Shrink ]
VoyForums Announcement: Programming and providing support for this service has been a labor of love since 1997. We are one of the few services online who values our users' privacy, and have never sold your information. We have even fought hard to defend your privacy in legal cases; however, we've done it with almost no financial support -- paying out of pocket to continue providing the service. Due to the issues imposed on us by advertisers, we also stopped hosting most ads on the forums many years ago. We hope you appreciate our efforts.

Show your support by donating any amount. (Note: We are still technically a for-profit company, so your contribution is not tax-deductible.) PayPal Acct: Feedback:

Donate to VoyForums (PayPal):

1/06/26 22:18:05Login ] [ Contact Forum Admin ] [ Main index ] [ Post a new message ] [ Search | Check update time | Archives: 1234567[8]9 ]
Subject: A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de Fevereiro. Resposta ao Fernando


Author:
Jorge Nascimento Fernandes
[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]
Date Posted: 2/03/05 11:48:51

A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de Fevereiro. Resposta ao Fernando Redondo

“A melhor distinção direita-esquerda que conheço é: todos dizem desejar o bem público mas para a direita ele é alcançável sem acabar com o capitalismo e para a esquerda é imprescindível a transformação radical do sistema. É portanto à luz desta definição que eu avalio os resultados de 20 de Fevereiro.” (FPR)

Essa não é, nem pode ser, a melhor definição de esquerda-direita. Se assim fosse só caberia nela o PCP e mesmo assim só em teoria, como partido ML, nunca em função da sua prática política. Há muito que o PS abandonou qualquer transformação radical do sistema e o BE não me parece que defenda a transformação radical do sistema. O próprio PCP, apesar de defender a sociedade comunista como objectivo último, tem como objectivo imediato uma “democracia avançada”, que não é com certeza uma proposta de transformação radical do sistema. Mas sobre o PCP e a sua política esquizofrénica, de partido ML e simultaneamente social-democrata, já escrevi aqui alguns textos, não penso voltar ao assunto. Portanto caro Fernando ou formas um Partido novo, de facto “mesmo de esquerda”, ou então tens a terminação, votando no PCP.

“havia no dia 20 de Fevereiro mais portugueses convencidos da necessidade da superação do capitalismo, dispostos a propiciar a emergência de uma nova forma de produzir em sociedade, do que no dia 20 de Janeiro ?” (FPR)

A resposta é obviamente não, nem era isso que estava em causa. Só num perfeito delírio economicista alguém poderia acreditar que os portugueses iriam votar naqueles partidos que se propunham superar o capitalismo, com vista a propiciar uma nova forma de produzir em sociedade. Já pensaste o que aconteceria a um partido cujo programa político fosse propor aos eleitores o que tu defendes. Não passaria de uma curiosidade exótica, tão deslocada da realidade como o POUS da Carmelinda Pereira.
Ou seja, caro Fernando, na tua obsessão de reduzir a experiência política a novos modos de produção em sociedade, que tu almejas que esteja próxima, esqueces que a política tem uma especificidade própria, que aquilo que se propõe aos eleitores é uma proposta política realizável num espaço de tempo curto, que possa ser politicamente agregadora de grandes massas populares. Se conheceres a história do Século XX sabes que nenhum partido ou plataforma eleitoral de esquerda propôs objectivos tão abstractos e tão vagos como aqueles que tu apresentas, nem sequer na actual conjuntura política portuguesa era isso que estava em causa. Tu perdes-te na tua imaginação económica, desce à Terra e pensa que, para se transformar a sociedade, é preciso primeiro ter um programa político.

“Até penso que grande parte dos votantes dos partidos de esquerda nem sequer associam o PSD e o CDS ao governo Santana/Portas que tão claramente mostraram rejeitar. Grande parte dos dirigentes do PSD saem até prestigiados pela mão da esquerda desta curta experiência “santanista” (lembramos Pacheco Pereira, Marcelo, Cavaco, Manuela Ferreira Leite, António Borges e muitos outros) e constituem-se como perigosos inimigos futuros.

A culpa disto tem que ser atribuída àqueles que, por sofreguidão do poder, concentraram todos os trunfos eleitorais na exploração, até à náusea, das “peripécias santanistas”, tirando partido de uma fama longamente construída do “play-boy” e explorando a tendência portuguesa para a inveja (como explica Fernando (José) Gil).”
(FPR)

Tens uma tendência irremediável para a simplificação da vida política portuguesa. Como lês os comentadores e vês as peripécias dos políticos nas televisões, associas tudo a meras questões de opinião, de preconceitos, de “fait-divers”, esquecendo que por detrás de tudo isto há interesses económicos, grupos sociais, movimentos e ideologias políticas, que por debaixo dos epifenómenos mediática se movem no interior da sociedade.
Santana representou em determinado momento a incapacidade da direita de resolver a seu favor a crise económica e política existente. Santana era um cabo de guerra de opereta, que pela sua mediocridade, era incapaz de conduzir os exércitos a bom porto. Nesse sentido, parte do seu Partido afastou-se dele e retirou disso os dividendos políticos indispensáveis para continuar a política de direita, mesmo que para isso fosse necessário colaborar com o PS ou permitir a sua ascensão. O inverso foi obviamente verdadeiro. Hoje, conseguida a maioria absoluta por aquele partido, logo um conjunto de figurões vêm cobrar o apoio prestado, exigindo que governe ao “centro”. Coisa que provavelmente o PS fará com muito gosto.

“Alguns dirão que sem este oportunismo a esquerda não teria vencido as eleições mas cabe perguntar se esta vitória serve para alguma coisa. Cabe perguntar se vencer sem um claro programa de transformações progressistas não redundará, como no passado, numa nova machadada na esperança que os portugueses deveriam depositar na esquerda (a desilusão que percorre a sociedade brasileira na sequência da eleição de Lula da Silva é ilustrativa deste perigo).
Quando falo de transformações progressistas estou a pensar na definição de esquerda apresentada mais acima, numa mudança de paradigma sócio-económico, e não do “Estado Social” que é hoje, por falta de imaginação, a bandeira de todos os partidos à esquerda do PSD. Temos em Portugal um partido que se chama “social-democrata”, o PSD, mas aqueles que realmente defendem a social-democracia, entendida como “capitalismo+estado social”, são o PS, o PCP e o BE.”
(FPR)

Voltamos ao mesmo, se os partidos à esquerda do PS propusessem unicamente a mudança de paradigma sócio-económico, ou seja, de modo de produção, seriam inevitavelmente derrotados e, mais do que isso, não responderiam aos interesses imediatos, e sublinho imediatos, da sua base social de apoio.
Depois vem a tua raiva, contra o Estado Social. Como é evidente, o PSD não é um partido social-democrata e o PS, dada a sua fraca ligação ao meio sindical e a sua história anterior ao 25 de Abril (partido continuador da tradição republicana), nunca foi um partido assumidamente social-democrata, como durante anos essa expressão foi entendida na Europa capitalista.
Quanto à definição que dás de social-democracia, sendo em parte verdadeira, reduz a uma fórmula simplista uma complexa problemática que atravessou o Século XX e que foi um dos dilemas das classes trabalhadores nos países de capitalismo avançado (reforma ou revolução, tendo estes optado pela reforma).
Hoje, o Estado Social está debaixo da ofensiva desencadeada pela direita, mas igualmente da “terceira via” blaireana, de que o Sócrates é um epígono. Duas recentes entrevistas na televisão, uma, de um politólogo de serviço, no “Diga lá excelência” (TV2, RR e Público) e outra do Joaquim Aguiar a Maria João Avilez, no Domingo passado, permitem com clareza determinar quais são as opções da direita e como, ao não compreendermos o que é hoje o Estado Social, damos o braço, mesmo que involuntariamente, à sua ofensiva contra o mesmo.

“Por muito que invoquem o “marxismo-leninismo” ou as “propostas fracturantes” quer o PCP quer o BE (do PS nem vale a pena falar) têm vindo a capitular perante o modelo da social-democracia. Desapareceram as referências à superação do capitalismo que é cada vez mais contestado com base nas injustiças da redistribuição e não por constituir um empecilho para o desenvolvimento da espécie humana.
Trata-se mais de “cuidar dos pobrezinhos” do que de abrir caminho para um novo patamar da humanidade em que os “pobrezinhos” sejam um anacronismo.”
(FPR)

A argumentação que tenho vindo a desenvolver responde a este texto. No entanto, gostaria de lembrar que o Bloco de Esquerda propôs nestas eleições mais qualquer coisa do que propostas fracturantes, que foram a sua imagem de marca, mas que hoje deixaram de ser, por razões óbvias, o seu principal contributo para o debate democrático à esquerda.
Não deixaria de terminar sem citar algumas intervenções minhas aqui neste fórum que respondem, penso eu, às questões que tu pões, assim:

“Hoje as preocupações com a pobreza, sendo legítimas, tanto fazem parte do discurso do CDS, como da Igreja, e não satisfazem os eleitores que votam à esquerda do PS de Sócrates. Hoje o discurso sobre a defesa do Estado Social, da saúde, da educação, ou da segurança social públicas, mas igualmente a luta contra a flexibilização e a competitividade baseada nos baixos salários, na facilidade de despedimentos ou nos contratos a prazo, ou seja, a luta contra a ofensiva do patronato e o avanço ideológico do neoliberalismo, é neste momento uma bandeira muito mais perceptível pela esquerda e pelos seus votantes, do que a defesa piedosa dos mais "desfavorecidos".” (JNF)

“Hoje não se pode continuar a caracterizar o Estado moderno com a simples ditadura da burguesia, que utiliza a social-democracia para enganar os trabalhadores.” (JNF)

“A esquerda necessita neste momento de um Partido responsável, que proponha a resolução da crise a favor dos trabalhadores, que congregue amplas massas e unitário nos seus propósitos. Um verdadeiro partido reformista, que entenda as reformas como um passo para obtenção de uma real transformação da sociedade.”
(JNF)

Entretém-te a descobrir onde pertencem. Um abraço.

[ Next Thread | Previous Thread | Next Message | Previous Message ]

Replies:
Subject Author Date
Re: A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de Fevereiro. Resposta ao FernandoLuis Blanch 2/03/05 13:28:12
A distinção direita-esquerdaGonçalo Nuno Freira Valverde 2/03/05 13:54:27
Re: A distinção direita-esquerda e as eleições de 20 de Fevereiro. Resposta ao FernandoGonçalo Valverde 2/03/05 18:57:32
Sobre o reformismoGonçalo Valverde 3/03/05 11:00:21


Post a message:
This forum requires an account to post.
[ Create Account ]
[ Login ]
[ Contact Forum Admin ]


Forum timezone: GMT+0
VF Version: 3.00b, ConfDB:
Before posting please read our privacy policy.
VoyForums(tm) is a Free Service from Voyager Info-Systems.
Copyright © 1998-2019 Voyager Info-Systems. All Rights Reserved.